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Resumo
Relatório nacional aponta que um em cada quatro brasileiros desconhece a possibilidade de prevenir o câncer, revelando pouco conhecimento sobre fatores de risco ligados a hábitos cotidianos, como sedentarismo, obesidade e alimentação inadequada, apesar do amplo reconhecimento dos perigos do tabagismo.
Pesquisa realizada com 6,5 mil pessoas em todo o país mostra que jovens até 24 anos concentram maior consumo de alimentos ultraprocessados, bebidas adoçadas e carne vermelha, demonstrando baixa intenção de mudar esses hábitos, enquanto o aleitamento materno é pouco identificado como fator de proteção contra o câncer de mama por 40% dos entrevistados.
Estudo destaca desigualdades socioeconômicas no acesso à informação sobre prevenção e reforça que, além da conscientização, políticas públicas, infraestrutura urbana e acesso a alimentos saudáveis são essenciais para promover escolhas que reduzam os riscos de câncer, orientando futuras campanhas educativas e ações governamentais.
Um em cada quatro brasileiros ainda desconhece que o câncer pode ser prevenido. É o que revela o relatório Mais Dados Mais Saúde – Percepções da população brasileira sobre fatores de risco para o câncer, divulgado nesta quarta-feira (3). O levantamento mostra que, embora a população reconheça alguns fatores de risco amplamente divulgados, como o tabagismo, ainda há pouco conhecimento sobre hábitos cotidianos que também aumentam as chances de desenvolver a doença.
A pesquisa analisou a percepção dos brasileiros sobre fatores de risco ligados ao câncer, incluindo consumo de álcool, alimentos ultraprocessados, sedentarismo e obesidade. O estudo é o primeiro de abrangência nacional a investigar não apenas o conhecimento da população sobre prevenção, mas também seus comportamentos e intenções de mudança. Ao todo, 6,5 mil pessoas foram entrevistadas em todos os estados e no Distrito Federal.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos da doença por ano no triênio 2026-2028. O número representa um aumento de 10,9% em comparação com o período anterior, impulsionado principalmente pelo envelhecimento populacional e por fatores relacionados ao estilo de vida.
Tabagismo é amplamente reconhecido, mas sedentarismo ainda passa despercebido
Entre os fatores de risco mais conhecidos pela população, o tabagismo lidera o ranking: 90,5% dos entrevistados sabem que fumar pode causar câncer. Em seguida aparecem a herança genética (89,4%) e a exposição excessiva ao sol (88,3%).
Por outro lado, hábitos associados ao estilo de vida saudável ainda são pouco relacionados à prevenção da doença. Apenas 48,3% dos brasileiros reconhecem o sedentarismo como fator de risco para o câncer. O excesso de peso e a obesidade são apontados por apenas 54,1% dos entrevistados, enquanto o consumo de bebidas açucaradas é associado à doença por 55,3%.
O desconhecimento também se estende à alimentação. Apenas 70,7% identificam carnes processadas, como presunto e salsicha, como fator de risco, enquanto 65,6% relacionam alimentos ultraprocessados, como macarrão instantâneo, salgadinhos e sorvetes, ao desenvolvimento de câncer. Já a carne vermelha é reconhecida como fator de risco por apenas 27,5% da população.
Para a chefe da Divisão de Pesquisa Populacional do Inca, Luciana Grucci Moreira, a diferença entre os níveis de conhecimento está diretamente ligada ao investimento histórico em campanhas de conscientização.
Segundo ela, medidas como advertências em embalagens, aumento de impostos e restrições ao consumo de cigarros ajudaram a consolidar a percepção dos danos causados pelo tabaco. A especialista defende a ampliação de estratégias semelhantes para outros fatores de risco.
Aleitamento materno também é pouco conhecido como proteção
O estudo identificou ainda um desconhecimento relevante sobre fatores de proteção. Quatro em cada dez entrevistados não sabiam que a amamentação reduz o risco de câncer de mama.
De acordo com Luciana Moreira, mulheres que amamentam apresentam maior proteção contra a doença quando comparadas àquelas que não tiveram a oportunidade de amamentar.
Jovens concentram maior consumo de alimentos de risco
Os dados mostram que os jovens de até 24 anos são o grupo que mais consome alimentos associados ao aumento do risco de câncer sem demonstrar intenção de reduzir o hábito.
Entre eles, 32,3% consomem ultraprocessados sem pretensão de diminuir a ingestão. O mesmo comportamento aparece em relação às bebidas adoçadas (24,4%), embutidos (29,5%) e carne vermelha (49,1%).
No caso das bebidas alcoólicas, associadas a pelo menos oito tipos de câncer, metade da população afirmou não consumir álcool. Entre os jovens, porém, 16,9% disseram beber e não pretendem reduzir o consumo, percentual superior ao registrado nas demais faixas etárias.
Hábitos saudáveis enfrentam barreiras além da informação
A pesquisa também avaliou comportamentos relacionados à alimentação e atividade física. Cerca de 45% dos entrevistados disseram consumir alimentos ultraprocessados, mas afirmaram estar tentando reduzir o consumo. Já 53% relataram ingerir refrigerantes e outras bebidas adoçadas, também com intenção de diminuir o hábito.
Em contrapartida, 86,3% afirmaram consumir frutas, verduras e legumes regularmente.
Quando o assunto é atividade física, 52,2% disseram praticar exercícios, enquanto 39% manifestaram interesse em começar. O estudo aponta ainda desigualdades socioeconômicas no acesso à informação: pessoas com renda superior a R$ 10 mil demonstram maior conhecimento sobre a relação entre sedentarismo e câncer do que aquelas com renda de até R$ 2 mil.
Para os especialistas, o combate ao câncer passa não apenas pela conscientização, mas também pela criação de condições que favoreçam escolhas saudáveis. Questões como segurança pública, infraestrutura urbana, acesso a alimentos de qualidade e políticas de promoção da saúde são apontadas como fundamentais para reduzir os fatores de risco associados à doença.
Segundo os responsáveis pelo estudo, os resultados ajudam a orientar futuras campanhas educativas e políticas públicas voltadas à prevenção, além de revelar quais informações ainda precisam chegar à população brasileira.

