
Generoso e os filhos
Band FM
A vida impôs a Generoso, um homem surdo e mudo, uma série de batalhas: a falta de acessibilidade, a infância sem estudos, a traição da esposa e o alcoolismo. No entanto, sua maior luta foi também seu maior ato de amor: criar sozinho os seis filhos. Anos depois, um de seus filhos relembra a jornada de dor, resiliência e gratidão, marcada por um legado de persistência que o levou à universidade. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta terça-feira (2).
Valorize cada instante com quem você ama. O amanhã é incerto. Ame, cuide, deixe as brigas para trás e viva intensamente o pouco tempo que temos porque se tem uma coisa que é eterna, é a saudade de alguém que já partiu.
Vamos voltar no tempo, antes mesmo de eu nascer. Meu pai, o senhor Generoso, veio ao mundo com uma deficiência: ele era surdo e mudo. Se hoje já falta acessibilidade, imagine naquela época... A vida dele sempre foi muito difícil e sofrida, principalmente porque sempre foi muito pobre.
O meu pai não teve a infância que toda criança merece. Ele nunca pôde frequentar a escola como sonhava porque era obrigado a trabalhar e proibido de estudar. Mesmo assim, ele sempre carregou dentro dele uma vontade muito grande de aprender. Essa vontade era tão forte que, alguns dias, ele fugia de casa só para estudar. Mas sempre acabava do mesmo jeito: o pai dele descobria e aí vinham as surras... ele chegava a buscar o meu pai com um revólver na mão. O crime do meu pai era querer aprender.
Quando já tinha 39 anos, o meu pai conheceu a dona Luciene, a minha mãe. Eles se apaixonaram rápido, daquele jeito intense, e por um tempo a vida dele parecia estar dando certo. Ele tinha herdado um sítio dos meus avós, tava melhorando de vida, tava cheio de planos. No mesmo ano em que conheceu minha mãe, ela engravidou e assim a família começou a crescer: primeiro veio meu irmão Luciano, depois mais quatro filhos, até chegar a minha vez. Seis filhos.
A traição que levou tudo
Mas o casamento deles começou a entrar em crise. A minha mãe, infelizmente, tinha um vício sério em álcool. Um dia, ela aproveitou que meu pai tinha ido até a cidade e simplesmente vendeu tudo o que eles tinham: o sítio, a casa… tudo que meus avós tinham construído com tanto esforço. E o dinheiro acabou todo em bebida. Simples assim. Aquilo seria motivo suficiente para meu pai nunca mais olhar na cara dela. Mas não… ele perdoou. Idiota, idiota por amor. Ela dizia que ia parar, pedia perdão, e ele, como sempre, acreditava. Meu pai fez jus à frase “na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza”.
Depois desse episódio, nossa vida começou a desandar de vez. Nós passamos a viver de forma extremamente precária, mudando de casa, de cidade, de rotina, nunca parando em um só lugar. Foi nessa fase que meu pai também se entregou ao álcool. Quando ele e minha mãe chegavam em casa bêbados, acabavam agredindo os meus irmãos. A gente já não reconhecia o meu pai. Ele nunca tinha sido assim, nunca! Ter perdido tudo virou a cabeça dele e tudo virou um caos. Eu lembro de uma noite em que minha mãe, totalmente descontrolada, tentou matar o meu pai com uma faca e arremessando tudo em em cima dele. E nós lá, presenciando tudo.
Mas tudo mudou de vez quando minha mãe conheceu outro homem e fugiu. Ela pegou cada um dos filhos e saiu distribuindo para outras pessoas. Nessa época, eu fui entregue para a minha vó - o que de certa forma, foi uma sorte porque estar com ela era infinitamente melhor do que ficar com a minha mãe. Os meus irmãos não tiveram essa sorte e ficaram com pessoas horríveis. A situação ficou tão grave, que o conselho tutelar começou a procurar a gente, um por um, e levou de volta para o meu pai. E ele, mesmo sem condições e com as deficiências que ele tinha, ficou com todos nós. Os seis.
Foi a primeira vez, em muito tempo, que nós sentimos que ainda tínhamos um lar, mas foi aí também que começou a maior luta da vida dele... sustentar e criar seis filhos sozinhos, mesmo com as limitações que ele tinha. Nessa época, ele superou a batalha contra a bebida e tinha voltado a ser aquele homem bom de antes. Meu pai cuidava de todos nós com muito carinho e fazia o possível e o impossível para dar o melhor que podia para gente.
Um anjo chamado Ricardo
Um dia, um tio do meu pai, que trabalhava como caseiro em um sítio, precisou sair de lá e indicou o meu pai para a vaga. O dono do lugar, o seu Ricardo, era um homem de coração gigante e assim que ele soube da situação em que a gente vivia, não pensou duas vezes... ele pegou o carro e foi buscar todo mundo. Ele não quis saber se meu pai tinha um, dois ou seis filhos. Ele simplesmente acolheu a família inteira.
O seu Ricardo foi mais do que um patrão. Ele se tornou quase um anjo para nós... Ensinava a gente a falar direito, dava conselhos, se preocupava de verdade, levava comida, sacos de carne, tudo o que podia para não deixar faltar nada em casa e, acima de tudo, tratava a família com respeito. No fim, ele virou um grande amigo do meu pai e nós pudemos ter uma infância como toda criança merece com escola e brincadeira. Que saudade daquela época!
