
A criação a pasto, predominante no rebanho brasileiro, é vista positivamente sob a perspectiva do bem-estar dos animais
Wendeson Araújo/CNA
A carne bovina brasileira exportada para a China, principal destino comercial do setor, passará a contar com um sistema de certificação internacional para atestar que o produto é livre de desmatamento. O projeto piloto para a implementação do selo Beef on Track (BoT) terá início na cidade portuária de Tianjin, porta de entrada de cerca de 47% do volume vendido aos chineses, segundo dados da Abiec.
A parceria foi formalizada nesta quarta-feira (3) entre o Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), criador do selo, e a Tianjin Meat Association (TMA). Além da associação, oito importadores chineses assinaram uma carta de interesse para serem os primeiros a pilotar o padrão de monitoramento socioambiental na cadeia produtiva brasileira.
O papel da certificação Beef on Track
A diretora de Clima e Desmatamento Zero do Imaflora, Marina Guyot, explicou que o selo Beef on Track é um sistema internacional baseado na experiência brasileira para garantir a rastreabilidade da carne. O projeto também avança em negociações com a auditoria Chinese Quality Mark Certification Group (CQM), que será responsável por verificar a cadeia de custódia dos produtos.
Para Xing Yanling, presidente da TMA, a cooperação visa aprofundar o desenvolvimento sustentável entre as indústrias de carne dos dois países. Segundo a executiva, a proteção ambiental não conhece fronteiras, e o compromisso compartilhado busca viabilizar a circulação de produtos de alta qualidade, verdes e sustentáveis.
Além de Tianjin, o Imaflora apresentou o sistema de certificação a compradores da província de Henan, considerada um importante hub de distribuição de proteína animal na China. A iniciativa é vista como uma oportunidade para agregar valor à carne brasileira, oferecendo vantagens competitivas no mercado internacional ao alinhar produção e conservação.
Carne certificada e o prêmio de valorização
Atualmente, o Brasil possui 2,1 milhões de toneladas de carne elegíveis à certificação BoT, por atenderem aos requisitos do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) da Carne na Amazônia Legal. A maior concentração dessa produção está localizada nos estados de Mato Grosso e Pará.
A Tianjin Meat Association anunciou a intenção de comprar até 50 mil toneladas de carne certificada ao longo de 2026. Marina Guyot ressaltou que a associação está disposta a negociar um prêmio adicional de até 10% no preço para os produtos que atingirem os níveis mais avançados de certificação.
O objetivo desse pagamento diferenciado é estimular um movimento semelhante ao gerado pelo padrão "boi China" no início da década de 2020. Naquela época, a valorização do gado rastreável e abatido precocemente incentivou mudanças que reduziram as emissões de gases de efeito estufa no setor.
Sustentabilidade como critério de qualidade
Para o consumidor chinês, o conceito de qualidade da carne evoluiu para abranger critérios de sustentabilidade e bem-estar animal. Louise Nakagawa, coordenadora do BoT no Imaflora, destacou que a busca chinesa inclui a conservação de recursos naturais e o equilíbrio climático, com a China visando a neutralidade de carbono até 2060.
A criação a pasto, predominante no rebanho brasileiro, é vista positivamente sob a perspectiva do bem-estar dos animais. Esse conjunto de diferenciais, aliado ao monitoramento socioambiental, posiciona o produto nacional como uma "carne verde" e ética, atendendo às exigências rigorosas de segurança alimentar do mercado chinês.
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