Jornal da Band

Produtividade e encargos travam debate sobre redução da jornada 6x1

Enquanto países ricos como o Reino Unido focam em eficiência, custo da folha salarial brasileira chega a dobrar gastos das empresas.

FELIPE KIELING

13/02/2026 • 19:29 • Atualizado em 13/02/2026 • 19:29

A discussão sobre a redução da escala de trabalho de 6 por 1 para modelos que garantam mais descanso ao trabalhador, sem redução salarial, enfrenta um impasse econômico no Brasil. O núcleo do debate reside na capacidade de gerar riqueza: enquanto países ricos conseguem produzir mais em menos tempo, o Brasil lida com uma baixa produtividade aliada a uma das folhas de pagamento mais caras do mundo.

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No Reino Unido, por exemplo, cada hora trabalhada gera, em média, cerca de 59 dólares. No Brasil, esse valor cai drasticamente para cerca de 21 dólares. Essa disparidade não está ligada à competência individual, mas à estrutura econômica.

A economia britânica é focada em serviços de alto valor agregado e tecnologia, impulsionada por universidades de ponta, como Oxford e Cambridge, que preparam profissionais para atividades altamente sofisticadas.

Flexibilidade e encargos: o peso da folha

Outro fator que distancia as duas realidades é a flexibilidade do mercado de trabalho. No Reino Unido, existem modelos como os "contratos de zero hora", onde não há garantia de carga horária mínima ou máxima, e o funcionário recebe estritamente pelo que produz. Além disso, o sistema de encargos britânico é simplificado. Não existem obrigações como o décimo terceiro salário ou o FGTS. Em média, os empregadores britânicos pagam entre 8% e 10% de contribuições sociais sobre o salário bruto.

Já no Brasil, a estrutura trabalhista é considerada uma das mais complexas e onerosas do planeta. Somando apenas impostos e obrigações básicas, o custo adicional para a empresa chega a 45% sobre o salário. Quando são incluídos benefícios como férias remuneradas, décimo terceiro e planos de saúde, o gasto total da empresa com um colaborador pode ultrapassar o valor do próprio salário líquido pago a ele.

O impasse da contratação

Essa complexidade torna a contratação no Brasil mais arriscada e cara para as empresas, dificultando a adesão a novos modelos de jornada. Enquanto a simplicidade das regras britânicas facilita o fluxo de contratações e adaptações de carga horária, o modelo brasileiro exige que qualquer mudança na escala seja acompanhada de uma profunda revisão de custos para evitar o colapso financeiro dos negócios, especialmente nos setores de serviços e comércio.

A viabilidade da redução da jornada no Brasil, portanto, depende não apenas de vontade política, mas de um avanço na produtividade nacional e de uma possível desoneração que equilibre o alto custo de manter um funcionário formalizado.