
Nunes Marques
Antonio Augusto/TSE
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kássio Nunes Marques, propôs a criação de um "selo de acurácia" para institutos de pesquisa, que seria destinado às empresas com maior taxa de acerto dos resultados no pleito.
A proposta consta em uma minuta que foi apresentada para representantes de 16 institutos de pesquisa que participaram de uma reunião com o presidente da Corte Eleitoral.
“Anuncio, antes de dar início à escuta das contribuições das senhoras e dos senhores, que também é chegado o momento de a Justiça Eleitoral laurear as empresas que, a cada ciclo, dedicam seus melhores esforços em favor da democracia”, disse Nunes Marques.
“Nesse espírito, faço hoje o lançamento de premiação destinada às empresas de pesquisa, cuja minuta se encontra provisoriamente denominada de ‘Selo Acurácia Eleitoral’. Essa iniciativa destina-se ao reconhecimento das entidades cujas estimativas apresentem maior grau de aderência aos resultados oficiais das eleições”, completou.
Segundo a minuta de portaria à qual o Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) teve acesso, o selo seria entregue após o segundo turno das eleições em data a ser definida.
A avaliação vai considerar somente pesquisas realizadas nos sete dias que antecedem o pleito e no dia das eleições (boca de urna) que forem efetivamente divulgadas. O texto também afirma que estarão excluídos da premiação empresas que tiverem sido condenadas por irregularidades graves.
Segundo participantes do encontro, os institutos levaram preocupações sobre o recorte temporal para a avaliação.
"A pesquisa é uma foto do momento eleitoral. É difícil falarmos em acerto de uma pesquisa, por exemplo, se não considerarmos a relevância do tempo. Hoje, um candidato está atrás e não necessariamente ele vai terminar na frente ou vai terminar atrás. É importante que isso seja levado em consideração, se esse selo for adiante, de que quem fizer uma pesquisa mais próxima do pleito tende a acertar", afirmou a jornalistas o diretor-executivo da Real Time Big Data, Lucas Thut Sahd.
"Essa foi uma primeira proposta que o presidente Kássio colocou para ser discutida, não foi uma imposição, não foi algo concreto, mas foi uma minuta para que a gente possa discutir", disse o diretor de Análise Política da Atlas Intel, Yuri Sanches.
A reunião foi convocada por Nunes Marques após ele suspender, em junho, uma pesquisa da Atlas Intel por suspeita de induzimento do eleitor. O julgamento foi paralisado por pedido de vista da ministra Estela Aranha. Na ocasião, os ministros afirmaram que a análise não vai se restringir ao caso da Atlas e vai definir um precedente que deverá ser seguido por todos os tribunais regionais eleitorais (TREs).
Segundo diretores de institutos que estavam na reunião, ainda não houve nenhuma deliberação sobre os principais motivos que levaram à suspensão da pesquisa Atlas Intel - como a ordem das perguntas e a apresentação de vídeos aos entrevistados.
Sanches, da Atlas Intel, disse que os ministros do TSE que participaram da reunião destacaram que a Corte não pretende fazer uma avaliação metodológica das pesquisas. "Foi bastante ressaltado que o TSE não quer estabelecer quais metodologias são corretas, quais metodologias são erradas. Não existe nenhuma pretensão de criar esse tipo de classificação", disse o diretor.
"O ministro Kássio Nunes disse que vai considerar as falas de cada um para tomar alguma decisão", disse Sahd, da Real Time Big Data.
Estavam presentes na reunião representantes da Atlas Intel, Real Time Big Data, Data Folha, Genia/Quaest, entre outros. Também participaram os ministros Floriano de Azevedo Marques, Antonio Carlos Ferreira, Estela Aranha e o procurador-geral eleitoral, Alexandre Espinosa.
Associação critica proposta
A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP) criticou a proposta do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kássio Nunes Marques, de criar um “selo de acurácia" para institutos de pesquisa. Para a associação, a proposta de criar o selo “parte de uma premissa equivocada sobre o que é uma pesquisa eleitoral”.
“Pesquisas medem a intenção de voto no momento em que são realizadas. Não são previsões nem promessas de resultado. Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa ‘acerte’ o resultado é confundir ciência com bola de cristal”, declarou a ABEP em nota.
Conforme a associação, a proposta também “cria um incentivo perverso”. “Institutos sem rigor metodológico poderão simplesmente acompanhar as pesquisas dos institutos sérios e, na reta final da campanha, ajustar seus números para convergir ao consenso. Como o TSE distinguirá quem produziu informação científica de quem apenas copiou ou seguiu a tendência? Não há como”.
Para a associação, quando o objetivo passa a ser ganhar um “selo de acerto”, o incentivo deixa de ser produzir a melhor pesquisa e passa a ser publicar o número que “maximize a chance de receber o prêmio”.
Na visão da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, a proposta enfraquece, em vez de fortalecer, a qualidade da informação oferecida ao eleitor.
“Causa especial preocupação que a Justiça Eleitoral pretenda assumir o papel de árbitro da qualidade das pesquisas a partir de um critério tecnicamente equivocado. A avaliação da qualidade de um levantamento deve considerar metodologia, desenho amostral, transparência, execução do campo e aderência às boas práticas científicas — não apenas a proximidade entre um retrato da opinião pública e um resultado que ainda estava por acontecer quando a pesquisa foi realizada”.
A ABEP reafirma o respeito ao TSE e ao seu papel na garantia da lisura das eleições. “Justamente por isso, entendemos que iniciativas dessa natureza precisam ser construídas em diálogo com a comunidade científica e com os institutos de pesquisa, para que não acabem estimulando práticas oportunistas e desvalorizando o rigor metodológico que deve orientar toda pesquisa séria”.
Por fim, a associação se colocou à disposição para participar de um debate técnico e qualificado com a Justiça Eleitoral sobre iniciativas que fortaleçam a transparência, integridade e a credibilidade das pesquisas eleitorais.
“A construção de soluções efetivas exige diálogo com a comunidade científica e com os institutos que atuam na área, para que as medidas adotadas estejam alinhadas aos princípios e às boas práticas da pesquisa de opinião”, finalizou.
*Com Estadão Conteúdo.
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