
Trump Casa Branca
Doug Mills/Reuters
"O que vai acontecer com a Venezuela agora?" é uma das perguntas mais feitas pelos brasileiros no Google sobre a crise no país vizinho, revelando a profunda incerteza que se instalou na América do Sul após a ação militar dos Estados Unidos.
A Operação Resolução Absoluta, que culminou na captura do líder venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em 3 de janeiro, foi um ato de força inédito, com bombardeios em Caracas e ataques a alvos militares. Mas, se a missão era derrubar o chavismo, o que o Google Trends da Venezuela aponta é um fracasso estratégico.
O falso colapso: chavismo sobrevive sem Maduro
Apesar da demonstração de força dos Estados Unidos, o regime venezuelano não desmoronou. A estrutura de poder, sustentada pelas Forças Armadas e pelo aparato institucional, permaneceu intacta.
Em Caracas, a vice-presidente Delcy Rodríguez foi empossada imediatamente como presidente interina, com respaldo formal do Tribunal Supremo de Justiça e o reconhecimento das Forças Armadas. Inicialmente, ela classificou a ação dos EUA como um “sequestro” e repudiou a intervenção, afirmando que a Venezuela não voltaria a ser “colônia de nenhum império”.
Nos dias seguintes, no entanto, Delcy adotou um tom menos confrontador e passou a propor a construção de um “relacionamento equilibrado e respeitoso” com Washington, estendendo um convite a cooperação e diálogo para tratar das questões do país dentro do marco das relações internacionais.
A prova de que a sucessão de poder era a questão central está no contraste das buscas. Enquanto o público no Brasil e nos Estados Unidos tentava entender “Por que Trump prendeu Maduro?”, o foco dentro da Venezuela era outro: “O que Trump disse sobre Delcy Rodríguez?”.
O interesse imediato da população venezuelana não foi na oposição, mas na figura que herdou o poder, o que reforça a leitura de que o chavismo sobreviveu à ausência de seu principal líder.
Petróleo no centro da crise e a nova Doutrina Donroe
Em vez de apoiar a oposição democrática, como a líder María Corina Machado, Trump adotou uma postura totalmente pragmática. O presidente americano desqualificou Machado e reconheceu Delcy Rodríguez como interlocutora, alegando que ela “realmente não tem escolha” a não ser cooperar.
O próprio Trump foi explícito sobre seus objetivos. Ele afirmou que os Estados Unidos iriam “administrar o país” temporariamente, com a meta de garantir “acesso total” das empresas americanas às reservas de petróleo. A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas do mundo, estimadas em cerca de 300 bilhões de barris.
Trump rebatizou a antiga Doutrina Monroe como “Doutrina Donroe”, reafirmando que o hemisfério ocidental está sob a esfera de influência dos Estados Unidos. Essa nova doutrina prioriza interesses econômicos e de segurança acima de qualquer retórica de promoção da democracia.
Apesar da intenção declarada de injetar “bilhões de dólares” para reativar a indústria venezuelana, o caminho para que o petróleo volte ao mercado é longo e custoso, exigindo de dois a sete anos de reestruturação.
Intervenção militar, direito internacional e o alerta no Brasil
A ação militar, realizada sem notificação prévia ao Congresso dos Estados Unidos e sem autorização da ONU, foi classificada por China, Rússia e pelo secretário-geral das Nações Unidas como uma grave violação do direito internacional.
O temor central da comunidade internacional é que a operação crie um “precedente perigoso” para a ordem global, incentivando outras potências a agir de forma unilateral em suas áreas de influência. No Brasil, o presidente Lula classificou a ofensiva como uma “afronta gravíssima à soberania”.
O medo de uma escalada na lógica da força se refletiu nas buscas no país, onde a pergunta “Trump pode atacar o Brasil?” entrou em alta.
O que está em jogo a partir de agora
Com Maduro preso em Nova York, a tensão se concentra na capacidade de Delcy Rodríguez de resistir à coerção de Washington. Trump já avisou que os Estados Unidos estão prontos para um “segundo ataque, muito maior”, caso o novo comando não coopere.
O destino imediato da Venezuela se equilibra entre a pressão externa por concessões econômicas e o risco de uma implosão interna em um país que já soma mais de 7 milhões de refugiados e carrega um histórico recente de violência ligada a grupos criminosos.
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