‘Nada que é verdadeiramente nosso se perde. Pode até demorar, mas aquilo que nos pertence, Deus faz questão de trazer de volta em algum momento.’ A história de hoje é sobre Eunice, uma mulher que, após ser forçada a entregar seu filho recém-nascido, passou 36 anos em uma busca incessante, movida pela dor da saudade e pela fé inabalável de que um dia o encontraria novamente. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta segunda-feira (13).
Eu nasci no Paraná e, desde cedo, trabalhei na roça. Meus pais eram rígidos, bravos, e nunca souberam demonstrar carinho. Eu não me lembro de um abraço, de um beijo, nada! Eles eram secos, daqueles que acreditam que essa é a forma certa de educar.

Eunice relata sua história de vida no 'Quem Ama Não Esquece' (Foto: Band FM)
Na adolescência, nós mudamos para São Paulo e fomos morar na casa da minha avó: eu, minha mãe, meu pai e meu irmão. Mas lá a vida estava longe de ser fácil. O meu tio, que morava com ela, bebia demais e eu e a minha prima Márcia sempre virávamos saco de pancadas. Ele vivia me humilhando e me xingando de tudo quanto era nome. Eu tinha 14 anos, já trabalhava muito como passadeira e mal sabia o que era namorar, mas ele sempre insinuava que eu não queria trabalhar e que só queria saber de homem na rua.
Eu sempre dizia para a minha prima que não via a hora de arrumar um homem bom e me casar só para sair daquela casa. A minha vida ali, era um inferno.
‘Casei por desespero para fugir da violência’
Um dia, depois do trabalho, minha amiga disse que um amigo dela, chamado Patrick, ia dar uma carona pra gente. Eu não podia imaginar o que aquilo ia fazer com a minha vida... Quando eu desci do carro ele ficou me olhando, como se tivesse gostado de mim, sabe? Mas eu… eu, definitivamente, não tinha gostado dele!
Alguns dias depois, do nada, o Patrick apareceu no portão da minha casa querendo falar comigo. Quando eu vi, me deu um medo enorme, porque eu sabia que se o meu tio me visse conversando com um homem, ia dar briga e eu ia apanhar. Então eu fui até o portão e falei rápido pra ele ir embora, e expliquei a situação. Ele foi embora, mas, no mesmo dia, armou uma pra mim que me deixou bem surpresa.
O Patrick foi atrás do meu tio nos bares ali perto e, em pouco tempo, já tinha virado amigo dele. Ele até passou a frequentar a casa da minha avó como se já fosse parte da família. Não demorou nada para ele conquistar também a confiança dos meus parentes e, de repente, todo mundo começou a falar que eu tinha que casar com ele.
Enquanto eu… eu não queria. Eu não gostava dele, nunca gostei. Mas mesmo assim aceitei me casar. Aceitei porque, naquele momento, parecia ser a minha única saída, a única chance que eu tinha de escapar do inferno que eu vivia todo dia.
Cada dia naquela casa era um tormento. As agressões do meu tio, a violência, o medo… Era como se eu estivesse presa num pesadelo sem fim. Então, quando ele apareceu falando em casamento, eu não pensei muito. Não porque eu estivesse apaixonada, mas porque, por um instante, eu enxerguei uma possibilidade de liberdade. Eu pensava: ‘Talvez, com ele, eu tenha paz.’ E foi assim que eu disse sim. Sem amor, sem vontade. Só com a esperança de fugir dali.
Nós nos casamos e, na nossa primeira noite, eu dormi trancada no banheiro. Eu não gostava dele, e pra ser bem sincera, eu sentia até nojo. Mas poucos meses depois, eu descobri que estava grávida. Eu não sabia se chorava, se gritava ou se fugia. Eu me sentia confusa, sozinha e sem saber o que fazer. Eu não amava o pai do meu filho, mas, a partir dali, eu tinha uma vida dentro de mim, uma vida que não tinha culpa de nada. E, por mais difícil que fosse, eu sabia que aquela criança seria minha responsabilidade.
