
Lenda urbana famosa do Recife, a "perna cabeluda" é apontada por alguns como uma resposta da imprensa à censura da ditadura
Biblioteca Nacional/Acervo Diario de Pernambuco/DW
A enfermeira Anne Sthefany, 31, guarda até hoje a lembrança das noites em que se sentava com o irmão para ouvir histórias de terror contadas por um tio. Uma delas atravessou a infância e permaneceu viva na memória: a de uma perna cabeluda que andava sozinha pelas ruas do Recife. “A gente ficava imaginando como uma perna conseguia andar chutando as pessoas. Eu ia dormir pensando nisso”, diz.
Anne não foi a única criança da cidade assombrada pela “perna cabeluda”, um dos personagens mais marcantes de “O Agente Secreto”, filme premiado do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho. No longa, o membro decepado que surge na boca de um tubarão e ganha vida como um vilão moralista vai além do realismo fantástico ou da adaptação de uma lenda urbana: evoca uma identidade cultural profundamente ligada ao Recife.
Ambientada na capital pernambucana, a obra dialoga com uma cidade conhecida por criar, alimentar e perpetuar boatos e histórias fantásticas. A “perna cabeluda”, que assustou crianças e adultos ao ganhar espaço nos jornais e no rádio na década de 1970, soma-se a outras narrativas que renderam ao Recife a fama de “cidade assombrada”.
Esse imaginário já foi retratado em diferentes linguagens, do cinema à literatura e aos quadrinhos. Entre os exemplos mais conhecidos estão “Assombrações do Recife Velho”, do sociólogo e escritor Gilberto Freyre (1900–1987), e os filmes “Recife Assombrado 1 e 2”, de Adriano Portela.
A reputação também inspira iniciativas culturais, como o projeto “Recife Assombrado”, dedicado a investigar e preservar folclores e lendas urbanas da chamada Veneza brasileira, além de servir de base para roteiros turísticos.
Por que o Recife é terreno fértil para boatos e lendas urbanas
“Acreditar em histórias de assombração faz parte do imaginário e do modo de ser do pernambucano, do recifense”, afirma o jornalista e escritor Roberto Beltrão, um dos criadores do projeto Recife Assombrado. “Por isso um boato como o da ‘perna cabeluda’ ganhou tanta força: ele não soava estranho para a gente.”
Beltrão viveu, na infância, o medo de encontrar a perna pelas ruas. Para ele e outros especialistas ouvidos pela reportagem, a própria história da cidade ajuda a explicar esse apreço pelas lendas. Fundado em 1537, o Recife é a capital mais antiga do Brasil e foi moldado por uma sociedade patriarcal canavieira, marcada pelo que Beltrão chama de “catolicismo mediúnico”, que admitia a comunicação entre vivos e mortos.
“A Igreja Católica, como instituição, não incentiva esse tipo de crença, mas em Pernambuco isso ganhou muita força. Gilberto Freyre dizia que, na casa-grande, se cultuavam Deus, os santos e os mortos”, afirma.
“Em todo lugar com muitas festividades, há muito sagrado. E onde há o sagrado, o imaginário coletivo encontra terreno fértil”, acrescenta Rúbia Lóssio, socióloga, folclorista e coordenadora da Comissão Pernambucana de Folclore e Culturas Populares.
A geografia também pesa. Cidade portuária, o Recife foi ponto de passagem de diferentes povos e absorveu influências judaicas, portuguesas, europeias, africanas e indígenas. “É um caldeirão de efervescência criativa. Nossa construção social é pautada pela manifestação do fantástico”, diz Lóssio.
Não por acaso, muitas lendas recifenses têm o espaço público como cenário. “Em geral, a assombração fica restrita a um casarão ou a uma casa. No Recife, não. Ela sempre esteve no meio da rua”, afirma.
Em artigo sobre a “perna cabeluda”, João Braga, doutor em ciências da religião e divulgador científico do canal O Polímata, relaciona esse aspecto à violência histórica da cidade, marcada por guerras, massacres, revoltas e altos índices de assassinatos.
