
Melanoma metastático foi o tipo de câncer mais citado no estudo
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Recentemente, tive a oportunidade de publicar, em parceria com colegas dos times de Telemedicina e Medicina de Precisão do Einstein Hospital Israelita, um estudo na revista JAMA Network Open. O trabalho nasceu de uma inquietação pessoal e profissional: a dificuldade de acesso à imunoterapia no Sistema Único de Saúde (SUS).
Analisamos 1.288 pareceres técnicos emitidos pelo Núcleo de Apoio Técnico ao Judiciário (NAT-Jus) sobre o uso do pembrolizumabe, uma das imunoterapias modernas mais promissoras, já aprovada para diferentes tipos de câncer.
O que revelam os dados
Os resultados chamam a atenção. Constatamos que 83% dos pedidos estavam em conformidade com a aprovação da ANVISA. Ainda assim, 34% dos pareceres foram negativos, em grande parte por ausência de exames complementares ou erros de solicitação. O melanoma metastático foi o tipo de câncer mais citado, já aprovado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (CONITEC).
Mesmo diante desse respaldo científico e de aprovações internacionais em órgãos como FDA e EMA (agências americana e europeia, responsáveis por regulamentar a segurança e eficácia de medicamentos), muitos pacientes só conseguiram iniciar o tratamento por meio de ações judiciais.
Esses números reforçam algo que vivencio no dia a dia da oncologia: a incorporação de imunoterapias ao SUS esbarra em barreiras estruturais, regulatórias e orçamentárias. Isso significa que, mesmo quando há evidência de benefício clínico, o acesso real à inovação ainda é restrito.
A imunoterapia representa um dos avanços mais significativos da medicina nos últimos anos. Para muitos pacientes, ela pode significar mais tempo de vida com qualidade. É, portanto, um campo onde a ciência já avançou — mas onde a política de saúde ainda precisa acompanhar.
Um chamado à construção coletiva
Este estudo vai além de ser uma contribuição científica. Ele é, sobretudo, um convite à reflexão: como podemos construir políticas públicas mais ágeis e equitativas, capazes de democratizar o acesso às terapias oncológicas mais modernas?
Garantir esse acesso não é apenas uma questão técnica. É uma questão de justiça social, de equidade e de compromisso com os milhares de brasileiros que dependem exclusivamente do SUS para lutar contra o câncer.
Dr Pedro Uson é oncologista no Einstein Hospital Israelita e integrante do Comitê Científico do Instituto Vencer o Câncer

