Muitas vezes, a gente acha que, por causa das nossas limitações, ninguém vai nos amar de verdade. Para Patrícia, que é cadeirante e tem uma malformação, essa certeza a acompanhou por muito tempo. Mas o amor, quando chega, transforma tudo, e foi em Rodrigo que ela encontrou a força para acreditar que era digna de ser amada incondicionalmente. Leia o relato completo no Quem Ama Não Esquece, da Band FM.
Eu nasci com uma malformação nas pernas, mas graças a Deus, os meus pais me aceitaram desde o começo, sem me tratar como um peso ou um fardo. A gente sabe que muitas famílias não conseguem lidar com esse tipo de coisa e acabam transformando a vida do filho em algo ainda mais difícil. Mas comigo foi diferente... Eles me deram força e nunca me deixaram sentir que eu era “menos” do que ninguém.

Patrícia relata sua história de amor no Quem Ama Não Esquece (Foto: Band FM)
Depois do parto, a minha mãe, Aparecida, ficou com muito medo, sem saber qual seria a reação do meu pai. Mas o que ela não imaginava era que, antes mesmo de conversar com ela, o meu pai já tinha me visto no berçário. Eu tava na incubadora, tomando banho de luz, com um tampão nos olhos. E foi nesse momento que ele teve a ideia do meu nome: Patrícia. Ele dizia que eu parecia uma verdadeira “patricinha” tomando sol.
Quando o meu pai entrou no quarto, ele viu minha mãe chorando. Ela tentou falar, contar para ele, mas antes mesmo de terminar, ele já interrompeu e disse que a filha deles era linda e que eles iam amar e cuidar como todos os pais devem fazer.
E assim realmente fizeram. Eles sempre me trataram como qualquer criança. Tanto que eu estudei em escolas públicas comuns, sem tratamentos especiais. E, por incrível que pareça, os meus colegas também sempre me acolheram e me ajudaram. Eles empurravam minha cadeira e me apoiavam para subir os lugares mais difíceis… Eu sei que fui muito privilegiada porque eu fui crescendo cercada de amor.
Quando eu tinha sete anos, a minha mãe engravidou outra vez, e desde o primeiro instante, eu a vi como minha bonequinha, que eu ia amar e proteger para sempre.
Uma rasteira do destino
Os anos foram passando e tudo parecia caminhar bem, até que a vida veio com uma rasteira. Eu tinha 13 anos quando meu pai, sofreu um AVC que paralisou o lado esquerdo do corpo. Foi uma fase difícil, principalmente para minha mãe, que precisava dar conta de tudo. Eu já me virava sozinha, mas tinha situações em que ainda dependia dela.
Além disso, minha irmã era bem pequena e exigia mais atenção também. Era pesado para ela. Muito pesado. Um dia, eu vi meu pai chorando na frente da cama e sem perceber, dei uma lição de moral nele.
— Pai, quantas vezes o senhor me viu chorar por não conseguir andar? Para de chorar! Olha para mim, eu dei um jeito de andar, de fazer minhas coisas… Levanta dessa cama!
Na hora, minha mãe me chamou atenção, porque eu tinha sido muito dura. Mas, hoje, ele mesmo diz que foram aquelas palavras que despertaram nele a vontade de reagir e lutar para se reerguer. Tanto que, depois de um tempo, o meu pai conseguiu voltar a andar com a ajuda de uma bengala.
Depois, deixou a bengala de lado e, com persistência, passou a caminhar sozinho. Hoje, ele anda normalmente e até dirige. Ele tem algumas sequelas, é verdade, mas tão discretas que quase passam despercebidas.
Aos 17 anos, a minha mãe era a minha melhor amiga. A gente falava sobre tudo, sobre namoradinhos, e mesmo que eu tivesse alguns casinhos, eu nunca me entregava de verdade. Eu nunca quis um relacionamento sério, porque eu sempre acreditei que ninguém poderia me amar para valer. No fundo, eu tinha a certeza de que eu acabaria sofrendo.
Mas, no fim, a minha mãe sempre dizia que, quando ela se fosse, eu teria que cuidar da minha irmã e do meu pai. E que seria bom me permitir conhecer um homem que me respeitasse e me amasse como ela me amava. Eu sempre ria e dizia que nem ela ia morrer e nem eu ia me casar. Mal sabia eu...
