A trajetória de Bruno foi marcada por perdas e desafios desde a infância, mas o amor por Natália e a paixão pela engenharia o mantinham sonhando. Tudo mudou quando um acidente de carro o colocou diante da decisão mais difícil de sua vida, testando a força de seu relacionamento e sua própria coragem para recomeçar de uma forma que ele jamais imaginou. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta quinta-feira (28).
Toda a força que você procura já está dentro de você... E só aparece quando você mais precisa.
Eu nasci em Santos e, por um tempo, eu vivi uma infância tranquila. Mas, aos 6 anos, tudo começou a mudar. Naquela época, o meu pai abriu uma empresa em outra cidade, e a mudança trouxe um peso enorme para a minha mãe. Ela não conseguiu se adaptar à nova vida e acabou mergulhando em uma depressão profunda.
Eu e minha irmã conseguíamos ver isso claramente, enquanto o meu pai tava cada vez mais ocupado com o trabalho. Até que, quando eu tinha 12 anos, durante uma briga entre os dois, a minha mãe tomou a decisão mais dolorosa de todas: ela... ela tirou a própria vida.
Eu, com 12 anos, precisei enfrentar tudo isso e, ao mesmo tempo, assumir responsabilidades que não eram de uma criança. Eu passei a cuidar da casa, cozinhar, limpar e, principalmente, cuidar da minha irmã mais nova. Eu cresci carregando essa dor dentro de mim, mas, apesar de tudo, eu nunca deixei de sonhar.
Na adolescência, eu escolhi estudar Eletroeletrônica e, depois, segui para a Engenharia Elétrica. Durante a faculdade, eu já estudava e planejava estimuladores elétricos para ajudar na reabilitação de pessoas com deficiência física.
O dia em que conheci Natália
Foi nessa fase que eu conheci a Natália. Linda, mestiça... Ah! Foi amor à primeira vista. De início, ela não me deu muita bola, mas, de repente, ela me puxou pela mão, me levou até o bar… E me beijou. Linda e cheia de personalidade também!
Nós logo começamos a namorar à distancia. Ela em Santos, e eu em Santo André. Eu economizava no almoço e fazia marmita só para guardar dinheiro para as passagens de ônibus. Muitas vezes era ela quem me ajudava também. E, algumas vezes, escondido, eu pegava o carro do meu pai para fazer uma surpresa. Eu fiz isso umas dez vezes, até que eu bati o carro... Perda total.
Eu tive que trabalhar muito para pagar o prejuízo e ainda acabei repetindo um semestre da faculdade. Mas mesmo com toda a pressão, a gente não desistiu. Foram três anos assim: no aperto, correndo atrás, inventando jeitos de estarmos perto um do outro. Até que a Natália, que cursava jornalismo, me pediu ajuda para fazer o trabalho de conclusão faculdade dela..
— Eu quero muito entrevistar pessoas que realmente fizeram a diferença, sabe?
— Eu te ajudo. Eu vou pesquisar alguns profissionais da área do esporte e a gente faz esse documentário acontecer.
— Eu já até escolhi o nome: Inclusão Social do Deficiente Físico através do esporte.
Eu já tinha um certo conhecimento no assunto pelo que eu tinha estudado na minha própria faculdade com os estimuladores elétricos para ajudar na reabilitação de pessoas com deficiência física, então foi muito bom trabalhar com a Nat nesse documentário. Nós entrevistamos várias pessoas com deficiência física e eu confesso que tinha muita curiosidade em entender o dia a dia delas.
Como tomavam banho? Como dormiam? Como iam ao banheiro?
Cada pessoa trazia uma realidade única e eu fui aprendendo ainda mais sobre a forma como cada um enfrentava a vida. Mal sabia eu que toda essa vivência se tornaria essencial alguns meses depois…
'Minha perna não respondia'
Um dia, voltando para casa, quando eu estava na estrada, tudo aconteceu... A minha vida mudou! Um caminhão desgovernado esmagou o meu carro contra o guard rail. O impacto foi tão forte que me jogou para o outro lado da pista, mas eu não desmaiei em momento algum. Eu fiquei consciente o tempo todo e, na hora, já senti um cheiro forte de combustível. Eu achei que o carro fosse explodir e comecei a gritar por socorro até que alguns motoqueiros vieram me ajudar. Eu tinha alguns cortes nas mãos e na cabeça, mas fora isso, parecia estar tudo bem.
