Saúde

Queda da patente do Ozempic pode ampliar acesso, avaliam especialistas

Especialistas explicam como o fim da exclusividade da semaglutida pode reduzir preços, ampliar tratamentos para obesidade e diabetes e quais cuidados ainda são necessários no uso do remédio

GABRIELLE PEDRO

16/03/2026 • 15:22 • Atualizado em 16/03/2026 • 15:22

Ozempic

Ozempic

Lee Smith/Reuters

Resumo

A queda da patente do Ozempic, medicamento baseado em semaglutida usado para diabetes tipo 2 e controle de peso, permitirá a entrada de versões genéricas no Brasil, ampliando o acesso, reduzindo preços e beneficiando pacientes com diferentes condições metabólicas, inclusive via Sistema Único de Saúde.

Especialistas como a gastroenterologista Elaine Moreira e o nutrólogo Durval Ribas Filho destacam que a produção nacional pode garantir maior acesso, desde que haja rigor nos critérios de qualidade, registro pela Anvisa e acompanhamento médico, além de alerta para possíveis efeitos colaterais digestivos e sinais de complicações graves.

A popularização do medicamento representa avanço no tratamento da obesidade e diabetes, mas exige uso responsável, individualização da prescrição e integração com mudanças de estilo de vida, evitando o risco do uso indiscriminado como “atalho” para emagrecimento e respeitando contraindicações clínicas.

A iminente queda da patente do medicamento Ozempic, um dos remédios mais conhecidos para tratamento de diabetes tipo 2 e amplamente utilizado para controle de peso, deve abrir espaço para a entrada de novas versões no mercado brasileiro. Especialistas avaliam que a mudança pode ampliar o acesso ao tratamento, mas alertam para a necessidade de acompanhamento médico e uso responsável.

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O medicamento tem como princípio ativo a Semaglutida, substância que atua na regulação da glicose no sangue e também promove sensação de saciedade, o que contribui para a perda de peso. Com o fim da exclusividade comercial, outros laboratórios poderão produzir versões similares ou genéricas, o que tende a aumentar a concorrência e reduzir preços.

Para a gastroenterologista Elaine Moreira, diretora do núcleo de Gastroenterologia da Human Clinic, em São Paulo, o principal impacto da mudança deve ser o aumento do acesso ao tratamento.

Segundo ela, atualmente o medicamento ainda está restrito a uma parcela da população com maior poder aquisitivo. “Com a queda da patente do Ozempic, nós vamos observar uma mudança muito significativa para os pacientes, principalmente no acesso. Hoje ele é limitado à população com poder econômico mais elevado e, com essa queda, conseguimos ampliar o acesso a essas medicações”, afirma.

A médica destaca que, além de pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade, pessoas com outras condições associadas também podem ser beneficiadas. “Pacientes portadores de doença gordurosa hepática não alcoólica, conhecida popularmente como esteatose hepática, também poderão se beneficiar.”

Possível ampliação no SUS

A ampliação do acesso pode ocorrer não apenas no mercado privado, mas também na rede pública. De acordo com Elaine Moreira, já há iniciativas nesse sentido.

“A chegada de versões genéricas ou similares amplia o acesso e há grande chance de o Sistema Único de Saúde disponibilizar essas medicações. Nós já observamos isso na cidade do Rio de Janeiro, onde foi afirmado que essas medicações estarão disponíveis”, afirma.

O nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (ABRAN), avalia que a concorrência pode representar um avanço no tratamento de doenças metabólicas.

“A principal mudança esperada é o fim da exclusividade comercial da semaglutida no Brasil, o que pode abrir espaço para concorrentes. Se o custo cair e o acesso melhorar, o impacto potencial é relevante, com mais oportunidade de tratar obesidade e diabetes de forma precoce e consistente”, afirma.

Produção nacional e controle de qualidade

A queda da patente também pode estimular a produção nacional do medicamento. Segundo a gastroenterologista, grandes laboratórios brasileiros já trabalham em projetos para fabricar versões da substância.

Ela acredita que empresas consolidadas no setor devem garantir segurança e eficácia. Ainda assim, especialistas ressaltam a importância de manter critérios rigorosos de aprovação.

O nutrólogo afirma que o preço mais baixo não pode ser o único fator considerado. “Toda nova versão precisa demonstrar regularidade de fabricação, estabilidade, confiabilidade do dispositivo de aplicação, controle rigoroso de dose, segurança sanitária e equivalência terapêutica.”

Ele ressalta que quatro pontos são fundamentais nesse processo: registro pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), rastreabilidade do produto, acompanhamento médico em caso de troca de medicamento e farmacovigilância ativa.

Efeitos colaterais e sinais de alerta

Apesar dos benefícios no tratamento metabólico, o uso da semaglutida pode provocar efeitos no sistema digestivo. De acordo com Moreira, os sintomas mais comuns incluem náuseas, vômitos, constipação intestinal e dor abdominal.

Ela explica que isso ocorre porque o medicamento reduz os movimentos do estômago, processo conhecido como gastroparesia. “O alimento permanece mais tempo no estômago, o que pode gerar desconforto abdominal, náuseas e vômitos”, explica.

Ribas Filho acrescenta que alguns sintomas exigem atenção imediata. Entre os sinais de alerta estão dor abdominal intensa e persistente, vômitos contínuos, dificuldade para ingerir líquidos, sinais de desidratação, distensão abdominal, febre ou pele e olhos amarelados. Esses quadros podem indicar complicações como pancreatite ou doença biliar e devem ser avaliados por um médico.

Mudança no tratamento da obesidade

Nos últimos anos, medicamentos à base de semaglutida passaram a ganhar destaque como uma nova estratégia no tratamento da obesidade.

Para a médica, essas terapias representam um avanço importante. “Essas medicações chegaram para revolucionar o tratamento da obesidade. Antes tínhamos basicamente dieta, atividade física e algumas medicações que não tinham tanta eficácia”, afirma.

A especialista lembra que a obesidade é uma doença crônica e associada a diversas outras condições de saúde. “É uma epidemia mundial e essas medicações são um divisor de águas no tratamento das comorbidades associadas.”

Risco de uso como “atalho” para emagrecimento

Apesar dos benefícios, especialistas alertam que o medicamento não deve ser encarado como uma solução rápida para perda de peso.

Segundo Moreira, muitas pessoas recorrem ao remédio sem mudanças no estilo de vida, o que compromete os resultados. “Elas perdem peso, mas acabam recuperando rapidamente porque não seguiram orientações de dieta, atividade física e outras mudanças necessárias.”

O presidente da ABRAN também destaca o risco de banalização do medicamento, especialmente nas redes sociais. “Quanto mais um medicamento se populariza e se torna financeiramente mais acessível, maior a chance de ser visto como um atalho estético”, diz.

Ele ressalta que a obesidade é uma doença crônica e multifatorial e que o tratamento precisa ser contínuo e supervisionado.

Uso deve ser individualizado

Os especialistas lembram ainda que a semaglutida não é indicada para todos os pacientes. Entre as contraindicações estão histórico de carcinoma medular de tireoide, síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2, gastroparesia grave e antecedentes de pancreatite.

Por isso, a prescrição deve sempre ser feita após avaliação médica detalhada, que inclui exames laboratoriais e de imagem. Além disso, o tratamento deve ser acompanhado por uma equipe multidisciplinar.

Para os especialistas, a queda da patente pode representar um avanço importante no combate à obesidade e ao diabetes — desde que o medicamento seja utilizado de forma responsável e integrado a mudanças duradouras no estilo de vida.