Lifestyle

Com diversidade, filme discute opressão e violência contra a mulher

"Lago dos Afogados" trata de assassinatos misteriosos em meio a um Brasil marcado por feminicídios

Guilherme Machado
GUILHERME MACHADO

30/06/2026 • 13:15 • Atualizado em 30/06/2026 • 14:09

Bastidores do filme "Lago dos Afogados"

Bastidores do filme "Lago dos Afogados"

Guilherme Machado/Band

Mulheres violentadas e afogamentos misteriosos. É neste clima que se desenrola o filme “Lago dos Afogados”, protagonizado por Amanda Azevedo, conhecida por seu trabalho na série “De Volta aos 15”, e que parece conversar diretamente com um Brasil cada vez mais abalado por feminicídios e preconceitos. A história do curta também é uma de diversidade: a atriz Clodd Dias, por exemplo, interpreta Sandra, uma mãe que vê sua filha se tornar uma das vítimas de uma série de crimes investigados pela personagem de Amanda.

Compartilhar

A intérprete vibra com a possibilidade de interpretar um papel com esse nível de camadas, uma conquista que lhe toca fundo devido à sua trajetória.

“Eu sou uma mulher trans preta. Dentro desse recorte no Brasil, são três marcadores que acabam não tendo tanto eco; as pessoas não se importam tanto. O feminicídio e a violência contra a mulher ainda são muito grandes no Brasil, o racismo estrutural é muito grande, e a transfobia também. Então, para mim, emprestar um pouco dessas dores... eu empresto para a Sandra, que clama por justiça", ressalta ela em entrevista ao Band.com.br.

Eu sou uma atriz que também milita dentro do movimento LGBTQIA+. Quero existir enquanto atriz, lógico. Como sou uma sobrevivente dentro desse sistema, emprestei isso para a Sandra. Porque muitas vezes é isso: a gente não é ouvida quando precisa ser. Esse sangue nos olhos, essa garra de uma mulher que tem coragem de ir três vezes brigar na Justiça pela filha dela, está muito dentro de mim.

Ao mesmo tempo, a artista também tem ciência de que o mercado do trabalho ainda pode ser bastante hostil para a comunidade LGBTQIA+. Neste ano, por exemplo, se falou muito sobre as dificuldades enfrentadas pela Parada LGBTQIA+ em São Paulo e o fim do mês do orgulho só deixa mais evidente que a trajetória ainda é longa.

Clodd, que já trabalhou em projetos como “Manhãs de Setembro”, espera que essa realidade fique cada vez mais evidente, e de dissipe.

“Fica o meu apelo: estou disponível para o mercado de trabalho. E é bom dizer que a falta de oportunidades talvez seja um reflexo do preconceito. Nós — mulheres trans, homens trans, pessoas não binárias — estamos aqui para o mercado. Por isso, é importante que produtores de elenco, diretores e autores nos chamem. E mais: a gente não quer fazer só papel de pessoa trans ou ficar presa a estereótipos da hipersexualização dos corpos trans. Quem tem poder dentro do audiovisual precisa entender e ser aliada de verdade do nosso movimento”, frisa.

A diretora do filme, Stefany Taglialatella, relata que buscou trazer a diversidade por essa ser um reflexo da realidade.

“Ela ser uma mãe trans não muda o fato de ela ser uma mãe. Acho muito importante ter essa diversidade de corpos representando simplesmente o cotidiano porque é simplesmente a realidade. Essas pessoas estão vivendo dessa forma. Sinto que forçar o estereótipo, na verdade, é trazer uma retratação não real. Eu não sou uma pessoa privilegiada, eu cresci em uma vila, sou periférica, sou a primeira pessoa da minha família a ter uma formação. Eu cresci em um meio onde esses corpos apareciam e viviam. Então para mim é muito natural tanto debater esses temas quanto representar esses corpos”, enfatiza.

Opressão e medo

“Lago dos Afogados” explora a violência contra a mulher nas diferentes nuances nas quais ela surge no cotidiano. Um exemplo é o personagem, César, vivido por Anderson Negreiro, policial que fica extremamente incomodado com a chegada da personagem de Amanda Azevedo e que julga que ele sabe lidar melhor com a pressão de uma delegacia.

"Ele é um homem machista e, ao mesmo tempo, carrega essa contradição e complexidade: a mãe dele foi violentada, mas ele já está nessa cidade há cerca de 15 anos tentando desvendar uma série de assassinatos”, afirma o ator.

Com o tempo, ele passa a ver a colega como uma espécie de “aprendiz”.

“Eu sou um cara que estuda muito esse lugar: a literatura feminina e os movimentos feministas. Trabalhei durante 15 anos em uma companhia em que a escrita era feminina e todos os nossos temas estavam relacionados ao feminino. Mas, mesmo me relacionando com todo esse material e com muitas pensadoras, é muito louco perceber que eu também sou machista. Tenho muitas atitudes machistas; me percebo nelas e tento contorná-las”, destaca ele.

Me identifico com o César nesse sentido: de ter sido criado por uma mãe solteira, de ter esse afeto. E acho que, se o que houve com a mãe dele acontecesse com a minha, eu também buscaria, de todas as formas, encontrar quem fez aquilo para que a justiça fosse feita.