Um dos motoqueiros pediu que eu fizesse força na perna para que ele conseguisse me puxar do carro e foi aí que eu percebi que... que a minha perna não respondia. Eu não sentia nada. Quando finalmente me tiraram do carro, eu tava com a perna desmembrada, praticamente na minha mão. E, por mais absurdo que pareça, eu não sentia nada. Eu via tudo, entendia tudo, mas não sentia dor alguma.
Quando a ambulância chegou, o médico me fez algumas perguntas, e eu ainda consegui passar todos os meus dados e até o telefone da Natália. No trajeto até o hospital, foi que eu percebi de fato, a gravidade do que estava acontecendo comigo. Impressionante, mas até aquele momento, a dor ainda não tinha chegado... É nessas horas que você descobre uma força que nunca imaginou ter.
Quando eu cheguei ao hospital, eu já tinha perdido muito sangue e me encaminharam para cirurgia para tentar salvar minha perna e quando eu acordei, ela tava cheia de curativos e alguns pinos expostos. Para quem me olhava, parecia que tinha mesmo esperança de salvamento. Mas ali no hospital, a minha verdadeira batalha começou...
Eu peguei uma infecção e acompanhava cada curativo que faziam. Eu era a única pessoa a ver minha perna completamente aberta, exposta e com um cheiro horrível, como se a carne estivesse apodrecendo. Era insuportável! Dia sim, dia não, eu tinha que voltar ao centro cirúrgico para fazer limpeza. Era crítico... era bem crítico. Mas aos poucos eu fui melhorando e pude até sair da UTI, só que de repente, o meu estado piorou muito e eu tive uma convulsão. A Natália tava do meu lado, segurando a minha mão e pensando que eu não ia resistir, mas... mas por um milagre, um milagre mesmo, eu sobrevivi.

Acidente de Bruno (Foto: Band FM)
'Eu quero que ele ampute a minha perna'
Depois disso, eu fui transferido pra outro hospital, em Santos. Lá o médico disse que eu precisaria passar por uma cirurgia. E eu sabia... Pelo que eu via, com os meus próprios olhos, que o estado da minha perna era ruim. Muito ruim! Eu entendia um pouco daquilo tudo pelos meus estudos, pelo documentário que eu fiz com a Natália, e eu sabia exatamente o que seria melhor para mim.
Então, eu conversei francamente com o médico e agradeço pela sinceridade dele naquela hora. Ele explicou que eu tinha muita perda óssea e que, se tentasse reconstruir, a minha perna ficaria com diferença de quatro dedos em relação à outra. O movimento do calcanhar estaria perdido, e a musculatura da panturrilha, destruída. Em outras palavras, seria uma perna sem função. Eu ainda teria que usar uma gaiola por 2 anos para tentar reconstruí-la e depender de muletas ou bengala para o resto da vida. E, se algo desse errado, ainda corria o risco de precisar amputar acima do joelho.
Eu conhecia bem a diferença entre uma prótese acima e abaixo do joelho. O joelho é uma das articulações mais complexas do corpo humano, e nenhuma prótese consegue substituí-lo completamente, sem dores ou limitações. Eu tinha isso muito claro na minha cabeça. Então eu conversei com a Natália porque ela era a única que poderia entender o que eu estava prestes a dizer.
— Que cara é essa hein, Bruno?
— Natália, eu tô pensando em pedir algo drástico para o médico... Eu quero que ele ampute a minha perna. Você, mais do que ninguém, sabe que tem uma baita diferença amputar acima ou abaixo do joelho.
— Sim, eu sei... eu sei...
— Mas... mas se eu amputar a minha perna, você... você vai continuar comigo?
— Pelo amor de Deus, Bruno. Você é muito maior que essa perna. Você é o amor da minha vida. A sua perna não é nada para o ser humano que você é.
