Saúde

Tratamento reduz em 83% risco de progressão de câncer no sangue

TEC-DARA foi aprovado pela Anvisa, mas ainda não está disponível no SUS

Guilherme Machado
GUILHERME MACHADO

24/07/2026 • 10:24 • Atualizado em 24/07/2026 • 10:25

Mieloma múltiplo é um câncer no sangue

Mieloma múltiplo é um câncer no sangue

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Era mais um dia norma para Nícia Dalfre, 67. Ela andava de bicicleta quando sentiu uma dor forte nos ossos e ela chegou a quebrar uma vértebra. Quando chegou ao hospital, após uma série de exames, ela descobriu que não se tratava de uma questão puramente óssea: ela tinha mieloma múltiplo, um tipo de câncer no sangue. Já Mônica Deganello, 58, sempre conviveu com uma anemia, até que aos 49 anos ela descobriu que esse sintoma era uma consequência da mesma doença.

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Ambas levaram um susto quando receberam o diagnóstico, uma vez que a condição não possui cura. O mieloma múltiplo é um tipo de câncer do sangue que afeta as células plasmáticas (plasmócitos) na medula óssea. Ele prejudica a produção de células saudáveis e gera anticorpos defeituosos.

Entre os sintomas que a doença provoca estão dor nos ossos, cansaço e fraqueza, infecções e problemas nos rins.

Neste contexto, Nícia e Mônica decidiram participar de um estudo clínico de um tratamento inovador contra o mieloma público, conhecido como TEC-DARA.

Ele consiste na combinação de dois medicamentos: o Teclistamabe e o Daratumumabe.

O TEC-DARA pertence a uma classe moderna de tratamentos chamada imunoterapia. Em vez de agir como a quimioterapia tradicional (que ataca as células do corpo de forma geral), o TEC-DARA funciona como um guiador de precisão:

  • Localiza o alvo: Ele se conecta, de um lado, à célula do câncer (o mieloma).
  • Chama o exército de defesa: Do outro lado, ele se conecta às células de defesa do próprio paciente (os linfócitos T).
  • Promove o ataque: Ele aproxima a célula de defesa da célula do câncer e diz: "O alvo é este aqui, pode destruir".

Estudos mostram que o TEC-DARA, que foi aprovado para pela Anvisa para uso em pacientes que tiveram a primeira recaída da doença, reduz em 83% o risco de sua progressão e, portanto, de morte do paciente.

“O percentual de pacientes livres de progressão da doença foi de 83,4%. Esse dado é sem precedentes; não temos na literatura científica nada comparável para o tratamento de pacientes recaídos, principalmente em recaídas mais precoces”, esclarece a médica hematologista Vania Hungria, uma das referências no combate ao mieloma múltiplo, em evento promovido pela Johnson & Johnson, sempre responsável por desenvolver os medicamentos que compõem o TEC-DARA.

Qualidade de vida

Antes do TEC-DARA, tratamentos ao mioloma múltiplo tendiam a dar uma sobrevida de cinco anos aos pacientes. Hoje, é possível ela chegar a 17 anos. Mônica está em remissão completa da doença há quatro anos, e ressalta que desfruta de uma grande qualidade de vida.

"Tenho tanta qualidade de vida que, dois anos após o início do tratamento, resolvi fazer uma nova faculdade. Minha formação e toda a minha carreira profissional foram na Engenharia, mas decidi cursar Direito. Quando comecei, pensei: "Vou iniciar, mas não sei se terei saúde para terminar." Os anos foram passando, veio a pandemia, continuei firme nos estudos e me formei", ressalta ela.

Levo uma vida normal: trabalho em uma rotina puxada, mas concilio com musculação e caminhada no mínimo três vezes por semana. Cuido da casa, da minha filha e foco bastante na saúde. Sigo à risca a dieta que a nutricionista me passou após o transplante. Acredito que, com boa alimentação e o medicamento certo, é possível levar uma vida plena.

Nícia também tem buscado levar seus dias com normalidade. Ele não pode mais andar de bicicleta, como gostava de fazer até o dia em que descobriu o mieloma, mas aprendeu a curtir outros lados da vida.

“De maneira geral, acho que a gente não pode se abandonar. Eu deposito muita esperança e vivo muito bem. No início, quando o médico disse que eu não poderia mais andar de bicicleta — algo que eu fazia todo fim de semana —, foi difícil. A gente acaba substituindo por outras alternativas. Hoje faço pilates e fisioterapia quando necessário, mas tenho uma vida quase normal”, destaca ela.

Possível cura

O tratamento via TEC-DARA ainda não está diponível no SUS. Vania Hungria ressalta que a falta de cuidados oncológicos no sistema público ainda é um drama na saúde brasileira.

“No SUS, o tratamento inicial para mieloma ainda se baseia em protocolos antigos de décadas passadas. A Lenalidomida, por exemplo, foi teoricamente incorporada, mas ainda não é uma realidade de acesso para a maioria dos pacientes. As políticas públicas de incorporação avançam a passos muito lentos. É uma injustiça enorme. Para tentar mitigar isso, o que fazemos na prática — embora não resolva o problema estrutural — é incluir pacientes do SUS em nossos ensaios clínicos”, ressalta ela.

Apesar disso, ela elogia a agilidade com a qual tratamentos como esse são aprovados no país e diz que hoje já se pode começar a pensar em uma cura par ao mieloma múltilplo.

No ano que vem, se atualizarmos esses dados, verão que a grande maioria dos pacientes que permanecem em remissão continuará sem recair por mais um, dois, três ou quatro anos E isso nos leva a discutir o conceito de cura no mieloma múltiplo. Cura não significa necessariamente a erradicação completa e biológica de todas as células doente. Falamos hoje em cura funcional: o paciente atinge uma resposta tão profunda e duradoura que vive com alta qualidade por muitos anos e acaba morrendo de velhice ou de outra causa não relacionada ao câncer. Eu aposto na cura do mieloma.

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