
Preguiça ficou 60 dias internada após atropelamento
Divulgação/Cetas
Uma história de recomeço terminou entre os galhos da Mata Atlântica paulista. Após dois meses de tratamento intenso e reabilitação no Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres (Cetras) de Registro, uma fêmea adulta de bicho-preguiça (Bradypus variegatus) finalmente retornou ao seu habitat natural.
A soltura aconteceu em uma área preservada do Parque Estadual Carlos Botelho, sob gestão da Fundação Florestal, vinculada à Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil).
O animal foi resgatado em fevereiro de 2026, após ser atropelado às margens de uma rodovia em Juquiá (SP). O acidente aconteceu justamente em um dos raros momentos em que as preguiças descem das árvores.
Você sabia? A cada sete ou dez dias, as preguiças vão ao solo exclusivamente para urinar e defecar. É nesse deslocamento silencioso e extremamente lento que elas ficam mais vulneráveis aos perigos urbanos, como os atropelamentos.
Apesar de não apresentar lesões graves em órgãos internos, a fêmea sofreu ferimentos severos na pata dianteira esquerda. Duas das suas três garras estavam fraturadas e precisaram ser amputadas cirurgicamente. Apenas metade da terceira garra pôde ser preservada.
A importância das garras para as preguiças
As garras desses animais possuem uma estrutura muito particular, pois são formadas por ossos revestidos por queratina (o mesmo material das unhas humanas), que funcionam como ganchos anatômicos, essenciais para que o animal consiga se pendurar, alimentar e se movimentar no topo das árvores durante toda a vida.
Após a cirurgia, a equipe veterinária iniciou uma verdadeira força-tarefa. Foram semanas de cuidados diários voltados ao controle da dor, alimentação balanceada e fisioterapia para adaptação à nova condição física.
A reabilitação de animais silvestres, especialmente preguiças, é um processo complexo. Elas são consideradas extremamente sensíveis ao estresse e ao cativeiro, exigindo controle rigoroso de temperatura e ambientação.
"Preguiças são animais extremamente delicados em reabilitação. Elas têm necessidades muito específicas e qualquer alteração pode gerar estresse importante. Ver essa fêmea recuperada, adaptada e novamente pronta para a vida livre é muito gratificante para toda a equipe", destaca Hanna Sibuya Kokubun, chefe de departamento do Cetras de Registro.
Esperança para a conservação
A escolha do Parque Estadual Carlos Botelho para a soltura foi estratégica. A região possui vegetação preservada, farta disponibilidade de alimentos e conectividade florestal ideal para a espécie. Por se tratar de uma fêmea adulta e em idade reprodutiva, o retorno dela representa um ganho imenso para a conservação da fauna local.
"A devolução em uma Unidade de Conservação também contribui para o fortalecimento da população local de preguiças-da-mata-atlântica, especialmente por se tratar de uma fêmea adulta e apta à reprodução", explica Nathalia Zandomenegui, gestora do Parque Estadual Carlos Botelho.
Este não é o primeiro final feliz na região. Em julho do ano passado, outro indivíduo da mesma espécie foi reabilitado e devolvido à mata no município de Registro, em uma ação que reforça a importância dos Cetras no resgate e preservação das espécies brasileiras.