Essa atitude e essa coragem da Natália, me deram ainda mais força. Antes de ir para cirurgia, eu conversei com o médico porque aquela cirurgia ia definir como eu viveria o resto da minha vida. Eu disse que eu sabia bem a diferença de uma prótese acima e abaixo do joelho e, que se amputasse acima, eu não poderia mais correr, nadar ou andar de bicicleta, mas se fosse abaixo, com a prótese, eu ainda poderia fazer tudo isso e muito mais.
Então com o coração na mão, dei minha autorização e assinei um termo de consentimento para que amputassem a minha própria perna. Não é uma decisão fácil. Claro que não. Mas o que a vida quer da gente, é coragem!
'A tua vida agora é assim'
Eu saí da cirurgia amputado. E não, eu não tava triste. Pelo contrário.. eu tinha um sorriso de orelha a orelha, porque sabia que aquela era a melhor decisão. O meu joelho estava preservado, e isso fazia toda a diferença. A Natália tava tão aliviada quanto eu porque apesar da nova realidade, nós dois tínhamos a certeza de que era o caminho certo.
Ali mesmo a gente já começou a pesquisar próteses, ligar para médicos, falar com conhecido e logo muita gente se mobilizou para ajudar... Mas enquanto nós estávamos cheios de confiança, a minha família reagia como se eu tivesse morrido. Eles entravam no quarto com cara de enterro e eu, que tinha acabado de perder uma perna, precisava consolar em vez de ser consolado. Claro, eu não posso dizer que não tive momentos de reflexão. Eu sabia que, dali em diante, eu seria visto de forma diferente, e que sempre que me olhasse no espelho ia estar faltando uma parte de mim.
Mas eu precisei desapegar dos valores estéticos e focar só na minha reabilitação e na prótese. Não foi fácil, mas eu entendi que essa seria a minha nova realidade. E ter a Natália ao meu lado me deu ainda mais certeza de que eu não estava sozinho para enfrentar o que vinha pela frente.
Depois da amputação, eu fiquei mais 30 dias no hospital. E nesse período, Natália foi essencial em cada detalhe. Ela me ajudava a ir ao banheiro, levantar da cama, sentar no vaso, vestir a roupa, usar a muleta… Eu, confesso, acabei me acomodando com essa dependência. Até que um dia, cansada de me ver pedindo tudo, ela simplesmente colocou uma mochila nas minhas costas e disse:
— Olha, a tua vida agora é assim. Você vai ter que se virar.
— Só me ajuda a...
— Não! O que você quiser, coloca na mochila e vai buscar. Você não precisa pedir pra ninguém. Vai, você consegue!
Foi um chacoalhão necessário, que me fez crescer. Porque amar também é isso... abrir os olhos do outro, falar umas verdades e dar força. Depois disso, eu fui morar na casa dos meus sogros, que me acolheram como um filho. Ali começava, de fato, a nossa vida a dois.
Logo chegou o dia da minha colação de grau e eu confesso que fiquei com muito medo da reação das pessoas, fiquei imaginando como seria encontrar meus colegas, participar de um evento social… Era o primeiro desde a amputação, e eu estava nervoso demais. Mas a Natália foi incrível. Comprou os ingressos, organizou uma van e levou uma galera para me apoiar. Quando eu cheguei e vi aquela força toda ao meu lado, já me senti mais confiante.
Durante a cerimônia, eles ainda fizeram uma homenagem linda para mim e, para completar, eu recebi o prêmio de melhor aluno de engenharia daquele ano. Aquilo me deu força para entender que, apesar da amputação, a vida continuava e mais do que isso, eu tinha uma capacidade enorme para seguir em frente.
Uma vitória de mãos dadas
A minha rotina depois que voltei pra casa era academia, natação (que foi o esporte em que eu realmente me encontrei) e fisioterapia. Só que para chegar até a academia, o desafio começava antes! Eu ia de bicicleta, pedalando com uma perna só, mochila nas costas e as muletas presas junto. Era muito cansativo, mas eu sabia que precisava me fortalecer porque quando chegasse a hora de usar a prótese, meu corpo tinha que estar pronto. Então eu treinava, todos os dias, sem falhar. E seis meses depois do acidente, lá estava eu, cruzando dois quilômetros e meio no mar.