Em 2017, o meu pai passou a ter problemas no fígado e insuficiência cardíaca e com o tempo, os remédios já não faziam efeito. Eu tinha só 13 anos e lembro de fazer massagem nas pernas dele para tentar drenar o líquido acumulado. A doença fazia com que ele inchasse muito já que ele não conseguia nem urinar direito. Então eu pesquisava e assistia videos na internet sobre uns tratamentos caseiros e usava umas ervas, baldes de gelo, tudo e qualquer coisa que pudesse ajudar aquele sofrimento. Mas a saúde dele foi piorando de um jeito que só de lembrar o meu coração já aperta. Ele parou de comer por quase três semanas, não conseguia mais urinar e acordava várias vezes tentando vomitar, mas não conseguia. É difícil até hoje imaginar a dor e a angústia que ele sentia.
O meu pai não conseguia nem andar direito. Ele ficou tão… tão fraco que nem para tomar banho dava conta. Eu, aos 13 anos, era quem dava banho nele. Ele sempre foi teimoso e confiava só em mim para aquilo. Aliás, para tudo! Era eu que levava ele ao banco, resolvia assuntos no INSS, cuidava de questões jurídicas… Eu tive que crescer rápido, aprender a lidar com responsabilidades de adulto bem cedo.
A despedida
Um dia, quando precisávamos levá-lo ao médico, ligamos para o SAMU, já que a gente morava no sítio e a cidade mais próxima ficava a muitos quilômetros. Eles disseram que estavam a caminho, mas passaram uma hora, duas, três, quatro… e nada. Só no dia seguinte eles chegaram. Quando nós estávamos indo até o portão do sítio, ele começou a dizer que ia morrer, repetia sem parar e naquele momento, começou a fazer a partilha das poucas coisinhas que ele tinha. Eu Lembro até que disse que a televisão era para ficar comigo. A gente tentava convencer ele de que não iria morrer, que ainda teria muito tempo com a gente, mas naquele momento parecia que ele realmente acreditava no fim.
O meu irmão mais velho foi com ele na ambulância porque eu ainda era menor de idade e não podia ir. Era começo da pandemia e quando ele chegou ao hospital, decidiram logo entubar. Ele já tava muito debilitado e com muita falta de ar. Enquanto isso, em casa, eu estava desesperado, angustiado de um jeito que não dá para explicar. Eu rezava, rezava muito, tentando acreditar que Deus sabia o que era melhor para ele. No terceiro dia a noite, eu senti uma coisa ruir e por volta das 3h da manhã, eu passei muito mal, muito mal mesmo, mas consegui voltar a dormir. No dia seguinte, eu recebi uma ligação da minha irmã por volta das 9h da manhã chorando muito e dizendo que... que o nosso pai tinha falecido.
Aquele dia, o meu mundo parou. Eu lembro de tudo como se fosse agora, cada detalhe. Ele foi velado no mesmo dia, e ver meu pai deitado... que dor! Parecia em paz, mesmo com toda a dor, parecia... Apesar do meu sofrimento, eu sabia que finalmente ele teria descanso, e ele... ele merecia isso depois de tudo o que ele tinha passado em vida.
Na hora do enterro, um parente do meu pai comentou:
— O que será desse monte de criança sem um pai?
E foi nesse momento que o seu Ricardo gritou pra todo mundo ouvir:
— Eu vou ser o pai deles, vou cuidar deles! Eu nunca vou esquecer disso. E ele cumpriu a palavra! Ele cuidou de todos nós como se fôssemos realmente da família dele.
O legado de um pai
Depois de um tempo, o Ricardo me pediu para ir até a capital para cuidar de umas coisas para ele e claro que eu fui. Mas o que era para ser um dia, se tornou uma semana, um mês e depois de tanto tempo é onde eu estou até hoje. Eu comecei a trabalhar na empresa dele e da esposa, a doutora Marili, que é outra pessoa maravilhosa. No ano passado, eu terminei o ensino médio e prestei o vestibular. E, em homenagem ao meu pai, que sempre sonhou em estudar, eu passei! Passei! E não foi só em uma faculdade, mas nas cinco principais do estado. Eu escolhi cursar Direito e já estou no segundo semestre. Todos os dias, o que me motivava a lutar pelos estudos era lembrar do meu pai, dizendo todos os dias para gente estudar, estudar, estudar e fazer aquilo que ele não teve oportunidade de fazer.
Estou contando a minha história para dizer que aproveitem a companhia de quem vocês têm ao lado, da família, dos amigos. O hoje é tudo o que temos, o amanhã só pertence a Deus. Não percam tempo com brigas bobas, perdoem quando puderem e, acima de tudo, digam “Eu te amo” para quem te criou, quem te educou.
Eu sou muito grato ao meu pai, por tudo que ele foi e continua sendo para mim e para a minha família. Sou muito grato ao Ricardo, porque sem ele eu não estaria aqui. Sou muito grato à Dra. Marili pelas oportunidades que ela me deu. E, acima de tudo, grato a Deus, por ter me dado um pai maravilhoso, que foi pai e mãe ao mesmo tempo, mesmo sem nada, cuidando de todos nós até os últimos momentos.
Hoje eu entendo que a vida não é sobre ter tudo, mas sobre como enfrentamos o que nos é dado. Meu pai me ensinou a lutar, mesmo quando tudo parecia impossível. Ele me mostrou que amor é força, coragem e persistência. Que mesmo nas maiores dores, é possível continuar e transformar a própria história. E é por isso que eu vivo assim: valorizando cada instante, amando, perdoando sempre que posso e lutando pelos meus sonhos, porque sei que é isso que ele faria.
Onde quer que você esteja, pai, eu prometo: cada vitória minha, cada passo que eu der, vai ser pensando em você. E o seu legado vai continuar, vivo em mim, na nossa família e em tudo que construirmos a partir daqui. A vida continua, mas o que ele me deixou é eterno. E isso… isso ninguém jamais poderá tirar.
Texto gerado artificialmente e revisado por Band.com.br.


