
Nunes Marques
Antonio Augusto/TSE
A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) criticou a proposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kássio Nunes Marques, de criar um “selo de acurácia" para institutos de pesquisa, que seria destinado às empresas com maior taxa de acerto dos resultados no pleito.
Para a associação, a proposta de criar o selo “parte de uma premissa equivocada sobre o que é uma pesquisa eleitoral”.
“Pesquisas medem a intenção de voto no momento em que são realizadas. Não são previsões nem promessas de resultado. Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa ‘acerte’ o resultado é confundir ciência com bola de cristal”, declarou a ABEP em nota.
Conforme a associação, a proposta também “cria um incentivo perverso”. “Institutos sem rigor metodológico poderão simplesmente acompanhar as pesquisas dos institutos sérios e, na reta final da campanha, ajustar seus números para convergir ao consenso. Como o TSE distinguirá quem produziu informação científica de quem apenas copiou ou seguiu a tendência? Não há como”.
Para a associação, quando o objetivo passa a ser ganhar um “selo de acerto”, o incentivo deixa de ser produzir a melhor pesquisa e passa a ser publicar o número que “maximize a chance de receber o prêmio”.
Na visão da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, a proposta enfraquece, em vez de fortalecer, a qualidade da informação oferecida ao eleitor.
“Causa especial preocupação que a Justiça Eleitoral pretenda assumir o papel de árbitro da qualidade das pesquisas a partir de um critério tecnicamente equivocado. A avaliação da qualidade de um levantamento deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas — não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada”.
A ABEP reafirma o respeito ao TSE e ao seu papel na garantia da lisura das eleições. “Justamente por isso, entendemos que iniciativas dessa natureza precisam ser construídas em diálogo com a comunidade científica e com os institutos de pesquisa, para que não acabem estimulando práticas oportunistas e desvalorizando o rigor metodológico que deve orientar toda pesquisa séria”.
Por fim, a associação se colocou à disposição para participar de um debate técnico e qualificado com a Justiça Eleitoral sobre iniciativas que fortaleçam a transparência, integridade e a credibilidade das pesquisas eleitorais.
“A construção de soluções efetivas exige diálogo com a comunidade científica e com os institutos que atuam na área, para que as medidas adotadas estejam alinhadas aos princípios e às boas práticas da pesquisa de opinião”, finalizou.
Entenda
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kássio Nunes Marques, propôs a criação de um "selo de acurácia" para institutos de pesquisa, que seria destinado às empresas com maior taxa de acerto dos resultados no pleito.
A proposta consta em uma minuta que foi apresentada para representantes de 16 institutos de pesquisa que participaram de uma reunião com o presidente da Corte Eleitoral.
“Anuncio, antes de dar início à escuta das contribuições das senhoras e dos senhores, que também é chegado o momento de a Justiça Eleitoral laurear as empresas que, a cada ciclo, dedicam seus melhores esforços em favor da democracia”, disse Nunes Marques.
“Nesse espírito, faço hoje o lançamento de premiação destinada às empresas de pesquisa, cuja minuta se encontra provisoriamente denominada de ‘Selo Acurácia Eleitoral’. Essa iniciativa destina-se ao reconhecimento das entidades cujas estimativas apresentem maior grau de aderência aos resultados oficiais das eleições”, completou.
Segundo a minuta de portaria à qual o Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) teve acesso, o selo seria entregue após o segundo turno das eleições em data a ser definida.
A avaliação vai considerar somente pesquisas realizadas nos sete dias que antecedem o pleito e no dia das eleições (boca de urna) que forem efetivamente divulgadas. O texto também afirma que estarão excluídos da premiação empresas que tiverem sido condenadas por irregularidades graves.
Segundo participantes do encontro, os institutos levaram preocupações sobre o recorte temporal para a avaliação.
*Com informações do Estadão Conteúdo.
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