
Ailton e Juliana
Band FM
A história de Ailton e Juliana começou na infância, mas o amor que sentiam só foi se concretizar anos mais tarde. A decisão de se casar com a mulher que sempre amou, no entanto, o colocou diante de um dilema devastador: construir sua nova família significava enfrentar a completa rejeição de seus pais. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM, desta terça-feira (16).
Qual escolher? Agradar a sua mãe ou viver um grande amor? Esse foi o dilema mais doloroso da minha vida. É por isso que, hoje, eu preciso abrir o meu coração aqui no “Quem Ama Não Esquece”.
Eu conheci a Juliana na escolinha, quando a gente tinha uns 5 anos. E, pra ser sincero, desde aquela idade eu já era completamente caidinho por ela. Até hoje eu guardo uma foto nossa, dançando quadrilha na festa junina, bem novinhos. Nós crescemos juntos e estudamos na mesma sala até os 15 anos.
Na adolescência, eu era considerado um dos melhores alunos da turma, e sempre que o professor pedia pra eu ajudar alguém com a matéria, eu já sabia exatamente quem ajudar: a Juliana. Eu atravessava a sala, me sentava ao lado dela e explicava a lição… mas, no fundo, o que eu queria mesmo era um motivo pra estar perto e pra ter um pouquinho da atenção dela só pra mim.
Um dia, foi a própria Juliana quem se convidou para ir até a minha casa, dizendo que precisava de ajuda em uma matéria. Ela levou uma amiga junto, e minha mãe, atenta como sempre, não deixou que a gente ficasse sozinho nem por um minuto. Nada aconteceu naquela tarde… mas, pra mim, foi inesquecível.
Eu era tímido demais pra abrir a boca e dizer o que sentia, mas a minha cabeça inventava mil e uma declarações de amor para ela. Declarações que eu nunca tinha coragem de pôr para fora.
Teve um dia em que eu acordei decidido: era agora ou nunca, eu ia pedir a Ju em namoro. Nesse dia tava chovendo muito, sem parar, e eu, tentando ser um cavalheiro, insisti em acompanhá-la até em casa. Nós chegamos os dois ensopados, rindo da situação… mas, quando o momento perfeito chegou... mais uma vez me faltou a coragem. E assim foram muitas oportunidades perdidas.
A Juliana tava sempre ali, tão perto, mas meu medo e minha timidez não me deixavam agir.
E aí veio o golpe mais duro! Quando a gente chegou ao ensino médio, ela se mudou para outra cidade, e claro, para outra escola. De um dia para o outro, a cadeira dela ficou vazia e para mim, meus dias nunca mais foram completos. Ela tinha ido embora e eu sabia que a gente nunca tinha tido nada, mas cada manhã sem ver a Juliana era como se faltasse um pedaço de mim.
Eu segui a minha vida… e guardei toda essa paixão aqui dentro.
Um reencontro que mudou tudo
Aos 18 anos, eu conheci a Kelly. Tudo começou com uma conversa boba no dia a dia, até que a gente foi se aproximando e começou a ficar. Depois de uns três meses juntos, as conversas ficaram mais frequentes, as saídas mais constantes… até que a gente oficializou o namoro.
Eu nunca fui muito de balada ou de sair à noite. Eu sempre fui mais certinho, daqueles que preferem um namoro sério. Acho que isso vem muito da referência que eu tive dentro de casa. Os meus pais viveram um casamento longo, conservador e crescer nesse ambiente me fez acreditar nesse modelo de família tradicional tipo o homem saindo para trabalhar e a mulher cuidando do lar.
O nosso namoro foi longo, durou quatro anos e nós chegamos a morar juntos, mas, com o tempo, o relacionamento foi se desgastando. A Kelly era muito possessiva, muito controladora. E eu, que sempre fui um cara tranquilo, sossegado, comecei a me sentir sufocado. Ela queria mandar em tudo, controlar cada detalhe da minha vida, e isso foi destruindo a paz entre nós. As brigas ficaram cada vez mais frequentes até que um dia chegou no limite. Nós discutimos feio e ela chegou a me ameaçar com uma faca. Naquele instante, eu percebi que não existia mais respeito, e muito menos amor. Ali, dentro de mim, algo virou a chave.
Eu esperei o final de semana, quando ela foi visitar os pais, e sem falar nada, arrumei minhas coisas e fui embora. Eu deixei a casa toda mobiliada pra ela e voltei a morar na casa dos meus pais, que na época tinha mudado de cidade e tinham deixado a casa para minha irmã.
Eu terminei aquele relacionamento sem peso nenhum na consciência. E, mal sabia eu, que assim que virasse essa página, a vida ia me devolver o amor da minha vida.
