O governo brasileiro apresentou, nesta semana, um novo documento aos Estados Unidos em meio à iminente decisão do governo norte-americano sobre a imposição de tarifas de 25% a produtos brasileiros exportados para o mercado norte-americano. A medida, fundamentada na chamada seção 301 — uma lei norte-americana da década de 1970 —, permite a Washington retaliar comercialmente países considerados em desacordo com as regras e boas práticas do comércio internacional.
A data limite para que o presidente Donald Trump decida sobre a aplicação das tarifas é o próximo dia 15 de julho, o que tem gerado apreensão entre empresários brasileiros que mantêm relações comerciais com os Estados Unidos.
Segundo fontes do governo brasileiro, o documento enviado a Washington reitera a disposição do Brasil em negociar possíveis reduções tarifárias, especialmente sobre itens de alta tecnologia utilizados na área da saúde e consumidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, conforme as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), eventuais cortes nas tarifas de importação devem abranger todos os países, e não apenas os Estados Unidos.
Durante reunião sobre o tema, estiveram presentes, entre outros, o ministro da Indústria e Comércio do Brasil e representantes do setor produtivo norte-americano, com destaque para maquinário e produtos industriais. A pauta também incluiu críticas dos Estados Unidos ao sistema de pagamentos instantâneos brasileiro, o Pix, que, segundo o governo brasileiro, não devem resultar em sanções.
O diplomata Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington, expressou ceticismo quanto ao andamento das negociações. Para Barbosa, "não está havendo negociação". Ele destacou que, apesar dos discursos oficiais, as tratativas formais são limitadas e que "o resto é para inglês ver". O diplomata defendeu a atuação direta do setor privado, afirmando que "o que importa hoje é a negociação empresarial, os empresários que não quiserem ser prejudicados têm que ir a Washington conversar com a sua contraparte americana para buscar a retirada da lista, a entrada na exceção ou a redução da tarifa".
A tensão comercial também reverberou no cenário político nacional. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, entregou um documento de 86 páginas ao governo dos Estados Unidos pedindo a postergação da adoção da sobretaxa, alegando que sua implementação neste momento poderia favorecer eleitoralmente o atual governo brasileiro. No texto, Flávio Bolsonaro destacou que "as tarifas propostas recompensariam o atual governo brasileiro" e citou pesquisas de opinião pública segundo as quais "a posição eleitoral do atual governo se fortaleceu precisamente durante os períodos em que a pressão tarifária dos Estados Unidos foi mais evidente".
A movimentação do senador foi criticada por aliados do presidente Lula, que consideraram o gesto como uma tentativa de interferência eleitoral. Nas redes sociais, representantes do governo federal reagiram, defendendo o Pix e a condução das negociações comerciais.
No contexto da aproximação das eleições de outubro, o tema das tarifas ganhou contornos ainda mais sensíveis, com o setor empresarial buscando alternativas para evitar prejuízos e o governo brasileiro tentando manter o canal diplomático aberto. Segundo avaliação de especialistas, a expectativa é de que não haja recuo generalizado dos Estados Unidos quanto à tarifa de 25%, mas que negociações pontuais possam ocorrer caso a caso.
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