
Bahia manteve a liderança histórica e respondeu por 56,8% do volume de cacau recebido pelas indústrias processadoras
Seagri/SP
A oferta de cacau no Brasil apresentou uma forte recuperação no 1º semestre, impulsionada pelo aumento no recebimento de amêndoas, mas a atividade industrial ainda patina devido à lenta retomada da demanda por derivados.
Dados compilados pelo SindiDados – Campos Consultores e divulgados pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) apontam que o recebimento de matéria-prima somou 95.108 toneladas no período, um crescimento de 63,4% em relação ao primeiro semestre de 2025.
O avanço expressivo recoloca a disponibilidade de amêndoas em patamar semelhante ao registrado em 2023, antes da crise de escassez que afetou o setor nos últimos dois anos. A melhora foi puxada especialmente pelo desempenho do segundo trimestre, quando o volume que chegou às indústrias atingiu 66.503 toneladas, alta de 64,5% na comparação anual.
Atividade industrial segue abaixo do período pré-crise
Apesar da maior quantidade de cacau disponível no mercado nacional, a moagem – processo de trituração das amêndoas para a produção de derivados como manteiga e pó de cacau – avançou apenas 3,6% no primeiro semestre de 2026, totalizando 101.426 toneladas. O montante processado pelas fábricas segue 19,8% inferior ao volume registrado nos primeiros seis meses de 2023.
Segundo a presidente-executiva da AIPC, Anna Paula Losi, o fortalecimento da cadeia produtiva depende diretamente da transformação dessa matéria-prima em produtos de maior valor agregado. A executiva avalia que, enquanto o consumo de derivados não reagir nos mercados interno e externo, parte dos ganhos da safra deixará de se converter em renda e competitividade para o setor.
Queda nas importações e retração nas exportações
A recuperação da safra nacional diminuiu de forma acentuada a necessidade de buscar matéria-prima no exterior. No primeiro semestre, o Brasil importou 18,1 mil toneladas de amêndoas, o menor patamar da série recente e uma queda de 57,1% ante igual período do ano passado. No segundo trimestre, pela primeira vez em quatro anos, o país não realizou importações de cacau.
Por outro lado, o comércio exterior de produtos processados também reflete a lentidão da indústria. As exportações brasileiras de derivados de cacau somaram 26.739 toneladas no semestre, recuo de 7,0% na comparação com o ano anterior. A Argentina despontou como o principal destino dos embarques, concentrando 45% do volume, seguida por Estados Unidos (19%) e Chile (9%).
Bahia lidera produção nacional e Pará ganha espaço
O panorama regional do primeiro semestre revela que a melhora na oferta ocorreu de maneira heterogênea entre as principais praças produtoras. A Bahia manteve a liderança histórica e respondeu por 56,8% do volume de cacau recebido pelas indústrias processadoras.
O Pará consolidou seu avanço na região Norte e ampliou a participação para 38,8% do total nacional, reforçando a diversificação geográfica da produção brasileira. O Espírito Santo registrou 3,1% do recebimento do período, enquanto Rondônia fixou sua fatia em 1,2%.
Instabilidade marca o mercado internacional
No cenário global, os contratos futuros da commodity operaram com volatilidade no segundo trimestre, oscilando entre US$ 3.500 e US$ 5.500 por tonelada nas bolsas internacionais. De acordo com análises da consultoria StoneX, os preços continuam elevados em termos históricos, embora fiquem abaixo das máximas registradas entre 2024 e 2025.
O alívio recente nas cotações decorre de uma revisão positiva na safra da África Ocidental, com destaque para a Costa do Marfim, onde as entregas superaram as expectativas em cerca de 260 mil toneladas. Contudo, o analista da StoneX, Lucca Bezzon, alerta que o mercado já monitora os riscos climáticos para o ciclo 2026/2027, diante da alta probabilidade de formação do fenômeno El Niño no fim do ano, o que costuma provocar estiagens e quebras de safra nas lavouras africanas e brasileiras.
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