Saúde

Brasil inicia tratamento inédito contra malária em crianças pelo SUS

Medicamento em dose única começa a ser distribuído em áreas indígenas da Amazônia

Da redação
DA REDAÇÃO

07/03/2026 • 18:05 • Atualizado em 07/03/2026 • 18:05

Primeiro lote do remédio começa a chegar a territórios indígenas da Amazônia

Primeiro lote do remédio começa a chegar a territórios indígenas da Amazônia

Fábio Miranda/MS

O Brasil começou a oferecer um novo tratamento contra a malária para crianças pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e se tornou o primeiro país do mundo a disponibilizar a tafenoquina na formulação pediátrica de 50 mg. O medicamento é indicado para pacientes com peso entre 10 kg e 35 kg e tem como objetivo ampliar o controle da doença, que atinge de forma expressiva o público infantil.

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De acordo com o Ministério da Saúde, cerca de 50% dos casos de malária registrados no país ocorrem entre crianças e adolescentes. Até então, desde 2024, a tafenoquina estava disponível no SUS apenas para jovens e adultos a partir de 16 anos.

A distribuição do novo medicamento começou nesta semana e será feita de forma gradual, com prioridade para áreas da Amazônia com maior incidência da doença, sobretudo territórios indígenas. O primeiro lote prevê a entrega de 126.120 comprimidos da formulação pediátrica, com investimento de cerca de R$ 970 mil.

Segundo o secretário de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, Weibe Tapeba, a incorporação da nova apresentação amplia o acesso a tratamentos mais eficazes e reforça as estratégias de combate à doença em regiões vulneráveis.

“Esse é mais um exemplo da potência do Sistema Único de Saúde ao incorporar um medicamento com eficácia comprovada, com o objetivo de reduzir ainda mais os casos de malária no Brasil e contribuir para superar essa emergência sanitária”, afirmou.

Inicialmente, 64.800 comprimidos serão destinados a regiões com maior incidência da doença. Entre os locais prioritários estão os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) Yanomami, Alto Rio Negro, Rio Tapajós, Manaus, Vale do Javari e Médio Rio Solimões e Afluentes. Esses territórios concentram cerca de metade dos casos de malária em crianças e jovens de até 15 anos.

O primeiro território a receber o medicamento será o DSEI Yanomami, que terá 14.550 comprimidos da nova formulação. Em 2024, a região também foi a primeira do país a receber a tafenoquina de 150 mg, voltada a pacientes com mais de 16 anos, como parte de uma estratégia para reforçar o tratamento nas áreas mais afetadas pela doença.

Dose única busca aumentar adesão ao tratamento

A nova apresentação da tafenoquina representa uma mudança importante no tratamento da malária causada pelo Plasmodium vivax, espécie responsável por mais de 80% dos casos registrados no Brasil.

O medicamento é administrado em dose única, o que tende a facilitar o tratamento em comparação ao esquema anterior, que exigia até 14 dias de medicação. A estratégia busca melhorar a adesão dos pacientes, especialmente entre crianças, e reduzir as chances de recaída.

Além da praticidade, a formulação pediátrica permite ajustar a dose de acordo com o peso da criança, o que aumenta a eficácia do tratamento. A medida também contribui para eliminar o parasita do organismo e interromper a cadeia de transmissão da doença.

Para garantir a aplicação segura do medicamento, o Ministério da Saúde iniciou treinamentos com profissionais que atuam nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas. Nesta primeira etapa, cerca de 250 trabalhadores da saúde serão capacitados para administrar o tratamento e acompanhar os pacientes.

A tafenoquina pediátrica foi incorporada ao SUS por meio da Portaria nº 64, publicada em setembro de 2025, após o registro da nova formulação de 50 mg na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O medicamento passou a ser indicado para pessoas com malária por Plasmodium vivax com peso acima de 10 kg, desde que não estejam grávidas ou em período de amamentação.

A mudança representa um avanço no enfrentamento da doença no país, sobretudo em regiões remotas, onde a continuidade do tratamento costuma ser dificultada por fatores como distância das unidades de saúde e condições de acesso.

A malária permanece como um dos principais desafios de saúde pública na região Amazônica, especialmente em áreas de difícil acesso e territórios indígenas, onde fatores geográficos e sociais ampliam a vulnerabilidade das populações.

Nos últimos anos, o Ministério da Saúde tem ampliado as estratégias de combate à doença, com ações como reforço das equipes de saúde, contratação de profissionais especializados, ampliação do uso de testes rápidos de diagnóstico e distribuição de mosquiteiros impregnados com inseticida de longa duração.

Dados do governo indicam que, entre 2023 e 2025, o território Yanomami registrou aumento de 103,7% na realização de testes para malária e crescimento de 116,6% no número de diagnósticos. No mesmo período, houve redução de 70% nas mortes provocadas pela doença.

A malária também integra o Programa Brasil Saudável, iniciativa do governo federal que reúne 14 ministérios e parceiros institucionais para enfrentar doenças associadas a condições de vulnerabilidade social e ambiental.

Em 2025, o Brasil registrou o menor número de casos de malária desde 1979, com redução de 15% em relação ao ano anterior. Nas áreas indígenas, a queda foi de 16% no mesmo período. Também houve redução de 30% nos casos provocados pelo Plasmodium falciparum, protozoário responsável pela forma mais grave da doença.

Autoridades de saúde avaliam que a ampliação do acesso a tratamentos mais simples e eficazes, aliada ao diagnóstico precoce e às ações de prevenção, pode acelerar a redução dos casos nos próximos anos, sobretudo nas regiões mais afetadas pela doença.

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