
ONU alerta para impacto da mutilação genital na saúde de meninas
Reuters
Cerca de 4,5 milhões de meninas em todo o mundo podem ser submetidas à mutilação genital feminina apenas em 2026, segundo alerta divulgado nesta quinta-feira (5) por líderes de seis agências da ONU (Organização das Nações Unidas). Muitas delas têm menos de cinco anos.
O dado foi apresentado em declaração conjunta no Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina, assinada por dirigentes do UNFPA, Unicef, ONU Mulheres, OMS, Unesco e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.
Atualmente, mais de 230 milhões de meninas e mulheres vivem com consequências permanentes da prática, considerada pela ONU uma violação de direitos humanos. O procedimento compromete a saúde física e mental e pode causar complicações graves ao longo da vida. O custo anual do tratamento dessas sequelas é estimado em US$ 1,4 bilhão.
As agências afirmam que, apesar dos avanços recentes, o ritmo de redução ainda é insuficiente para cumprir a meta de eliminar a mutilação genital feminina até 2030, conforme previsto nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Avanços recentes sob ameaça
Segundo o documento, ações adotadas nas últimas três décadas começam a surtir efeito. Hoje, quase dois terços da população em países onde a prática é comum dizem apoiar sua erradicação.
Metade de todo o progresso registrado desde 1990 ocorreu na última década. Nesse período, a proporção de meninas submetidas ao procedimento caiu de uma em cada duas para uma em cada três.
Apesar disso, as agências alertam para o risco de retrocesso diante da redução de investimentos globais em saúde, educação e proteção à infância. Cortes recentes já vêm limitando programas de prevenção e o atendimento a sobreviventes.
O texto também critica a disseminação de argumentos que tentam legitimar a prática quando realizada por médicos ou profissionais de saúde, o que, segundo a ONU, cria novos obstáculos à erradicação.
As agências destacam que já existem estratégias comprovadas para eliminar a mutilação genital feminina, como educação em saúde, envolvimento de líderes comunitários e religiosos, capacitação de profissionais de saúde e uso de mídias tradicionais e digitais.
O documento defende maior investimento em movimentos comunitários, redes juvenis e iniciativas de base, além da ampliação do acesso a atendimento médico, apoio psicossocial e assistência jurídica às sobreviventes.
Segundo a ONU, cada dólar investido na erradicação da prática pode gerar um retorno de dez dólares. Um aporte de US$ 2,8 bilhões permitiria prevenir cerca de 20 milhões de casos.
Ao final, os dirigentes reafirmam o compromisso de atuar com governos, setor privado, organizações locais e sobreviventes para eliminar definitivamente a mutilação genital feminina.

