Seis meses após a captura de Nicolás Maduro por forças especiais dos Estados Unidos, o sentimento dominante nas ruas da Venezuela não é de libertação, mas de desilusão. A intervenção de Washington, que prometia uma virada econômica e democrática, não conseguiu travar a espiral de pobreza e instabilidade que assola o país há quase 15 anos.
A realidade econômica pós-Maduro revela-se, para muitos, ainda mais dura do que o período anterior. O custo de vida tornou-se insustentável para a maioria da população. Em maio, a inflação atingiu a marca de 500% em relação ao ano passado, sendo que apenas nos primeiros cinco meses deste ano o índice acumulado já ultrapassou os 100%.
"A vida está duríssima. Temos que trabalhar e trabalhar. Não há o que fazer a não ser seguir trabalhando", desabafou um cidadão local à reportagem. Com o dólar e o euro em patamares elevadíssimos, os recentes reajustes salariais mostram-se insuficientes até para cobrir os custos básicos da cesta básica alimentar.
Chavismo e tutela dos EUA
Apesar da saída da figura central do regime, as estruturas de poder do chavismo permanecem praticamente intactas. Figuras influentes como a presidente interina, Delcy Rodríguez, e o ministro do interior, Diosdado Cabello, continuam a exercer controle institucional. Rodríguez, por sinal, era vice-presidente de Maduro.
Politicamente, o país vive sob o que especialistas chamam de um processo de "condução ou tutelagem" exercido pelos Estados Unidos. Segundo os planos de Washington, a transição para uma democracia plena só ocorrerá quando houver estabilidade econômica, o que mantém a oposição em espera.
Um exemplo drástico desta tutela foi a proibição imposta pelos próprios EUA à líder opositora Maria Corina Machado, impedindo-a de regressar à Venezuela sob o argumento de que a sua presença poderia gerar instabilidade.
Crise humanitária e revolta
A insatisfação popular atingiu um novo ápice após a falha do governo em responder aos terramotos ocorridos há dez dias. A falta de ação governamental diante do desastre natural serviu como catalisador para novos protestos. Até o momento, mais de 3.500 mortes foram confirmadas, mas milhares de pessoas seguem desaparecidas.
Embora se registe uma ligeira diminuição na repressão e uma liberdade de expressão marginalmente maior, o rótulo de "ditadura" volta a ecoar nas ruas de Caracas para descrever a atual gestão.
Para os venezuelanos, a transição prometida permanece ausente, e a esperança de que a saída de Maduro traria mudanças imediatas deu lugar a uma certeza amarga: o caminho para a reconstrução do país será muito mais longo do que o previsto.
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