A oportunidade de conhecer o amor da minha vida
Um dia, a minha mãe começou a passar muito mal e foi levada às pressas para o hospital. Os médicos descobriram que ela estava com problema em um dos rins e que ela precisaria fazer hemodiálise. Ela ficou completamente desesperada, e, com a pressão arterial e a diabetes disparando, ela precisou ser internada na UTI na hora. E... e infelizmente, não voltou mais.
Minha mãe partiu assim... do nada... de uma hora para a outra. O meu pai ficou completamente sem chão... Além de lidar com a própria dor, tinha minha irmã de só 10 anos para cuidar, e eu, com minhas limitações, que não podia ajudar em muita coisa. Nós tivemos bastante apoio dos meus tios, mas a tristeza o consumia tanto que ele mal conversava com a gente. Eu fui, então ensinando ele a mexer na internet e, aos poucos, ele foi se distraindo, gostando e aprendendo a enfrentar aquele luto.
No ano seguinte, eu consegui meu primeiro trabalho em um supermercado e meu foco era só trabalhar e estudar. Mas, enquanto eu seguia a minha rotina, o meu pai se apaixonava cada vez mais pela internet e, de repente, sem eu saber, ele me cadastrou em um site de relacionamentos. No começo, eu achei uma bobeira, mas decidi experimentar, só para ver no que ia dar.
Foi então que apareceu uma mensagem de um tal Rodrigo. A princípio eu ignorei, mas logo ele enviou outra, bem abusada, perguntando se eu ia mesmo perder a oportunidade de conhecer o amor da minha vida.
Eu confesso que achei engraçado e fiquei curiosa, então eu respondi e, a partir dai, nós começamos a trocar um monte de mensagens. Eu já tinha uma rede social e um blog, onde eu postava fotos minhas na cadeira de rodas e contava a minha história, e ele parecia realmente interessado em me conhecer de verdade.
— Eu te achei linda... Eu queria muito te conhecer melhor.
— Olha, faz o seguinte: dá uma olhadinha no meu blog. Vê tudo com calma, depois me diz se quer mesmo me conhecer. Eu quero que tenha certeza do que está fazendo.
— Eu já vi, Patrícia. Eu já vi tudo. E eu quero sim.
A gente começou a conversar de verdade, e eu fui percebendo que realmente gostava dele, mas mesmo assim, eu não conseguia me entregar por completo. Eu queria ter certeza de que ele realmente queria algo comigo. Era como se a minha mente não acreditasse que alguém pudesse gostar de mim de verdade. Mesmo assim, ele tava sempre presente...
Sempre me ligava no mesmo horário, pontual, como se fosse uma rotina sagrada. E foi numa dessas conversas que ele me chamou para sair. Nós marcamos de nos encontrar no shopping, mas, no dia, caiu um temporal daqueles de alagar tudo.
— Como assim não vai poder ir?
— Essa chuva, Rodrigo... A minha cadeira é motorizada. Eu não posso arriscar molhar.
— Não tem problema. Eu vou até a sua casa, então.
— Como... como assim? Aqui?
— Sim, eu tô indo.
Eu fiquei meio sem reação, surpresa com a coragem dele. Mas meu pai, que tinha ouvido toda a conversa, não só aprovou a ideia como se ofereceu para buscá-lo no metrô. Ele chegou em casa, se apresentou e naquele mesmo dia… me roubou um beijo. Meu coração disparou, mas eu tentei me controlar. Eu pensei: "Ok. Vamos ver no que dá", mas sem querer criar muitas expectativas.
Eu não queria me entregar totalmente, porque eu tinha muito medo de me machucar. Eu tinha aquele pensamento que, muitas vezes, quem tem alguma deficiência tem de que ninguém vai te amar de verdade, que o amor completo nunca será para você.
“Cuidar dela é tudo o que eu mais quero”
Mas, uma semana depois, ele apareceu com uma aliança de compromisso e me pediu em namoro. Eu fiquei surpresa, feliz, mas ainda assim não botava muita fé. Eu continuava com um pé atrás e com medo de sofrer. Coincidentemente, nesse período, o meu pai também encontrou um novo amor, a Taddeia, que se tornou a minha madrasta.
Depois de um tempo de namoro, um dia o Rodrigo foi lá em casa para conversar com eles, meu pai e minha madrasta, e disse sem muitos rodeios que queria se casar comigo. O meu pai, muito sério, disse que eu precisava de cuidados, de suporte para vida toda e que não seria fácil, mas o Rodrigo respondeu com muita firmeza:
— Seu Sérgio, é que eu quero. Cuidar dela é tudo o que eu mais quero no mundo.