O Patrick, assim como o meu tio, também bebia muito. Além disso, ele era jogador de futebol e não ajudava em nada dentro de casa. Tudo que era nosso, ele destruía. A minha mãe tinha comprado vários móveis novos para a gente, mas, um dia, ele chegou nervoso, totalmente desequilibrado, só porque tinha perdido um jogo e, naquele dia, apareceu um caminhão na porta e levou quase todos os móveis. A única coisa que sobrou foi o colchão e o fogão. Eu fiquei tão arrasada, tão decepcionada que, mesmo grávida, eu pedi a separação.
Pouco tempo depois, eu perdi minha mãe e meu pai, que já estavam com a saúde muito frágil. Foi um dos momentos mais difíceis da minha vida.
Meu primeiro filho, Alex, nasceu e eu era muito jovem, mas eu tinha muita vontade de dar a ele uma vida diferente da minha. Eu trabalhava sem parar e fazia tudo o que fosse preciso para garantir que ele tivesse pelo menos o mínimo que precisava. Na época, eu morava de aluguel, na mesma casa que meu irmão, dividindo o espaço como dava. Era simples, apertado, mas era meu cantinho. E, principalmente, era um lugar sem violência e sem medo.
Era pra minha vida ter melhorado... Eu tinha deixado pra trás um casamento difícil, estava lutando pra criar meu filho e achava que, finalmente, estava começando a ter paz. Mas, um dia, a minha prima me chamou para um churrasco e... e tudo mudou para sempre.
‘Pressionada pela família, entreguei meu bebê’
Naquele dia, eu passei por uma situação que nem que eu viva 10 mil anos, eu vou esquecer. Assim que eu cheguei no churrasco, um homem me trancou em um quarto e... e fez tudo o que ele quis e que eu não queria. Na hora eu senti que eu não podia falar nada… quem ia acreditar em mim? Tudo que passava pela minha cabeça era que iam dizer que eu tinha dado liberdade pra ele, mas não! Eu fiz de tudo para sair dali. Eu gritei, me joguei no chão, lutei, mas eu não tive forças. Eu era jovem, vulnerável, e me senti completamente sozinha. Depois disso, eu voltei para casa e o caminho todo fiquei me perguntando se eu estava grávida.
Eu só tinha 18 anos. Meu filho ainda era um bebê e eu mal conseguia lidar com tudo aquilo.
Semanas depois, apareceu uma vaga de emprego. Mas eu... eu já estava desconfiada que tinha mesmo engravidado. Desde o dia em que eu sofri aquela violência, eu senti. Quando eu fui me candidatar para essa vaga, eles pediram teste de gravidez porque não aceitavam mulheres grávidas. Eu fiquei desesperada porque eu precisava muito daquele emprego. Então eu entrei em uma igreja e pedi a Deus que o meu exame desse negativo.
Eu fiz todos os exames e, mesmo no fundo já sabendo que estava grávida, o resultado deu negativo e na mesma semana, eu recebi a notícia de que tinha sido aprovada no emprego.
O tempo foi passando, os meses correram… e, com eles, minha barriga começou a crescer.
Quando eu contei para minha família que estava grávida, foi um horror. A minha tia me bateu, me deu um tapa na cara e me chamou de vagabunda. E eu... eu nem tinha forças para responder ou reagir. Eu fiquei ali, calada, engolindo cada palavra. A única que sabia toda a verdade sobre o que tinha acontecido era a minha prima Márcia. O resto da família me julgava, apontava o dedo e dizia que eu devia abortar. Os meus tios chegaram a dizer que eu precisava dar o bebê para outra pessoa, como se meu filho não fosse meu direito, como se ele fosse um problema para ser descartado. Eles chegaram até a arrumar uma pessoa para eu entregar o meu filho.
Quando chegou o dia do parto, eu fui sozinha para o hospital e tive o meu filho sem ninguém por perto para me apoiar. Ele nasceu a coisa mais linda do mundo e cada vez que eu o pegava no colo, eu chorava porque não queria entregar meu bebê para ninguém. Ele era meu, o meu Heitor. E eu era a mãe dele.
