Saúde

Queda da patente do Ozempic: o que muda na prática para os pacientes

Fim da exclusividade da semaglutida deve reduzir preços, ampliar o acesso e trazer novas opções de tratamento, mas especialistas alertam para uso responsável e acompanhamento médico contínuo

GABRIELLE PEDRO

20/03/2026 • 12:11 • Atualizado em 20/03/2026 • 12:11

A queda da patente do Ozempic no Brasil deve provocar mudanças relevantes no acesso ao medicamento, utilizado no tratamento do Diabetes tipo 2 e amplamente prescrito para controle de peso. Com o fim da exclusividade, outras farmacêuticas poderão produzir versões da Semaglutida, o que tende a aumentar a oferta e reduzir os preços.

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Na prática, o principal impacto deve ser o acesso. Hoje, o alto custo ainda limita o uso do medicamento a uma parcela menor da população. Segundo a gastroenterologista Elaine Moreira, esse cenário deve mudar rapidamente.

“Com a queda da patente do Ozempic, nós vamos observar uma mudança muito significativa para os pacientes, principalmente o acesso, que hoje é limitado à população com poder econômico mais elevado”, afirma. “Com essa queda, nós vamos conseguir popularizar e ampliar o acesso a essas medicações, já que os valores devem cair.”

Ela destaca que o benefício não se restringe apenas a quem busca emagrecimento. “Pacientes portadores de obesidade, diabetes tipo 2 ou doença gordurosa hepática não alcoólica também serão beneficiados”, completa.

Mais opções e possível acesso pelo SUS

A chegada de genéricos e similares pode ampliar ainda mais esse alcance, inclusive na rede pública. Elaine Moreira aponta que esse movimento já começa a acontecer.

“A chegada de versões genéricas ou similares amplia o acesso e há grande chance de o Sistema Único de Saúde colocar essas medicações disponíveis para os pacientes”, diz. “Nós já estamos observando isso na cidade do Rio de Janeiro.”

O nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), também vê potencial de avanço no tratamento.

“Na prática, a principal mudança esperada é o fim da exclusividade comercial da semaglutida no Brasil, o que pode abrir espaço para concorrentes”, afirma. “Se o custo cair e o acesso melhorar, o impacto pode ser relevante, com mais oportunidade de tratar obesidade e diabetes de forma precoce e consistente.”

Troca de medicamento exige cuidado

Apesar da maior oferta, especialistas alertam que pacientes não devem trocar o medicamento por conta própria.

“Para quem já usa semaglutida, não deve haver troca por conta própria”, orienta Ribas Filho. “O mais importante é manter o controle glicêmico no diabetes e, na obesidade, entender que a medicação faz parte de um plano terapêutico mais amplo.”

Ele também ressalta que nem todas as versões disponíveis terão a mesma qualidade automaticamente. “Não basta ser mais barato; precisa ter qualidade comprovada”, afirma, destacando a importância de registro na Anvisa, controle de dose e segurança no uso.

Uso continua com prescrição

Mesmo com preços mais baixos, a forma de acesso ao medicamento não deve mudar. A exigência de receita médica com retenção segue como barreira contra a automedicação.

Para Elaine Moreira, isso deve limitar o uso indiscriminado. “As pessoas precisam passar por consulta médica para receber a prescrição e só então realizar a compra”, explica. “Não acredito que a popularização vá aumentar esse uso de forma descontrolada.”

Já Ribas Filho faz um alerta diferente. “Quanto mais um medicamento se populariza e se torna mais acessível, maior a chance de ser visto como um atalho estético”, afirma. Segundo ele, esse comportamento já ocorre e pode trazer riscos à saúde.

Efeitos colaterais seguem sendo os mesmos

Independentemente da marca, os efeitos da semaglutida no organismo permanecem. Do ponto de vista gastroenterológico, os sintomas mais comuns são náuseas, vômitos, constipação e dor abdominal.

“Isso acontece porque a medicação reduz os movimentos do estômago, fazendo com que o alimento permaneça mais tempo no trato digestivo”, explica Elaine Moreira.

Ribas Filho alerta para sinais mais graves. “Dor abdominal intensa e persistente, vômitos incoercíveis, desidratação ou pele amarelada exigem avaliação médica imediata”, diz. Segundo ele, esses sintomas podem indicar complicações como pancreatite ou doença biliar.

Medicamento não substitui mudança de hábitos

Outro ponto que não muda com a queda da patente é a necessidade de mudança no estilo de vida. Especialistas reforçam que o medicamento não é uma solução isolada.

“Essas medicações chegaram para revolucionar o tratamento da obesidade”, afirma Elaine Moreira. “Mas a mudança de estilo de vida continua sendo fundamental para manter a perda de peso.”

Ela alerta que muitos pacientes voltam a engordar por não adotarem hábitos saudáveis. “Eles perdem peso, mas recuperam rapidamente porque não seguem orientações como dieta, atividade física e sono adequado.”

Ribas Filho concorda. “Os resultados mais sólidos vêm quando o medicamento é usado como adjuvante de um plano que inclui alimentação adequada, atividade física e acompanhamento clínico”, afirma.

Indicação segue individual

Por fim, especialistas reforçam que a semaglutida não é indicada para todos. A avaliação médica continua sendo essencial antes do início do tratamento.

“Não é um medicamento para uso universal”, afirma Ribas Filho. Ele cita contraindicações como histórico de pancreatite, doenças específicas e algumas condições hormonais.

Na prática, a queda da patente do Ozempic deve facilitar o acesso e ampliar o número de pacientes em tratamento no Brasil. Ainda assim, médicos reforçam que o uso seguro depende de prescrição, acompanhamento contínuo e mudanças duradouras no estilo de vida.