Episódios como a Setembrada, revolta militar do século 19 contra a presença portuguesa, deram origem ao boato de que o choro de uma criança era ouvido em uma praça do centro, onde mortos do confronto teriam sido enterrados. O local passou a se chamar Chora Menino.
“Na pesquisa que fiz, algumas pessoas relacionavam a lenda da perna sem corpo à prática de desmembramentos por grupos de extermínio”, diz Braga.
Ele lembra ainda que a “perna cabeluda” aparece na música “Banditismo por uma questão de classe”, de Chico Science, que aborda a violência policial. “Essas lendas urbanas refletem a situação social de uma população oprimida. No filme de Kleber Mendonça Filho, a violência está presente do começo ao fim. A ‘perna cabeluda’ é consequência disso”, afirma.
Das páginas dos jornais às salas de aula
Existem diferentes versões sobre a origem da lenda, mas todas evidenciam o papel da imprensa pernambucana na criação e amplificação dos boatos. Em “Treze Noites com a Perna Cabeluda”, Beltrão relata que o primeiro registro apareceu no Diario de Pernambuco em 10 de dezembro de 1975. Sem assinatura, o texto dizia que moradores de São Lourenço da Mata viam a sombra de uma perna se mover pelas paredes.
No dia seguinte, o jornal informou que a aparição já teria sido vista em outros bairros e se tornara um “problema policial”. Dois dias depois, tentou minimizar o caso, atribuindo-o à imaginação popular. Em fevereiro de 1976, porém, retomou o tema em um texto ficcional de Raimundo Carrero, já usando o nome “perna cabeluda”.
O boato também foi impulsionado no rádio por Geraldo Freire e Jota Ferreira, na então Rádio Repórter do Recife. Ferreira, à época repórter iniciante, teria sido instigado por Freire a inventar uma história para o noticiário policial, segundo relato à revista piauí.
Há quem veja no episódio uma forma de driblar a censura da ditadura militar. “Havia um apelo moralista. Diziam que a perna atacava pessoas que estavam na farra”, lembra Beltrão.
Depois dos anos 1970, a lenda entrou em dormência, sendo resgatada esporadicamente, como em “O Agente Secreto” e em “Recife Assombrado”, que chegou a instalar uma perna cabeluda gigante no centro histórico como ação promocional do segundo filme.
Essas manifestações ajudam a perpetuar a história entre gerações. É o caso de um cordel da escritora Mari Bigio, usado pela professora Maria Rafaela Albuquerque em uma creche municipal. “A recepção das crianças foi maravilhosa. Falamos do Recife de forma lúdica, sem medo”, diz.
Outros boatos da cidade
Não é difícil encontrar no Recife alguém que já tenha sido afetado por um boato que se espalhou no boca a boca, ganhou jornais e rádio e precisou ser desmentido por autoridades.
Pouco antes da “perna cabeluda”, outro episódio marcou a cidade. Em julho de 1975, chuvas históricas alagaram 80% da área urbana, deixaram mais de 100 mortos e 350 mil desabrigados. Dias depois, espalhou-se o boato de que a barragem de Tapacurá havia estourado, provocando pânico coletivo, correria pelas ruas e até infartos. O então governador Moura Cavalcanti precisou ir a público negar a informação.
O episódio é narrado no livro “Tapacurá — Viagem ao planeta dos boatos”, do jornalista Homero Fonseca, e foi reavivado em 2011, durante nova cheia, quando rumores semelhantes voltaram a circular. “Lembro de chegar da escola e ver minhas lancheiras, bonecas, tudo na lama”, recorda Lóssio.
Os boatos persistem. Há menos de um mês, um recuo intenso do mar levou moradores da capital e da região metropolitana a espalhar o temor de um tsunami. “As fotos começaram a circular, e isso ficou na nossa cabeça. Meus filhos chegaram a fazer uma mala para fugir”, conta Anne Sthefany. “A gente tem essa mania de aumentar as coisas”, diz, rindo.
Com informações da Deutsche Welle.