Quando eu voltei pra casa, eu fiquei com o Heitor por cinco dias, cuidando dele sozinha. Foram os cinco dias mais preciosos da minha vida. Era como se cada segundo fosse único.
Mas minha família não parava de repetir que eu não ia conseguir ficar com ele e que era melhor entregar logo. Até que um dia, a pessoa que eles tinham falado bateu na minha porta e eu, pressionada, acuada, sozinha e frágil, acabei entregando o Heitor.
Foi a maior dor da minha vida... Uma dor que não cabia dentro de mim.
A partir daquele dia, eu passei a carregar uma tristeza enorme no coração. Era uma saudade que não tinha fim e foram anos vivendo um dia de cada vez, tentando lidar com a falta do meu filho. Eu lembrava do rostinho lindo dele, do cabelo pretinho… e mesmo com tudo isso dentro de mim, eu continuei lutando pra sobreviver.
‘O pai do meu outro filho o levou para Pernambuco’
Eu trabalhava o dia inteiro, e fazia o que fosse preciso para cuidar do Alex, meu outro filho. Eu aluguei uma casa simples e saía cedo todos os dias pra trabalhar. Eu deixava meu filho com uma moça de confiança e todo mês eu pagava pra ela cuidar dele porque eu só chegava em casa à noite. Até que um dia tudo mudou. Eu saí do trabalho como sempre, mas quando eu cheguei lá, a moça me disse, com a maior naturalidade, que o pai do Alex tinha ido buscá-lo. Ela disse ainda que ele contou que ia levar o menino pra Pernambuco e que eu estava ciente disso.
Naquela hora, o meu coração disparou. Eu entrei em desespero, gritei, chorei, saí correndo até a delegacia e a única coisa que eu conseguia repetir era: “Eu quero meu filho de volta.” Eu sabia que o pai do Alex não tinha estrutura nenhuma e era um irresponsável. Eu já tinha passado pela dor de perder um filho uma vez e eu não suportaria viver tudo de novo.
Na delegacia eu fui humilhada. O delegado disse que podia me ajudar, mas que em troca eu teria que dormir com ele... Juro por Deus! E pior, eu estava tão desesperada, que eu disse que faria qualquer coisa só para ter o meu filho de volta. Eu aceitei, mesmo sabendo que não queria, mesmo sabendo que estava errado porque, naquele momento, tudo o que eu queria era segurar o meu filho nos braços de novo. Eu fiz o que ele quis e ele cumpriu o que prometeu. O delegado ligou para a cidade onde o Alex tinha sido levado e encontraram meu filho. Eu entrei no primeiro ônibus que eu consegui e fiz uma viagem de 3 dias implorando a Deus para que desse tudo certo... E deu!
Quando eu cheguei e vi meu filho, nossa… que alívio! Eu peguei o Alex no colo, beijei, abracei e não soltei mais. O pai dele resistiu, não queria entregar, mas eu tinha a ordem judicial do meu lado e eu consegui levar meu filho de volta para casa.
Os anos passaram, eu conheci outra pessoa, me casei, tive outra filha, a Joice, e depois me separei. E, apesar de estar feliz e com a vida um pouco melhor, todos os dias eu me pegava procurando pelo meu filho. Quando via moradores de rua, eu ficava imaginando: será que é ele? Era quase automático, inconsciente. Sempre que eu percebia, estava à procura do Heitor.
Várias vezes eu tentei conseguir informações, mas eu nunca consegui. Eu procurava meu filho nas redes sociais pelo nome e sobrenome, mas não encontrava nada. Depois, me cadastrei em sites de pessoas desaparecidas, e também nada!
