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Brasileirão começará com 8 SAFs e movimento tímido nos últimos anos

Modelo de Sociedade Anônima ultrapassou a marca de 117 times no país, mas a maioria está nas últimas divisões de acesso

Da redação
DA REDAÇÃO

27/01/2026 • 20:51 • Atualizado em 27/01/2026 • 20:51

Fluminense virou SAF recentemente

Fluminense virou SAF recentemente

LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C.

O Campeonato Brasileiro vai começar, nesta quarta (28), com 8 equipes que viraram SAFs (Sociedades Anônimas do Futebol). Depois de duas grandes “ondas” de transformações dos clubes associativos, agora existe um movimento mais tímido. Mas a “terceira onda” pode começar com o Fluminense.

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Na Série A, as 8 SAFs são Athletico-PR, Atlético-MG, Bahia, Botafogo, Coritiba, Cruzeiro, Fluminense e Vasco. Na Série B tem 8 SAFs também: Atlético Goianiense, América Mineiro, Athletic Club, Botafogo-SP, Cuiabá, Fortaleza, Londrina e Novorizontino.

Um estudo recente do IBESAF (Instituto Brasileiro de Estudos e Desenvolvimento), divulgado no final do ano passado, apontou que o Brasil chegou a incrível marca de 117 clubes que se tornaram SAFs. Isso foi contabilizado apenas até julho de 2025, quando a lei da SAF completou 5 anos.

Guilherme Bellintani, CEO da Squadra Sports, primeira plataforma de multiclubes no Brasil, comentou a diferença entre os dois modelos de gestão: “A diferença central no futebol brasileiro não está simplesmente entre ser SAF ou clube associativo, mas entre ser um clube bem gerido ou mal gerido. Na prática, existem quatro tipos de instituição: a SAF bem administrada, a SAF mal administrada, o clube associativo bem administrado e o clube associativo mal administrado. O topo do sucesso é ocupado pela boa SAF e pelo bom clube associativo. Ser SAF, por si só, não garante nada, assim como ser associativo não é necessariamente um problema. O segredo está na gestão, não no modelo jurídico".

Talita Garcez, sócia do Garcez Advogados e Associados, destaca o aumento de investimentos com a SAFs: "É inegável que, com a transformação desses clubes em SAF, ao menos inicialmente, houve investimento no futebol, com a chegada de novos atletas e melhora na qualidade do elenco e nos resultados. Entretanto, alguns dos investidores desses clubes acabaram se revelando problemáticos, gerando crises devido ao descumprimento de aportes financeiros, à falta de transparência e à ausência de boas práticas de governança. Esses casos evidenciam a importância de negociações bem conduzidas, investigações prévias e critérios rigorosos na escolha do investidor".

Moises Assayag, especialista em finanças no esporte e sócio-diretor da Channel Associados, diz que a tendência é que o modelo SAF se consolide como uma das principais estruturas de governança do futebol brasileiro, mas não necessariamente como o único caminho: "Em quatro anos, o país saltou de zero para mais de 100 clubes-empresa, o que mostra que o mercado reagiu bem ao novo formato. No entanto, a sustentabilidade financeira desses projetos ainda depende de fatores como governança robusta, gestão eficiente, captação de investimentos e estruturas de competição mais organizadas. Com estes fatores, é provável que o ambiente se torne mais atrativo para capital privado, já que a previsibilidade de receitas e a valorização de ativos como os direitos de transmissão devem aumentar. A médio prazo, veremos uma profissionalização mais ampla do futebol nacional, e as SAFs que combinarem boa governança e competitividade esportiva tendem a se destacar nesse cenário."

Movimento do Fluminense pode representar 3ª onda das SAFs?

O último clube grande a virar SAF foi o Fluminense, no final do ano passado. Para especialistas em direito desportivo, esse movimento deve aumentar.

