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O mercado da estética vem ampliando suas fronteiras e, além da já consolidada harmonização facial, outras regiões do corpo passaram a chamar a atenção do público, como as áreas genitais e anais. Procedimentos como o “cutox” — aplicação de toxina botulínica no ânus —, o “escrotox”, na bolsa escrotal, e o preenchimento vaginal com ácido hialurônico já fazem parte dessa nova oferta estética e vêm ganhando espaço nas redes sociais e nos consultórios.
Ao mesmo tempo em que essa tendência se populariza, ela também acende debates entre especialistas. O avanço dessas intervenções divide opiniões de urologistas, ginecologistas, proctologistas, biomédicos e fisioterapeutas, que apresentam visões distintas sobre os limites anatômicos, os possíveis resultados estéticos e, principalmente, a segurança dos pacientes.
"Cutox": o que é e quais são os riscos?

A comercialização do "cutox" na internet baseia-se na proposta de modificar a textura da região anal, apresentando resultados visualmente mais lisos. Contudo, a comunidade médica aponta uma divergência conceitual importante em relação à estrutura da região.
O que diz a proctologia?
A médica proctologista Clarisse Casali explica que, anatomicamente, as dobras visíveis na região anal não correspondem a rugas de envelhecimento, mas sim a uma característica estrutural necessária para o funcionamento do órgão:
"O ânus tem o excesso de pele normal que é feito para ele abrir e fechar. No ânus, a gente precisa ter um tônus, o músculo precisa ter uma força normal, e você relaxar essa força não vai fazer com que ele tenha menos rugas, porque na verdade a ruga é a pele. Se a pessoa não tem essa prega, ele não consegue abrir. Aquilo não é flacidez."
A proctologista destaca que, embora a toxina botulínica também tenha indicações terapêuticas em alguns casos de saúde, o principal risco da aplicação inadequada na região é a incontinência fecal, com perda do controle de gases e fezes. Segundo ela, como o botox atua promovendo relaxamento ou paralisia da musculatura, se atingir o complexo esfincteriano em planos incorretos ou em doses excessivas, pode comprometer o tônus muscular e afetar a função de continência.
“Esse risco de incontinência é muito raro em ambiente controlado, porque se trata de uma dose baixa e de aplicação superficial. Quando feita dessa forma, também não há impacto funcional importante. Mas, por outro lado, também não se observa um efeito estético relevante”, pondera Casali.
A prática estética nas clínicas
Profissionais que atuam na área de harmonização, como a biomédica Fernanda Prevedello, relatam que a demanda em clínicas é frequente e foca no bem-estar e no conforto íntimo. Segundo Prevedello, o relaxamento do esfíncter é buscado principalmente por mulheres casadas com o objetivo de reduzir o desconforto físico durante as relações sexuais.
Para evitar prejuízos ao controle fisiológico do paciente, a biomédica afirma que a segurança reside na profundidade da agulha.
"Se tiver aplicação errada, sim, a pessoa vai ter esse relaxamento indesejado. Por isso que ele é feito bem superficialmente. É só mesmo na camada bem da pele. Aplicando superficial não tem problema algum".
A fisioterapeuta dermatofuncional Marina Carlis Coccetrone, que também realiza o procedimento, concorda que o conhecimento técnico é o diferencial para evitar intercorrências.
Carlis reforça que "existe esse risco se a pessoa não tiver conhecimento", mas pontua que o foco deve ser a precisão: "Você tem que pegar o músculo certo, que você vai trabalhar a profundidade certa para atingir o músculo interno. Então, tem agulha certa, profundidade certa e a quantidade certa".
Quando o botox anal tem indicação terapêutica?
Apesar das divergências sobre o uso estético, todos os profissionais concordam que a toxina botulínica cumpre um papel consolidado no tratamento de patologias específicas.
Entre as indicações terapêuticas validadas pela medicina estão:
- Fissuras anais: Lesões na mucosa causadas por fezes endurecidas ou musculatura excessivamente tensa (hipertonia). O botox relaxa o esfíncter anal interno, reduzindo a dor e permitindo a cicatrização do tecido.
- Pós-operatório: Utilizado em cirurgias de hemorroidas para evitar espasmos e dores pós-evacuação.
- Anismos: Disfunção em que o paciente apresenta uma incoordenação e não consegue relaxar o músculo de forma voluntária para evacuar.
- Dispareunia anorretal (dor na relação): A proctologista destaca que recebe muitos pacientes que relatam dor persistentem no ato sexual. "A gente faz uma dose muito baixa, porque não obrigatoriamente é uma pessoa que tem o ânus apertado, só para não travar na hora. É um fim que traz muito conforto e que não é um fim terapêutico [de doença], mas que realmente muda a vida das pessoas", diz Casali.