E quando ele finalmente me pediu em casamento, eu não conseguia acreditar e repetia várias vezes.
— Mesmo, Rodrigo? Tem certeza? As coisas não são simples para mim...
— Tenho. Eu tenho.
— Patrícia, eu te amo e tenho certeza. Eu quero estar ao seu lado para sempre e para tudo!
O meu pai ficou muito feliz com a notícia e, como ele tinha planos de mudar de cidade, deixou a gente ficar com a casa. Assim, a gente ia vivendo uma vida a dois e, se desse mesmo certo, a gente oficializaria tudo. A única parte ruim foi que meu pai, minha irmã e minha madrasta mudaram para o interior.
O primeiro ano foi maravilhoso, cheio de momentos felizes.
Nenhuma batalha é maior que a força dentro da gente
Um dia, eu decidi visitar o meu pai e a minha irmã no interior porque eu tava morrendo de saudade. Só que um dia antes da viagem, eu passei muito mal e precisei correr para o pronto-socorro. O médico queria me internar, mas eu não queria perder a minha viagem por nada e assinei um termo de responsabilidade para que me liberassem. Meu marido me deixou na rodoviária e, chegando lá, eu já tava bem inchada, mas para mim eu só tava mesmo acima do peso.
Eu passei três dias lá, tentando aproveitar a viagem, mas de repente senti um ataque de falta de ar muito forte. Eu corri para o pronto-socorro e, depois de vários exames, eu descobri que estava com os meus dois rins parando e precisava de hemodiálise... Hemodiálise.
A palavra “hemodiálise” era um fantasma para a minha família. A gente lembrava da minha mãe, que sofreu tanto e acabou falecendo por complicações renais. O medo tomou conta da gente e, na hora do desespero, o meu pai ligou para o Rodrigo e disse que era melhor ele pegar as coisas dele e viver vida, porque era ele quem ia cuidar de mim a partir dali. Sinceramente, eu, naquele momento, também pensei nisso. Ele era muito novo e podia viver toda uma vida tranquila... Mas não! Ele pediu uma folga no serviço e foi me encontrar na mesma hora e disse que não importava o que meu pai tinha dito, ele queria — e ia — continuar do meu lado.
Depois de um dia, o Rodrigo precisou voltar para o trabalho e eu fiquei morando com meu pai por três meses até conseguir arrumar uma clínica na minha cidade para me tratar. Durante todo esse tempo, ele sempre dava um jeito de falar comigo, de me apoiar, e mesmo de longe ser presente. Quando fui embora, eu trouxe a minha irmã junto comigo. Não só para ela me ajudar, mas também para que eu pudesse cuidar dela. E olha, eu tenho certeza: nós duas somos de outra vida. Para mim, ela é a filha que eu nunca tive.
Eu e o Rodrigo nos casamos em um casamento comunitário, simples, mas cheio de amor. E em 2013, recebi a tão esperada ligação de que tinha um rim disponível para transplante. O Rodrigo ficou desesperado, parecia que quem ia passar pela cirurgia era ele! O nervosismo dele foi tanto que chegou a passar mal e precisou ser internado na UTI.
A cirurgia foi feita, e graças a Deus deu tudo certo! Mas, quatro anos depois, o rim transplantado parou de funcionar também. E lá fui eu de volta para a clínica, começar tudo de novo... Até hoje, eu sigo na luta por outro rim, enfrentando cada desafio com fé e esperança.
Eu quis compartilhar a minha história para mostrar a minha gratidão ao meu marido, que me ama de um jeito que eu nunca imaginei, ao meu pai, que cuidou de mim e continua cuidando, e à minha irmã, que é como a filha que Deus me deu.

Patrícia e Rodrigo (Foto: Band FM)
A vida não me deu caminhos fáceis, mas me deu pessoas que me amam de verdade, que acreditam em mim, que seguram minha mão quando eu penso que não consigo mais.
Hoje, com 38 anos, sigo na luta pelo meu rim. Mas eu sou prova viva de que a vida pode ser dura, mas o amor é mais forte. E que, cercada por amor e fé, nenhuma batalha é maior do que a força que existe dentro da gente. Eu vou conseguir. Eu tenho fé que sim!


