
Cão Orelha foi espancado por adolescentes em SC
Reprodução/Redes Sociais
Resumo
A repercussão do caso Orelha, cão espancado até a morte na Praia Brava, em Florianópolis (SC), gerou comoção nacional e reacendeu o debate sobre a vulnerabilidade dos chamados cães comunitários no Brasil. Longe de serem episódios isolados, os casos de agressão a esses animais têm se multiplicado em diferentes regiões do país.
Na última terça-feira (27), o cachorro Negão foi baleado por um policial militar em Campo Bom, no Rio Grande do Sul. Segundo relatos, o disparo ocorreu após o animal latir ao ter a pata pisada durante uma abordagem policial. O caso é o quarto episódio de maus-tratos a cães registrado apenas na região Sul nos últimos dias.
Além de Orelha, um vira-lata caramelo sofreu tentativa de afogamento, também na Praia Brava, e o cachorro Abacate morreu após ser baleado em Ponta Grossa (PR). Em Campo Bom, a agressão contra Negão foi registrada por câmeras de segurança públicas.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul informou que determinou a abertura de investigação pela Corregedoria da Brigada Militar para apurar a conduta dos policiais envolvidos e as circunstâncias do disparo.
De acordo com relatos colhidos pela vereadora Kayanne Braga (PDT), que atua na causa do bem-estar animal, a confusão ocorreu por volta das 20h30, durante uma abordagem policial a três pessoas em via pública. Um dos agentes teria pisado acidentalmente na pata do cão e, após o animal latir, efetuou o disparo.
Negão é considerado um cão comunitário e um dos sobreviventes da enchente histórica de 2024 no Rio Grande do Sul. Desde então, passou a viver sob cuidados coletivos da comunidade local. Após ser baleado, o animal foi socorrido e levado a uma clínica veterinária, onde recebeu atendimento. O tiro, de munição não letal, atingiu as patas traseiras do cão, que deverá permanecer internado por mais alguns dias. Após a recuperação, ele será disponibilizado para adoção.
Cães comunitários vivem em risco permanente
Para ativistas da causa animal, os casos recentes evidenciam um problema estrutural: a falsa sensação de proteção associada à ideia de cão comunitário. Segundo Gabriel Chaves, ativista da causa animal e fundador do projeto Casa do Vira Lata, a superlotação dos abrigos contribuiu para que esse modelo se tornasse comum, mas ele não pode ser tratado como solução definitiva.
“Considerando a superlotação dos abrigos, um cão comunitário acaba sendo uma alternativa de cuidado para o animal que, muitas vezes, não tem nem água limpa ou dignidade. Mas isso não pode ser a condição definitiva dele. Um cão comunitário não pode ser um cão que perdeu a chance de ser adotado”, afirma.
Gabriel explica que, na prática, esses animais permanecem expostos a uma série de riscos, mesmo quando recebem alimentação e cuidados básicos. “Eles vivem na rua. Atravessam na inocência de uma criança, abanam o rabo para quem pode cometer qualquer atrocidade. São animais extremamente dóceis, puros por natureza”, diz.
Segundo o ativista, a ausência de um tutor legal deixa o animal vulnerável a violências como atropelamentos, envenenamentos e agressões. “Fica todo mundo fazendo rateio para ração, medicamento, veterinário, mas ninguém assume a responsabilidade de fato. Uma hora vai acontecer o que aconteceu com o Orelha.”
Na avaliação de Gabriel, o conceito de cão comunitário só poderia funcionar de forma temporária, com o objetivo claro de encaminhar o animal para um lar definitivo. “Quando chove forte, quando tem frio, vento, ninguém coloca o animal para dentro de casa. Ele fica à própria sorte. Depois que passa, alguém leva um potinho de ração e água. Isso está errado. Eles precisam de muito mais do que isso.”
O ativista também relata episódios de resistência quando tenta resgatar animais que vivem sob cuidados coletivos. “Já fui intimidado por comerciantes e moradores quando resgatei um cachorro de uma praça. Diziam que ele era ‘feliz ali’. Hoje, esse animal vive sob tutela, em um lar maravilhoso, com segurança, carinho e dignidade. Isso mostra como a percepção de bem-estar muitas vezes é distorcida.”
Para ele, enquanto a sociedade tratar o cão comunitário como um destino final — e não como uma etapa transitória — novos casos de violência continuarão a ocorrer. “Todo animal doméstico precisa de um lar, de tutela responsável, de alguém que assuma por ele. A ideia de comunitário só pode existir se for temporária e com a adoção responsável como objetivo final.”