"Escrotox" e remodelação peniana

Os procedimentos voltados para o público masculino envolvem a aplicação de substâncias na bolsa escrotal e no corpo do pênis, gerando posicionamentos distintos entre o setor de harmonização e as sociedades médicas.
Modulação do escroto e relaxamento peniano
A técnica batizada de "escrotox" consiste na injeção de botox na região escrotal. Sob a ótica das clínicas de estética, Prevedello descreve que o objetivo é relaxar o músculo dartos (responsável pela contração térmica do saco escrotal) para dar um aspecto mais liso e amenizar a flacidez decorrente da idade.
Além disso, a biomédica detalha a aplicação voltada para o pênis conhecido como grower (aquele que se retrai significativamente quando em estado flácido):
"A gente utiliza o botox para fazer o relaxamento do pênis, deixar ele mais comprido. Ele fica aparentando maior quando fica flácido, então já aumenta uns bons centímetros e eles já ficam bem felizes, já aparece mais na cueca, na sunga".
O que diz Sociedade Brasileira de Urologia?
A visão científica oficial traz ressalvas a essas práticas. O urologista Leonardo Seligra, membro da Disciplina de Estética Genital da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), esclarece que a utilização da toxina botulínica na estética genital masculina é classificada como experimental e não possui respaldo técnico de sociedades médicas.
"A ideia do uso da toxina botulínica na estética vem da dermatologia, aonde a gente sabe que a aplicação em algumas regiões musculares vai ter uma repercussão na pele. Daí surgiu a ideia de tentar usar isso de maneira estética no genital. Então, isso é, até que se prove o contrário, considerado experimental, porque a gente não encontra estudo científico que mostre esse tipo de utilização."
Seligra alerta para os riscos potenciais decorrentes da falta de dados científicos de longo prazo sobre o procedimento na região testicular:
- Risco à fertilidade: "Como é numa região relacionada ao testículo, a gente também não sabe o que isso pode ter impacto na fertilidade futura, na produção de espermatozoides, principalmente se houver uma injeção em planos inadequados, um plano mais profundo que acabe pegando os testículos."
- Perda de função: O urologista enfatiza que o mecanismo de ação da medicação é paralisar. Se injetada incorretamente, pode enfraquecer a musculatura pélvica, provocando alterações miccionais e impactos imprevisíveis na própria dinâmica da ereção.
Grossura x comprimento
No que diz respeito ao tamanho do pênis, há um alinhamento técnico entre os médicos e os profissionais de estética: nenhuma substância injetável altera o comprimento do pênis em estado de ereção.
A biomédica detalha que o foco dos procedimentos na área é a circunferência: "O tratamento engrossa muito mais que aumenta, que na verdade é o que importa mais durante a relação. Ele chega ali de 3 a 5 centímetros de volume na primeira sessão, mas depende da quantidade que a gente vai colocar e da elasticidade para comportar o produto. Ele é feito bem na camada abaixo da pele, não influencia em nada interno", diz Prevedello.
Seligra confirma que o ganho de circunferência através do ácido hialurônico possui melhor documentação, mas reforça a necessidade de triagem rigorosa e contraindica fortemente o uso de substâncias de caráter definitivo.
O urologista lembra que o Conselho Federal de Medicina proíbe a aplicação de PMMA (polimetilmetacrilato) para fins estéticos genitais devido ao risco de reações inflamatórias graves, rejeições teciduais e complicações que podem resultar em deformidades permanentes.
Harmonização vaginal

Na estética íntima feminina, a principal queixa nos consultórios e clínicas envolve a perda de volume e a flacidez dos grandes lábios vulvares.
O reflexo do uso de medicamentos emagrecedores
A ginecologista Ana Carolina Romanini, especialista em Ginecologia e Obstetrícia pela FEBRASGO (Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia), a biomédica Fernanda Prevedello e a fisioterapeuta Marina Coccetrone relatam uma mudança perceptível no perfil das pacientes após a popularização de medicamentos injetáveis para emagrecimento, como Ozempic e Mounjaro.
Segundo elas, o emagrecimento rápido e acentuado pode levar à redução significativa dos coxins de gordura do corpo, impactando diretamente a sustentação e o volume da região vulvar.
“Depois das canetas, tudo ficou muito mais flácido. A região íntima envelhece da mesma forma que o rosto. Muitas mulheres chegavam aqui praticamente sem os grandes lábios, sem estrutura de sustentação”, relata a biomédica.