Mas eu sempre fui muito apegada a Deus, e teve um dia em que eu estava muito angustiada que eu fui a uma igreja que eu nunca tinha ido antes. Foi ali que senti algo diferente, como se Deus estivesse falando diretamente comigo através do pastor. Ele começou a pregar sobre Ezequiel 37, aquele trecho que fala do profeta que profetiza sobre um vale de ossos secos, e como eles voltam à vida. Naquele momento, eu soube que cada palavra era só pra mim. O pastor disse que tinha alguém ali angustiado, procurando por alguém há muitos anos, mas que Deus ia trazer essa pessoa de volta, porque Ele a estava guardando, onde quer que estivesse. Quando eu ouvi aquilo, não aguentei! Eu chorei muito porque eu sabia que era Deus falando comigo.
‘Depois de 36 anos, uma ligação mudou tudo’
Em 2019, logo cedo, o telefone não parava de tocar. Eu nunca atendia ligações desconhecidas, mas dessa vez a pessoa insistiu tanto que resolvi atender. Quando eu atendi, era uma mulher e ela já começou falando o meu nome inteiro. Na hora eu me assustei, e percebi que era algo sério. Eu disse que era eu mesma e então ela pediu para eu me sentar. Eu obedeci, sentei, e foi quando ouvi as palavras que eu sonhei durante todos aqueles anos: "Eu encontrei o seu filho.”.
Meu coração batia tão forte que parecia que ia sair pela boca. Eu não conseguia acreditar no que estava escutando. Ela disse que tinha certeza que era ele, e até me sugeriu fazer um teste de DNA caso eu tivesse alguma dúvida. Ela me mandou fotos do meu filho, os documentos, contou que trabalhava em sites de buscas por pessoas desaparecidas e que o meu caso tinha chamado atenção dela. Aquela palavra que eu ouvi lá atrás finalmente se cumpriu.
Eu nunca tinha sentido nada parecido com o que senti naquele dia. Durante tantos anos, sempre apareciam fotos de rapazes para eu olhar e dizer se era o meu filho ou não. Mas, pela primeira vez, eu não tive dúvida nenhuma: eu soube. Eu senti dentro de mim que era ele.
Ela me passou o número do Heitor e eu fiquei em choque. Eu não sabia o que dizer, nem como agir. Depois de 36 anos de busca, o meu filho estava a apenas uma ligação de distância.
Naquele dia, eu não consegui comer nada. Eu levantava, sentava, andava pela casa, tentando imaginar o que falar. Mil pensamentos vinham à minha cabeça, mas um era maior do que todos: o medo da rejeição. O medo dele não entender porque um dia eu tinha entregado ele.
Já era de noite quando eu criei coragem, respirei fundo e liguei. Quando ele atendeu, eu disse que precisava falar com ele, mas que não sabia por onde começar.
— Você é a minha mãe, né?
Naquele instante, meu mundo virou de cabeça para baixo. Um misto de alegria, alívio e emoção que eu não sei nem colocar em palavras. A gente ficou no telefone por horas, conversamos sobre tudo e o Heitor me recebeu muito bem! Ele entendeu tudo o que tinha acontecido e eu pude matar o que estava me matando durante todos aqueles anos!
Alguns dias depois, pra comemorar, marquei um almoço com meus filhos: o Alex, a Joice e o Heitor. Foi o melhor dia da minha vida. Eu pude abraçar meu filho de novo, depois de 36 anos. Sentir o cheiro dele, olhar nos olhos dele… enfim, matar uma saudade que parecia não ter fim.
Hoje, graças a Deus, eu posso dizer que tenho uma família completa. Depois de tantas lutas, encontrei no Marcos um companheiro incrível, que me apoia em tudo. Meus filhos já são todos casados, cada um com sua casa própria, muito batalhadores e com filhos.
No total, eu já tenho 11 netos e duas bisnetas, frutos daquilo que um dia parecia impossível.
Olhando para trás, para cada dor, cada perda e cada lágrima, eu consigo ver a mão de Deus guiando tudo. Tudo que é nosso, de verdade, volta para nós. Meu Heitor voltou, minha família se completou, e eu aprendi que, mesmo nos momentos mais sombrios, a esperança nunca nos abandona. Hoje eu posso dizer com o coração cheio: sobrevivi, lutei, e venci.


