
Juiz José Eduardo Franco dos Reis ao lado de familiares
Reprodução
A história do juiz aposentado José Eduardo Franco dos Reis, que por mais de quatro décadas se apresentou como o nobre inglês Edward Albert Lancelot Dodd Canterbury Caterham Wickfield, envolve a criação de uma identidade falsa usada para ingressar e atuar por 25 anos no Judiciário de São Paulo.
A farsa, que enganou instituições públicas e jurisdicionados, foi descoberta por um sistema de biometria e hoje é alvo de um processo criminal que apura os crimes de falsidade ideológica e uso de documento falso. Entenda abaixo os principais pontos do caso.
Como a identidade falsa foi criada?
A dupla vida de José Eduardo Franco dos Reis começou em 19 de setembro de 1980. Nascido em Águas da Prata (SP), ele obteve um RG com seu nome verdadeiro em 1973, mas sete anos depois, por razões ainda desconhecidas, criou a persona de Edward Wickfield.
Segundo a denúncia do Ministério Público, para consolidar a farsa, ele apresentou uma série de documentos falsos, incluindo um certificado de reservista, uma carteira de trabalho e um título de eleitor. A promotoria aponta que, na época, a falta de sistemas eletrônicos integrados facilitou a fraude. Durante todo o tempo, ele manteve a identidade real ativa, usando-a em sua vida familiar.
Como ele se tornou juiz?
Com o nome falso, "Wickfield" construiu uma carreira de prestígio. Em 1988, ingressou na Faculdade de Direito do Largo São Francisco da Universidade de São Paulo (USP). Em 1996, foi aprovado no concurso para a magistratura paulista, um dos mais concorridos do país.
Na ocasião, chegou a conceder uma entrevista na qual inventou uma biografia de nobreza: afirmou ser descendente de lordes ingleses e ter estudado matemática e física na Inglaterra até os 25 anos. Por 25 anos, ele julgou milhares de processos e se aposentou em 2018 como titular da 35ª Vara Cível de São Paulo.
Como a farsa foi descoberta?
A mentira que durou mais de 40 anos foi desfeita pela tecnologia em 3 de outubro de 2024. Ao comparecer ao Poupatempo da Sé para pedir uma segunda via de sua identidade falsa, suas digitais foram cruzadas pelo Sistema Automatizado de Identificação Biométrica (AFIS/ABIS). O sistema emitiu um alerta de duplicidade, associando as digitais do suposto "lorde" às de José Eduardo Franco dos Reis, o que deu início à investigação policial.
Qual a situação atual do caso?
Atualmente, o juiz aposentado responde a um processo criminal por falsidade ideológica e uso de documento falso, que tramita em segredo de Justiça. Sua defesa alegou que ele sofre de Transtorno de Personalidade Esquizoide e seria, portanto, inimputável (não poderia responder criminalmente). Contudo, um laudo oficial do IMESC, solicitado pela Justiça, concluiu que ele é "consciente e imputável", ou seja, tinha plena noção de seus atos.
Apesar do processo, o Tribunal de Justiça de São Paulo restabeleceu o pagamento de sua aposentadoria, que estava suspensa. A justificativa foi a necessidade de "regularizar o cadastro". Em fevereiro de 2025, o valor líquido recebido por ele foi de R$ 142 mil. Autoridades brasileiras também confirmaram com o governo britânico que não há registros da suposta ancestralidade nobre alegada por ele.
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