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Guerra no Oriente Médio ameaça 40% das exportações de carne brasileira

Escalada de tensão entre EUA, Israel e Irã coloca em risco o transporte de 1 milhão de toneladas de proteína bovina

VIVIANE TAGUCHI

03/03/2026 • 22:52 • Atualizado em 03/03/2026 • 22:52

Navios carregados com carne estão parados aguardando autorização para atracar

Navios carregados com carne estão parados aguardando autorização para atracar

REUTERS/Amr Alfiky

Resumo

Escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã ameaça até 40% das exportações brasileiras de carne bovina em 2026, devido à importância dos portos do Oriente Médio como hubs logísticos para o envio de carnes à China e outros mercados asiáticos, conforme a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).

Bloqueios e riscos crescentes nos portos do Catar, Omã, Emirados Árabes Unidos, Estreito de Ormuz e Canal de Suez afetam cerca de 10 países parceiros do Brasil, com destaque para carne de frango, que representa 24,55% das exportações do setor para a região, seguida pela carne bovina (5,66%) e suína, sendo que o impacto imediato ocorre na logística e custos financeiros.

Fechamento do Estreito de Ormuz, anunciado pela Guarda Revolucionária iraniana após ataques que mataram o líder supremo do Irã, obriga o redirecionamento de rotas marítimas, eleva custos de seguro e frete e reduz o acesso aos mercados, comprometendo o fluxo de exportações brasileiras por motivos geopolíticos alheios ao controle do país.

A escalada do conflito envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã pode impactar até 40% das exportações brasileiras de carne bovina em 2026, conforme as expectativas da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec). De acordo com a Abiec, os países do Oriente Médio importam em torno de 10% da carne bovina brasileira, no entanto, os portos da região funcionam um hub logístico importante para o setor, ancorando o trajeto de navios que seguem para a China, que é o maior comprador de carne bovina do Brasil.

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Roberto Perosa, presidente da Abiec, associação que representa as indústrias exportadoras de carne bovina, classifica a situação na região como gravíssima. Segundo ele, a estimativa de exportações superiores a 3 milhões de toneladas de carne em 2026 - em 2025, o Brasil exportou 3,8 milhões de toneladas de carne bovina - pode ser severamente impactada e o conflito pode interromper a chegada de 1 milhão de toneladas de carnes à Ásia, por exemplo.

Isso pode acontecer porque, segundo ele, os portos da região, como os do Catar, Omã e Emirados Árabes Unidos, são pontos de paradas estratégicas dos navios que partem do Brasil. A partir da região, a carga segue por terra a diversos países vizinhos. Caso o conflito não cesse, este trajeto será interrompido. Segundo Perosa, navios que transportam carne bovina do Brasil já estão parados em alto-mar, aguardando autorização para atracar em algum porto do Oriente Médio.

Ameaça à carne de frango

De acordo com a consultoria Agrifatto, o bloqueio nos portos da região, com destaque para o Estreito de Ormuz e o Canal de Suez, atingem cerca de 10 países que são importantes parceiros comerciais do Brasil. No ano passado, esse grupo, que inclui a Arábia Saudita, Jordânia, Emirados Árabes Unidos, representou 14,52% do volume total de carnes bovina, suína e de frango exportada pelo Brasil.

Em um relatório divulgado na tarde de terça-feira (3), a consultoria alerta que o aumento na percepção de risco eleva os prêmios de seguro marítimo e pressiona o valor dos fretes. Além disso, o redirecionamento de rotas marítimas tende a alongar os prazos de entrega das mercadorias.

Entre as proteínas brasileiras, a carne de frango é a que apresenta maior vulnerabilidade ao conflito. Em 2025, o Brasil enviou 1,27 milhão de toneladas de frango para esses dez países, o que equivale a 24,55% de tudo o que o setor exportou no ano.

Os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita concentram quase 70% desse volume. "No curto prazo, os impactos tendem a se concentrar na logística e no custo financeiro", afirmam os analistas da Agrifatto no relatório.

Já a carne bovina ocupa a segunda posição em volume para a região. No ano passado, foram destinadas 205,57 mil toneladas para esses mercados, representando 5,66% do total exportado pelo Brasil. A tendência para o boi é de menor volatilidade em comparação ao frango. A cadeia de proteína suína é a que menos deve ser impactada pelo conflito, já que por questões religiosas, as compras são menores e concentradas nos Emirados Árabes Unidos.

Um ponto relevante destacado pela Agrifatto é a mudança no fluxo comercial com o Irã. Desde 2020, sanções financeiras dificultaram os pagamentos diretos ao país persa. Isso forçou a criação de um corredor alternativo via Emirados Árabes Unidos. Esse rearranjo explica por que a participação dos Emirados no total de proteínas enviadas pelo Brasil subiu de 8,63% em 2015 para 11,16% em 2025. Enquanto isso, as vendas diretas para o Irã perderam espaço nas estatísticas oficiais devido a esses canais informais de abastecimento.

Fechamento do Estreito de Ormuz

A situação piorou após ataques coordenados que resultaram na morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei. Em resposta, a Guarda Revolucionária iraniana anunciou o fechamento do Estreito de Ormuz.

O estreito é uma passagem marítima estreita e estratégica entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, por onde passa cerca de 20% do transporte mundial de petróleo e grande parte do fluxo de mercadorias entre o Ocidente e a Ásia.

Para o setor de exportação, o fechamento dessa via obriga o redirecionamento de rotas e eleva drasticamente os custos de seguro marítimo. "O ano de 2026 tem sido de fortes emoções. Vemos uma diminuição de mercado não por problemas sanitários, mas por questões geopolíticas fora do controle do Brasil", concluiu Perosa, da Abiec.