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Brasil rebaixa laço diplomático com Argentina após ofensas de Milei

Itamaraty reduz representação em Buenos Aires ao nível de encarregado de negócios e mantém embaixador em Brasília por tempo indeterminado

NATHÁLIA PASE

04/08/2026 • 21:45 • Atualizado em 05/08/2026 • 01:21

Javier Milei e Lula durante a cúpula do G20

Javier Milei e Lula durante a cúpula do G20

Ricardo Stuckert/PR

O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) rebaixou nesta terça-feira (4) a relação diplomática com a Argentina ao nível de encarregado de negócios, em reação às ondas de ofensas do presidente argentino, Javier Milei, ao chefe de Estado brasileiro.

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É a medida mais dura adotada entre os dois vizinhos em décadas e, pela primeira vez em anos, a embaixada brasileira em Buenos Aires deixará de contar com um diplomata de carreira no comando. A informação foi divulgada pelo jornal argentino Clarín e confirmada pela Band.A decisão foi comunicada pelo chanceler Mauro Vieira ao embaixador argentino no Brasil, Daniel Raimondi, convocado à sede do Ministério das Relações Exteriores para receber uma nota de protesto formal. Em resposta ao rebaixamento, Raimondi retornará a Buenos Aires, já que as tratativas entre os dois países passarão a ser conduzidas pelo encarregado de negócios.

Na prática, a embaixada brasileira continuará funcionando, mas sob a condução de um encarregado de negócios, categoria diplomática inferior à de embaixador. O posto permite administrar a missão, prestar assistência a cidadãos e manter contato com o governo local, embora com capacidade de representação política reduzida.

Segundo a imprensa argentina, que ouviu fontes do Itamaraty, a decisão foi tomada após reiteradas agressões. As fontes afirmaram que o governo brasileiro teve paciência diante das ofensas, mas avaliou que a reincidência tornou a medida inevitável.A crise começou quando Milei participou da convenção nacional do PL, evento que chancelou o nome do senador Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Na ocasião, o argentino chamou Lula de "ladrão" e “presidiário” e também chamou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de “lixo careca”.

Na sequência, o governo brasileiro convocou o embaixador da Argentina em Brasília para transmitir repúdio pela fala e chamou para consultas o embaixador do Brasil em Buenos Aires – atos que, na linguagem diplomática, são tidos como sinais de alerta na relação entre nações.

Àquela altura, o Itamaraty classificou as declarações como uma afronta sem precedentes às instituições e às autoridades brasileiras. O governo argentino tentou minimizar o caso dizendo que os insultos representam "diferenças ideológicas e políticas", mas garantiu que o embate não foi levado ao plano diplomático.

"Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro. É especialmente lamentável que esse episódio infamante envolva o presidente de um país com que o Brasil mantém 203 anos de amizade e cooperação e que tem, no Brasil, o seu principal sócio comercial", afirmou o Itamaraty, em nota.

Dias depois, em entrevista ao canal argentino LN+, Milei chamou Lula de "ladrão" e "corrupto" e questionou as decisões judiciais que anularam as condenações do petista na Operação Lava Jato, afirmando que ele "não é inocente" e teria sido solto por uma falha no processo.

O Planalto recebeu a nova declaração de Milei contra seu homólogo "mais uma provocação para gerar polêmica diante da chegada das eleições".

A reação do governo também partiu para o campo econômico. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamou Milei de "palhaço" e argumentou que o argentino não tem base para criticar o Brasil, ao comparar os indicadores dos dois países.

A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, em uma troca bilateral que movimentou mais de US$ 30 bilhões no último ano. Da mesma forma, o mercado brasileiro segue como o principal destino das exportações argentinas, reforçando que a relação de Estado entre os dois países se sobrepõe a divergências governamentais temporárias.