Romanini faz uma distinção técnica sobre as abordagens mais indicadas nesses casos e explica por que o botox não é a principal escolha para tratar a queixa estética da vulva:
“Quando aplicamos botox, há um efeito de paralisia muscular. E na região íntima feminina o que predomina é a flacidez, não a contração. Os grandes lábios perdem volume e os pequenos lábios acabam ficando mais evidentes. O ácido hialurônico entra justamente para repor esse volume em áreas que ficaram ‘vazias’. Por isso, para essa indicação estética, usamos muito mais o ácido hialurônico ou o laser do que a toxina botulínica”, afirma.
Prevedello acrescenta que a reposição de volume nos grandes lábios também pode ter um efeito funcional, ao atuar como uma espécie de barreira mecânica, reduzindo o atrito com roupas e ajudando a proteger a entrada do canal vaginal contra agentes externos.
A ginecologista também chama atenção para a necessidade de cautela em qualquer intervenção na vulva, citando estudos anatômicos recentes que detalharam a complexa rede de inervação da região do clitóris:
“Eles mostraram que a inervação do clitóris é muito mais complexa do que se imaginava, com múltiplas ramificações. Ao entender essa rede nervosa, precisamos ter bastante cautela. Os ramos que seguem para o clitóris também se conectam aos pequenos lábios. Então, qualquer cirurgia estética ou preenchimento feito sem critério pode interferir na sensibilidade e impactar o prazer sexual e o orgasmo”, explica.
A médica defende que procedimentos como a ninfoplastia — realizada cirurgicamente ou com tecnologias a laser — devem ser indicados caso a caso, sempre com foco funcional e realizados exclusivamente por profissionais habilitados para atuar em estruturas anatômicas sensíveis.
Influência da pornografia e o peso das nomenclaturas
A disseminação de padrões estéticos e o uso de jargões comerciais para nomear procedimentos íntimos são vistos sob perspectivas distintas entre profissionais da saúde, especialmente quando se trata do impacto psicossocial dessas práticas.
A exposição constante da intimidade nas redes sociais e o acesso facilitado a conteúdos adultos são apontados como fatores que alimentam a insatisfação com a própria anatomia. A proctologista Clarisse Casali afirma que a busca por um padrão estético da região perianal já altera a dinâmica dos consultórios.
“Estamos vivendo uma era de nudes. O paciente chega almejando um ânus que nem precisa ser funcional, ele só precisa ser lindo. E esse ‘lindo’ não é real. O que existe é função. Eu já tive paciente que me disse: ‘eu quero esse ânus aqui’. E eu explico que cada corpo é único, que isso não existe dessa forma”, relata.
O urologista Seligra compartilha da preocupação e ressalta o impacto do consumo de pornografia, sobretudo entre os mais jovens. Para ele, o acesso precoce a esse tipo de conteúdo pode distorcer a percepção de normalidade anatômica e reforçar padrões irreais de beleza.
Nomenclaturas comerciais
Termos como “cutox”, “escrotox” e “bucetox” também dividem opiniões entre os especialistas. Para parte da classe médica, essas nomenclaturas prejudicam a comunicação científica e podem gerar estigmas.
Para a ginecologista Ana Carolina Romanini, os nomes têm caráter apelativo e acabam associando procedimentos médicos a conotações sexualizadas. Segundo ela, isso pode impactar inclusive pacientes que utilizam toxina botulínica para tratamento de condições clínicas, como o vaginismo, e não por motivação estética.
Seligra acrescenta que a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) estuda a elaboração de um documento com recomendações sobre nomenclaturas mais técnicas, com o objetivo de padronizar a comunicação e orientar inclusive profissionais não especialistas.
O outro lado
Na outra ponta, profissionais da estética defendem o uso desses termos como uma estratégia de aproximação com o público. A biomédica Fernanda Prevedello argumenta que restrições de plataformas digitais acabam dificultando o uso de nomenclaturas técnicas.
“Para não ficar algo tão pesado, a gente acabou criando o ‘cutox’, que soa mais leve. E isso acabou pegando, hoje todo mundo da área usa”, explica.
A fisioterapeuta Marina Coccetrone acrescenta que essa linguagem mais acessível ajuda a romper tabus e incentiva pacientes a procurarem atendimento. Ela também destaca o impacto positivo dos procedimentos na autoestima e na qualidade de vida.
“Para mim, harmonização é muito mais do que estética. É a pessoa voltar a se amar, voltar a se cuidar e se olhar. Tenho pacientes que me mandam mensagens emocionadas porque conseguiram evacuar sem dor ou porque voltaram a ter vida íntima sem vergonha do próprio corpo”, afirma.