É o que acredita Cristiano Caús, advogado especializado em direito desportivo e sócio do CCLA Advogados: "Eu acredito que pouquíssimos clubes permanecerão como associação a partir de 2027, justamente porque o modelo associativo vai ficar mais caro que o empresarial. Primeira e segunda ondas das SAFs ocorreram, na maioria dos casos, por razões financeiras, seja para os clubes fazerem frente às dívidas, sejam para captarem investidores e, consequentemente, alavancagem de desempenho. Raros foram os clubes que migraram para a SAF por motivo de governança. Agora, com a Reforma Tributária, penso que haverá uma terceira onda e a mudança decorrerá da busca de eficiência fiscal".

Thales Rangel Mafia, Gerente de Marketing da Multimarcas Consórcios, também entende que SAF do Fluminense pode inaugurar uma terceira onda de SAFs no Brasil. "Diferente das primeiras, criadas em cenários de urgência, essa nova fase, envolvendo grandes clubes, se beneficia da observação. A vantagem é aprender com os erros e acertos de pioneiros como Botafogo, Vasco e Cruzeiro, permitindo a estruturação de um modelo de governança mais sólido e a negociação de contratos que garantam os investimentos prometidos, protegendo melhor os interesses e a identidade do clube a longo prazo", diz.

A pergunta que fica é se a 'Terceira Onda' das SAFs esfriou no Brasil, já que em 2024, apesar de algumas equipes traçarem como objetivo essa mudança, nenhum outro da Série A adotou esse modelo.

Para Talita Garcez, o número de SAFs no Brasil está em constante crescimento: "Inicialmente, muitos clubes viam esse modelo como a solução definitiva para seus endividamentos, acreditando que, a partir dela, passariam a ter uma gestão mais séria e profissional. Acredito que o cenário atual é de aprendizado: analisar os erros cometidos pelas primeiras SAFs, avaliar como os desafios vêm sendo enfrentados e agir com cautela na constituição das próximas".

SAFs fora das quatro divisões do Campeonato Brasileiro

A grande maioria das SAFs, 84 no total, não disputa as quatro divisões do Campeonato Brasileiro. Para Cristiano Caús, alguns fatores explicam isso: "Em primeiro lugar, o processo de aprovação é mais fácil, menos burocrático, pois em geral envolve um quadro associativo menor, menos oposição política, torcedores e divulgação na mídia", diz. "Outro aspecto que ajuda explicar o fenômeno é a ausência de receitas. Comparados aos clubes de maior porte, os times menores não enxergam alternativa além da SAF para atraírem investidores e, consequentemente, dinheiro. Por fim, esses clubes muitas vezes já são geridos como empresas informais, por meio de “presidonos” ou investidores apaixonados que vêm colocando seus recursos pessoais na entidade, e a única alternativa para que tenham o retorno no dinheiro investido é trocarem os créditos por ações de uma SAF".

A região que concentra o maior número de SAFs do país é São Paulo, com 29, mas, curiosamente, nenhum corresponde à Série A. É seguido por Paraná (15), Minas Gerais (13), Santa Catarina (9) e Goiás (9), Bahia (8), Distrito Federal (6), Rio de Janeiro (4), Rio Grande do Norte (4), Ceará (3), Mato Grosso (3), Amazonas (2), Espírito Santo (2), Paraíba (2), Pernambuco (2), Acre (1), Alagoas (1), Mato Grosso do Sul (1), Rio Grande do Sul (1), Roraima (1) e Sergipe (1). Os únicos estados que não possuem times com SAF são Amapá, Maranhão, Pará, Piauí, Rondônia e Tocantins.

Para Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá, a entrada de capital no futebol brasileiro foi a mudança mais impactante com a lei da SAF: "Na minha visão ainda é só o início desta transformação, com muitas empresas do exterior querendo investir aqui. Ainda é um processo que, pra ficar ainda mais organizado, vai levar de cinco a sete anos, até termos regras mais claras e profissionais do que é hoje", afirma.

