Band Jornalismo

Como a guerra no Irã pode afetar o tratamento de água no Brasil

Fechamento do Estreito de Ormuz gera escassez de enxofre e leva setor de saneamento a pedir flexibilização da fluoretação

Deutsche Welle
DEUTSCHE WELLE

07/08/2026 • 09:47 • Atualizado em 07/08/2026 • 09:48

Estreito de Ormuz

Estreito de Ormuz

REUTERS/Stringer

A guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, iniciada no final de fevereiro, levou ao fechamento de uma das principais rotas marítimas do transporte de petróleo e outras matérias-primas no mundo, o Estreito de Ormuz. Após cinco meses de conflito, a crise gerada pelo bloqueio da via pode impactar agora o tratamento da água no Brasil.

Compartilhar

O fechamento do Estreito de Ormuz provocou uma crise global no fornecimento de enxofre, matéria-prima utilizada por diferentes segmentos industriais. Quase metade do enxofre transportado por via marítima no mundo passava por Ormuz, e a maior parte deste insumo utilizado no Brasil é importado.

O enxofre é fundamental na produção de fertilizantes, que tem como subproduto o ácido fluossilícico, utilizado na etapa de fluoretação da água. Com a escassez de enxofre empresas brasileiras reduziram a produção de fertilizantes, o que gerou também uma diminuição na quantidade de flúor disponível no mercado.

Por lei, essa substância precisa ser adicionada à água consumida pela população durante o processo de tratamento. A fluoretação da água é realizada no Brasil desde 1974, com o objetivo de prevenir a incidência de cáries.

"A água fluoretada vai para o trato intestinal, e uma parte do fluoreto é absorvida e vai ser liberada na saliva", explica Paulo Frazão, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP).

Em nota, o Ministério da Saúde ressaltou a importância da medida, que é recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O órgão informou que "a fluoretação constitui uma etapa complementar e não afeta a disponibilidade de água tratada para a população", e disse que vai apoiar o mapeamento de fornecedores nacionais e internacionais capazes de viabilizar aquisições emergenciais do insumo.

Qualidade não será comprometida

Apesar da escassez de flúor, representantes do setor de saneamento afirmam que a qualidade da água ofertada à população não será comprometida.

"O flúor é uma etapa que é adicionada ao final do tratamento, depois que a água já está limpa e descontaminada. A água continua segura para o consumo da população", garante a diretora técnica e econômica da Associação Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Abcon), Carol Marques.

"Estamos diante de um choque global de oferta, não de uma falha do saneamento brasileiro", afirma Munir Abud, presidente nacional da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (AESBE) e diretor-presidente da Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan).

Abud acrescenta que o insumo também está sendo racionado em outros países, como nos Estados Unidos, onde cidades já reduziram a dosagem de flúor pela metade.

Resposta das autoridades

A AESBE e a Abcon relatam ter alertado o Ministério da Saúde assim que a escassez do insumo foi constatada. "Eles entenderam que a situação não está no nosso controle e pareceram sensibilizados em relação à nossa demanda", afirma Marques.

Abud diz que uma proposta técnica foi apresentada ao ministério em junho, solicitando uma flexibilização temporária da obrigatoriedade da fluoretação. "Reconhecemos o valor da fluoretação como política de saúde pública amparada em lei. Por isso, não pedimos o seu fim, e sim uma medida de transição para uma escassez que nenhuma empresa poderia evitar", explica.

Abud destaca que a crise no Oriente Médio pressiona também o fornecimento de outros insumos utilizados no tratamento de água.

Em São Paulo, estado com a maior população atendida por serviços de abastecimento de água do país, a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) afirmou em nota que está acompanhando o abastecimento de flúor e que vai trabalhar em articulação com os órgãos reguladores de saúde e autoridades federais e estaduais para buscar alternativas.

Até o momento, "a Sabesp dispõe de estoque para manter a operação e segue monitorando diariamente a situação", informou a empresa.

---------

Não deixe que o algoritmo esconda as notícias. Se você valoriza o trabalho da nossa equipe para uma cobertura jornalística confiável, reserve um momento para nos selecionar como sua fonte preferida no Google clicando aqui. Marque o link da DW quando ele aparecer na lista para sempre ver nossas notícias verificadas primeiro.

Autor: Evandro Almeida Júnior