Nessa fase, eu trabalhava como promotor de vendas e, em uma das lojas que eu atendia, eu tive uma baita surpresa: Eu encontrei a irmã da Juliana trabalhando lá.
Nós começamos a conversar, relembramos algumas coisas do passado, até que, de repente, ela comentou que a Ju tinha se separado recentemente. Naquele instante, algo dentro de mim despertou. Era como se um sentimento guardado há tantos anos tivesse voltado com toda a força. O meu coração disparou e eu soube que não podia deixar essa chance escapar. Eu precisava me aproximar dela de novo. Então eu pedi o telefone da Ju e sem pensar muito, liguei.
— Ailton?
— Sim! A gente estudou junto, lembra? De criança até o ensino médio.
— AILTON? MEU DEUS! Como eu pude me esquecer?
— Ah, faz tanto tempo...
— Muito mesmo! Mas que surpresa boa! Me conta, como está a vida?
A gente conversou por horas, rindo, lembrando histórias e tentando atualizar as nossas vidas depois de tanto tempo. Até que, de repente, ela mesma me convidou para ir até a casa dela, para a gente se ver pessoalmente e conversar melhor.
Eu cheguei com o coração apertado, meio nervoso, sem saber o que esperar depois de tanto tempo, mas, no instante em que a Ju abriu a porta e sorriu para mim, tudo se acalmou. Parecia que nada tinha mudado e eu... eu só queria ficar ali, ouvindo cada palavra e matando a saudade que eu nem sabia que era tão grande.
Foi nesse dia, no meio dessa conversa, que a Ju me contou que tinha um filho do antigo casamento. Na hora, eu sorri e tentei agir naturalmente, mas, por dentro, aquilo ficou martelando. É que eu sempre tive muito claro na minha cabeça que não deveria nunca me envolver com alguém que já tivesse filhos. Só que... só que era a Juliana. E isso fazia toda a diferença.
Ela também contou sobre o sofrimento que viveu no relacionamento anterior. E acho que foi por isso que naquele começo, sempre que eu a convidava para sair, ela recusava. Foram uma, duas, três tentativas até que, depois de algumas semanas, ela finalmente aceitou.
Naquele encontro, eu matei a saudade da infância e, pra minha surpresa, veio o tão sonhado primeiro beijo. O beijo que o Ailton de 12 anos já sonhava em dar… Para mim, foi inesquecível.
Depois disso eu tive a certeza de que eu realmente gostava dela. Mas eu também queria ir com calma. Eu não queria que fosse só a paixão de infância falando mais alto… mas depois de um tempo, ela me colocou contra a parede.
— Ailton, eu me separei justamente porque eu não quero um relacionamento raso. Eu quero coisa séria.
— Eu sei disso, Ju. Mas a gente ainda tá se conhecendo, né?
— Sim. Mas se você quiser continuar saindo comigo, vai ter que me pedir em namoro.
Bom, se era assim, então eu não tinha nem que pensar duas vezes. Na hora, eu já fiz o pedido.
A escolha entre o amor e a família
Logo depois, ela me apresentou ao filho, que só tinha 3 anos e assim a nossa história começou para valer. Nós começamos a namorar e, depois de 3 anos, eu consegui comprar uma casa para gente.
Era a hora de casar! Mas tinha um problema...
Os meus pais nunca aceitaram o meu namoro com a Ju pelo fato de ela já ter um filho de um relacionamento anterior. Eles nunca aprovaram a situação, nunca. E quando eu falei que ia me casar, foi um surto ainda maior. Minha mãe deixou claro que não aceitava nada daquilo.
Foi muito difícil pra mim, mas eu sabia, com toda certeza, que a Ju era a mulher da minha vida. Claro que eu queria muito que a minha mãe se desse bem com a minha noiva, mas eu sabia que não tinha controle sobre a opinião dela.
Nada... nada iria parar a gente e nós seguimos firmes, planejando cada detalhe do nosso casamento.
Quando a data do casamento foi se aproximando, eu criei coragem e fui até a casa da minha mãe. Eu queria muito que ela entrasse comigo no grande dia. Eu entreguei o convite nas mãos dela, cheio de esperança, mas para a minha tristeza, ela disse que não ia. Nem ela, e nem o meu pai.
Eles realmente não aceitavam, não toleravam e não suportavam a ideia de eu me casar com uma mulher que já tinha um filho.
Ouvir aquilo foi como levar um soco no peito, meses antes do que deveria ser o dia mais feliz da minha vida, mas antes de sair, eu olhei nos olhos dela e disse: "O meu papel de filho, que era te convidar, eu fiz. O resto… não depende de mim".
Eu e a Ju nos casamos no civil e no religioso no mesmo dia e eu fiz a minha entrada com a minha sogra, ao invés da minha mãe.