Em Ribeirão Preto, o Botafogo-SP foi um dos primeiros clubes do país a migrar do modelo associativo para uma gestão empresarial. Ainda em meados de 2018, Adalberto Baptista, dirigente que passou pelo São Paulo, assumiu o controle do futebol do clube, o que deu início ao projeto da Botafogo SA. Depois de passar para um processo de reestruturação financeira, o Pantera anunciou um investimento de mais de R$25 milhões no novo Centro de Treinamento para as categorias de base do clube.

“Desde que entramos no Botafogo, conseguimos estruturar o clube em diversos aspectos. A reconstrução deve ser feita de forma responsável. Funcionamos como uma empresa, com organograma, estratégias e respeitando os limites financeiros. A mudança para o modelo de SAF deu um novo rumo para a história do clube, com muito mais profissionalismo e preocupação com os aspectos financeiros”, comenta Adalberto.

Qual é a projeção para os próximos anos?

O cenário que se desenha para os próximos anos é de esperança, afinal, os clubes negociam a criação de uma liga que visa uma maior igualdade na distribuição das receitas e o controle das operações, inclusive com negociação dos direitos de TV e receitas.

Para Cristiano Dresch, isso fará o número de SAFs aumentar: "Acredito em 70%, 80%. Muitos times tem necessidade de virar empresa, incluindo os grandes, que vão precisar desta transformação para sobreviver. Mas muita coisa precisa ser corrigida, em especial com uma lei específica para o fair play financeiro. Hoje ainda temos uma facilidade muito grande para um clube entrar em recuperação judicial e dar um calote generalizado".

Cristiano Caús enxerga que esse modelo pode ser o mais viável até para grandes clubes, como Corinthians e Flamengo: "Poderia ser uma alternativa aos chamados grandes porque o longo prazo justifica essa mudança. O que quero dizer com isso é que uma empresa não consegue viver com uma gestão totalmente nova e diferente de três em três anos, com trocas constantes nos departamentos do clube. A SAF permite fazer projeções superiores a cinco ou dez anos. Seriam implementadas melhorias com profissionais de mercado, desde a base até o profissional, passando pelo departamento administrativo, financeiro, comercial, marketing, jurídico, entre outros, que não estariam sujeitos às mudanças de grupos políticos e acordos de eleição".

Talita Garcia concorda: "O futuro dos times não está necessariamente atrelado à transformação em SAF. Entendo que clubes bem administrados, que adotam boas práticas de governança, e que possuem credibilidade com têm potencial para arrecadar receitas diversificadas, só se transformarão em SAF caso encontrem vantagens adicionais nesse modelo — como, por exemplo, benefícios tributários".

Claudio Fiorito, presidente da P&P Sport Management Brasil, também vê essa mudança como uma tendência para os próximos anos: “Isso deve acontecer especialmente com a formação da Liga, que deve ampliar receitas e exigir maior profissionalização para competir em alto nível. O futuro aponta para um futebol brasileiro mais estruturado financeiramente, mas o sucesso dependerá da qualidade da gestão em cada projeto”.

Opinião semelhante tem Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana, comandada pelo cantor Jay-Z, que gerencia a carreira de centenas de atleta. "A tendência é de que tenhamos um novo movimento para a constituição de novas SAFs, nao só por conta do fluxo global e natural de formação de grupos acionistas de clubes em diferentes países explorando sinergias, mas também por pressão de clubes de massa ou com grandes torcidas, que vão cobrar dos seus clubes que "incomodem" Flamengo e Palmeiras, por exemplo", aponta.

Moises Assayag conclui: “A consolidação das SAFs está diretamente ligada ao amadurecimento do mercado do futebol brasileiro. O modelo trouxe transparência, governança e atratividade para investidores. O futuro deve ser híbrido, com clubes associativos coexistindo com SAFs, desde que ambos sejam mais profissionalizados e financeiramente bem estruturados. O que vai definir o sucesso é a capacidade de execução e a responsabilidade na gestão, não apenas o formato jurídico".

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