Saúde

Por que cada vez mais brasileiros estão largando o álcool em janeiro

O movimento ‘Dry January’, ou ‘Janeiro Seco’, ajuda a explicar o avanço da abstinência no Brasil, liderado por jovens e novos hábitos de consumo

Babi Fava
BABI FAVA

07/01/2026 • 19:33 • Atualizado em 07/01/2026 • 19:33

Bebidas alcoólicas

Bebidas alcoólicas

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Janeiro começa, e com ele chega a inevitável lista de resoluções de ano novo: desintoxicar, economizar e, frequentemente, dar um tempo no álcool. O que se iniciou em 2013 no Reino Unido como uma campanha pontual, o Dry January (em português, “janeiro seco”), hoje se consolidou como um fenômeno global que dita o tom do consumo consciente. E, no Brasil, segundo o Google Trends, a intenção de moderação revelada pelas buscas no Google no início de 2026 encontra uma comprovação inédita nos dados oficiais: a maioria dos brasileiros já declarou não beber.

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Ainda conforme dados do Google Trends, o interesse dos brasileiros pelo Dry January começou nos últimos quatro anos. Antes, o volume de buscas era baixo:

Veja o gráfico na íntegra:

Buscas por janeiro seco no Google Trends  Gráfico: Reprodução/Google Trends

Buscas por janeiro seco no Google Trends  Gráfico: Reprodução/Google Trends

O Dry January é mais do que um jejum; é um convite de 31 dias para reavaliar a relação com a bebida, promovendo saúde e bem-estar. Os dados mais recentes da pesquisa Ipsos-Ipec, solicitada pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), revelam um movimento significativo no país: 64% dos brasileiros declararam não beber em 2025, um aumento expressivo de 9 pontos percentuais em comparação com os 55% de 2023.

A abstinência liderada pela Geração Z

Se as tendências de busca no digital indicam a intenção da sociedade, os dados do CISA apontam onde essa transformação está mais concentrada: na juventude e nas classes mais escolarizadas.

O aumento da abstinência é impulsionado principalmente pelos jovens de 18 a 34 anos. Já na faixa de 18 a 24 anos, a taxa de pessoas que não consomem álcool saltou de 46% para 64% em apenas dois anos. Esse comportamento acompanha uma tendência global de jovens que priorizam a saúde mental, o autocontrole e a clareza, em um movimento conhecido como “Mindful Drinkers” ou “Sober Curious”.

Além disso, a abstinência cresceu de 49% para 62% entre indivíduos com ensino superior e de 44% para 55% nas classes A/B, com destaque para os moradores das regiões metropolitanas e capitais do Sudeste. Paralelamente ao aumento da abstinência, o consumo abusivo de álcool entre jovens de 18 a 24 anos diminuiu de 20% para 13% no mesmo período.

Os benefícios cientificamente comprovados

O impacto de 30 dias de sobriedade vai além da sensação de "desintoxicar" o organismo. Especialistas endossam os benefícios, comparando a pausa a um reset no organismo:

Saúde metabólica e cardiovascular

A abstinência de curto prazo pode reduzir a resistência à insulina, diminuir a pressão arterial e melhorar a função hepática, com a gordura acumulada no fígado podendo regredir em consumidores moderados.

Bem-estar e sono

O álcool, mesmo em pequena quantidade, fragmenta o descanso. Pesquisas mostram que 71% a 70% dos participantes dormiram melhor após o desafio, resultando em maior concentração e mais energia no dia a dia.

Perda de peso e economia

Em média, 58% dos participantes relataram perda de peso, e uma parcela ainda maior, entre 86% e 88%, economizou dinheiro durante o mês.

Mais importante, a interrupção temporária costuma levar a mudanças duradouras: estudos da Universidade de Sussex indicam que mais de 70% dos participantes continuam bebendo de forma mais saudável seis meses após o Dry January.

Saúde pública

Apesar da onda positiva de moderação e abstinência, a realidade brasileira ainda exige atenção máxima da saúde pública. O consumo abusivo (definido pelo Beber Pesado Episódico (BPE) como 60g ou mais de álcool puro por mês, o equivalente a 4-5 doses em uma ocasião) permanece um desafio.

O Brasil apresenta uma prevalência de BPE de 20,9% na população, superior à média mundial de 17%. Além disso, o consumo per capita no país (7,7 litros por adulto/ano) supera a média global (5,5 litros).

O maior obstáculo, no entanto, é a baixa percepção de risco. Entre os consumidores abusivos, 82% acreditam que bebem de forma moderada. Apenas 9% reconhecem que exageram e precisam mudar, o que, segundo o psiquiatra Arthur Guerra, presidente do CISA, dificulta a mudança de hábito.

Em termos econômicos, a manutenção desses padrões gera um custo elevado. Estimativas de 2019 apontam que o custo indireto da mortalidade prematura atribuível ao álcool para a economia brasileira foi de cerca de R$ 20,6 bilhões por ano. Uma redução de apenas 10% no consumo populacional poderia evitar 5,6 mil mortes e economizar R$ 1 bilhão anualmente em custos indiretos.

Mercado reage: a explosão das bebidas ‘No-Low’

A crescente intenção dos brasileiros em buscar sobriedade ou moderação, refletida nas buscas e nos dados de consumo, já transformou o mercado de bebidas. O movimento Dry January e a demanda por um consumo mais consciente (intercalar bebidas alcoólicas e não-alcoólicas em uma mesma ocasião) impulsionaram o segmento No-Low (sem álcool ou com baixo teor alcoólico).

Globalmente, o mercado de bebidas No-Low está em rápida expansão, com crescimento anual composto (CAGR) de 7,3% e previsão de atingir US$ 17,5 bilhões até 2030. O crescimento é impulsionado por opções como mocktails, cervejas sem álcool e outras alternativas inovadoras que buscam replicar a experiência social sem o teor alcoólico, respondendo à prioridade da Geração Z pelo bem-estar e autenticidade. Enquanto os consumidores buscam clareza mental e propósito, a indústria corre para oferecer alternativas que atendam a essa nova cultura de brindes conscientes.