"Sua mulher ou seu filho?"
Logo depois do casamento, a Ju começou a ter muitas crises de vesícula. Ela sentia muita dor no abdômen, passava mal, vomitava e, por isso, precisava tomar medicação pesada. A gente ia e voltava do hospital várias vezes por semana. E foi em meio a uma dessas crises, durante uma consulta, que o médico pediu alguns exames apenas por precaução e então veio a surpresa: a Ju estava grávida! Foi um choque enorme porque era a última coisa que a gente esperava. Mas, ao mesmo tempo, foi uma notícia que mudou a nossa vida para sempre.
A gravidez não foi nada fácil. Com 5 meses, as crises da Ju pioraram tanto que o médico disse que seria preciso operar. E então veio a pergunta mais difícil da minha vida: "Sua mulher ou seu filho?".
Na hora, fiquei completamente paralisado. Como assim eu teria que escolher se a minha mulher ia viver ou morrer? Como se a vida dela e a do nosso filho dependessem de mim? O peso era absurdo, uma responsabilidade que ninguém deveria carregar, mas... mas no fundo, eu sabia o que meu coração mandava: escolhi a Ju.
A cirurgia era delicada, arriscada e eu não podia perdê-la. Foram horas intermináveis de dor, sentado do lado de fora, orando, implorando, esperando que tudo desse certo. E, graças a Deus, deu.
Ela e o nosso filho sobreviveram!
— Você não podia ter feito isso, Ailton. Você não podia me colocar na frente do nosso filho.
— Ju, eu sei que um filho nunca substitui outro, mas a gente teria a vida inteira para tentar de novo. Mas se você... se você morresse, meu Deus, eu nem consigo pensar numa coisa dessas. Eu nem consigo imaginar a minha vida sem você.
— Tudo bem... tudo... passou! Deu tudo certo. Estamos nós dois aqui.
Uma ferida que o tempo não fechou
Nessa época, os meus pais tinham se mudado para a Bahia e, em 2014, eu fui visitar o meu irmão que também morava lá. Eu confesso que tinha um certo tipo de esperança no meu coração, mas o meu irmão disse, de forma bem direta, que os meus pais não queriam me ver e que tinham proibido de passar o endereço deles para mim.
Poucos meses depois, eu recebi uma das notícias mais difíceis da minha vida: o meu pai estava com câncer no intestino. Menos de dez meses depois, ele faleceu.
A dor foi imensa… e ainda maior por toda situação e porque eu não consegui me despedir.
E, apenas um mês depois dessa perda, nasceu minha filha Mariana. Um misto de dor e alegria tomou conta de mim. Ela chegou trazendo luz, risadas e felicidade, me lembrando que a vida segue e que, mesmo nos momentos mais difíceis, sempre existem motivos para sorrir.
Com o tempo, minha mãe voltou a morar na mesma cidade que a gente e, como filho, tentei fazer a minha parte. Eu ia até a casa dela, tentava me aproximar, me mostrar presente. Mas ela não me atendia. Eu ficava do lado de fora do portão, esperando, esperando que ela abrisse, mas nada!
Eu tenho uma tia que é vizinha da minha mãe, e em vários finais de semana eu passo lá para almoçar. A gente ri, brinca, conversa e, ainda assim, minha mãe não sai de casa. Eu tenho a sensação de que ela escuta, mas simplesmente não quer me ver.
Mas eu não me arrependo de nada porque, quando você assume um compromisso, você ganha uma nova família. E, para seguir em frente, às vezes é preciso colocar uma pedra no passado.
Enquanto você não tem uma esposa, é natural que a prioridade sejam os seus pais. Mas, quando você encontra a pessoa certa e decide se casar e construir com ela uma vida, a prioridade muda: é sua esposa quem passa a estar ao seu lado todos os dias, compartilhando cada momento da sua história. Eu nunca tive dúvidas de que a Juliana era essa pessoa. Era a minha pessoa.
Hoje, somando namoro e casamento, já são 16 anos ao lado da minha esposa. A vida me ensinou que, por mais que a gente faça planos, Deus muitas vezes nos leva por caminhos que a gente nem imagina. Eu, por exemplo, tinha um tabu de nunca me casar com uma mulher que já tivesse filhos. E posso dizer, com toda certeza, que foi uma das melhores escolhas da minha vida. Meu enteado é como um filho para mim.
Eu amo a minha mãe, e até hoje dói saber que meu pai morreu sem que a gente estivesse perto um do outro. Mas existem coisas que simplesmente nós não conseguimos controlar no outro.
Por mais que a gente queira, às vezes o outro não quer. E aprender a lidar com isso, mesmo que doa, é uma das lições mais difíceis e importantes da vida.