Até que chegou o momento mais esperado: a liberação do médico para colocar a prótese. A Natália mobilizou todos os nossos amigos porque o valor era alto e a gente não tinha condições de pagar. A gente fez rifa, churrasco, divulgou, correu atrás de doação e de parceria e, graças a essa união de tantas pessoas queridas, nós conseguimos comprar a prótese. Eu fui para São Paulo fazer a adaptação e precisei aprender a andar de novo. Só que, para minha surpresa, parecia que eu já tinha feito aquilo antes. Eu me senti confiante, determinado, disposto e a dor era muito pequena diante do que eu mais queria na vida: voltar a andar.
Assim que coloquei a prótese, eu já dei meus primeiros passos... Eu e a Natália resolvemos ir ao shopping e, pela primeira vez em 8 meses, nós andamos de mãos dadas. Quando a gente se deu conta, a gente começou a chorar. Aquele gesto tão simples representava uma vitória imensa!
Na época, eu ainda estava desempregado, até que uma amiga me convidou para contar minha história na empresa em que ela trabalhava. Eu fiquei em choque porque eu nunca tinha dado uma palestra antes, nem pensado nisso. Mas a Natália - sempre ela - me ajudou a preparar uma apresentação com fotos, e eu jamais poderia imaginar o impacto que aquilo teria. Depois da palestra, empresas entraram em contato comigo pedindo meu currículo e oferecendo emprego. E foi só aí que comecei a minha carreira como engenheiro.
Nesse período, nós fomos morar juntos de aluguel, e, conforme os anos foram passando, nossa vida financeira começou a melhorar. Com o tempo, pedi a Natália em casamento e foi um momento muito especial. A gente sabia que nosso relacionamento só ficava mais forte a cada ano, justamente por como cada um se colocou diante das dificuldades. Se conseguimos superar o desafio da minha perna, tão difícil e transformador, nós tínhamos a certeza de que poderíamos enfrentar qualquer obstáculo juntos. Ela disse sim, nós casamos e decidimos aproveitar muitos anos da nossa vida a dois antes de ter filhos, curtindo cada conquista e cada momento juntos.
Nós viajamos muito, crescemos profissionalmente e, depois de sete anos de casados, descobrimos que a Natália estava grávida da nossa primeira filha, a Giovana. Depois de 2 anos, a Natália descobriu a segunda gravidez, e então nasceu a Gabriela. Hoje, temos duas meninas incríveis, inteligentes e cheias de vida. E assim somos nós: uma família unida vivendo uma vida cheia de amor e gratidão.
Eu quis compartilhar a minha história para mostrar que é possível ter uma vida plena mesmo após a amputação de uma perna. É possível ter uma esposa, formar uma família, realizar sonhos… Tudo começa quando aprendemos a agradecer pelo simples fato de estar vivo.
Hoje, com muitos planos realizados e outros ainda por vir, eu tive a oportunidade de dar palestras em várias empresas e me tornei referência para outras pessoas amputadas. Eu me sinto abençoado por ter cruzado com pessoas incríveis ao longo da minha vida e por ter aprendido a encarar cada desafio com coragem, fé e determinação.
Muita gente diz que eu tive sorte, porque já conhecia mais sobre próteses e inclusão do que a maioria dos pacientes quando tudo aconteceu. E é verdade. Mas é justamente por isso que meu objetivo hoje é contar a minha história: para mostrar que é possível ter vida depois da amputação. Que não é o fim, mas o começo de uma nova forma de viver.
Eu sou a prova de que milagres existem. Sobrevivi a um acidente de carro do qual ninguém acreditava que sairia vivo. E aprendi que felicidade não está nos bens materiais, nem no que os outros mostram nas redes sociais. Felicidade está em valorizar a vida, cuidar da saúde, estar perto da família e caminhar de mãos dadas com quem a gente ama.

Bruno e família (Foto: Band FM)
Texto gerado artificialmente e revisado por Band.com.br.


