A missão Artemis II, primeira viagem tripulada do programa lunar da Nasa em mais de 50 anos, com previsão de lançamento para esta quarta-feira (1º), vai levar quatro astronautas em uma jornada de cerca de 10 dias ao redor da Lua.
Neste período, os astronautas Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen vão viver e trabalhar confinados no módulo de tripulação da cápsula Orion, um espaço com volume equivalente ao interior de duas minivans. O voo, em fase de preparação para o lançamento, servirá como teste para as tecnologias que devem sustentar futuras estadias prolongadas no espaço profundo.
Dentro da Orion, cada momento da rotina (das horas que antecedem a decolagem às refeições e ao sono em microgravidade) foi planejado para manter a segurança e o mínimo de conforto da tripulação.
O ritual do jogo "Sorry!" e as tradições de lançamento
Antes mesmo de caminhar rumo à plataforma, os quatro integrantes da Artemis II vão cumprir um costume cultivado por equipes de voo da agência: jogar um tabuleiro ou cartas ainda nos alojamentos do centro espacial. No caso desta missão, o escolhido foi o clássico jogo de tabuleiro "Sorry!".
Pelas regras do ritual, a partida precisa continuar até que o comandante perca. Só então o grupo segue para a contagem regressiva.
A ideia é simbólica: deixar que toda a má sorte “caia” sobre o resultado do jogo, para que o voo decole apenas com boas energias e, ao mesmo tempo, ajudar a aliviar a tensão dos últimos minutos em solo.
Conforto compacto: vivendo em um espaço de duas minivans
Dentro da Orion, o espaço habitável é surpreendentemente pequeno: cerca de 330 pés cúbicos de volume interno, o equivalente aproximado ao interior de duas minivans. É ali que os quatro astronautas vão passar dias inteiros monitorando sistemas, realizando experimentos e registrando a viagem.
O ambiente foi desenhado para aproveitar cada centímetro. Na hora de dormir, eles usarão sacos de dormir leves, fixados em pontos de ancoragem nas paredes ou no teto da cápsula.
Suspensos, esses sacos funcionam como quatro redes esticadas pela cabine, evitando que os corpos flutuem desordenadamente.
A rotina prevê cerca de oito horas de sono, com todos descansando ao mesmo tempo para sincronizar o relógio de bordo. Em compensação ao aperto, a vista pela escotilha será única: em determinado momento da viagem, a Lua aparecerá tão próxima que, à distância de um braço esticado, parecerá ter o tamanho de uma bola de basquete, com a Terra se afastando ao fundo.
Adeus fraldas: a tecnologia do novo banheiro e cozinha espacial
A infraestrutura de higiene também mostra o quanto a tecnologia avançou desde as missões Mercury, Gemini e Apollo, quando não havia banheiro a bordo.
Naquela época, os astronautas recorriam a fraldas e sacos para urinar e precisavam coletar os resíduos sólidos em sacolas, armazenadas até o retorno à Terra.
Na Artemis II, a Orion levará o Sistema Universal de Gerenciamento de Resíduos (UWMS), um banheiro espacial compacto, projetado para ocupar pouco volume e massa. O equipamento foi desenhado para facilitar o uso tanto por homens quanto por mulheres, oferecendo mais privacidade e praticidade durante a viagem.
Os momentos de refeição também seguem uma rotina rígida. A tripulação dispõe de cerca de 60 minutos por dia para comer junto, usando um aquecedor de comida personalizado, em formato de “maleta”, semelhante ao da Estação Espacial Internacional.
Nele, os astronautas colocam pacotes de alimentos e bebidas reidratáveis ou termoestabilizadas, que são aquecidos até a temperatura ideal.
Assim, mesmo a centenas de milhares de quilômetros de casa, eles conseguem manter uma dieta quente e adequada, enquanto testam na prática como será viver em viagens ainda mais longas pelo espaço profundo.
O cronograma da Nasa: do Polo Sul lunar rumo a Marte
Ao colocar uma tripulação em órbita lunar e trazê-la de volta com segurança, a Artemis II funcionará como teste definitivo de sistemas críticos no ambiente de espaço profundo. Tudo o que a Nasa aprender nesse voo, de procedimentos de emergência a respostas fisiológicas dos astronautas, servirá de base para as próximas etapas.
A partir dela, a agência planeja uma sequência de missões que começa com o retorno ao solo lunar e, no longo prazo, mira a preparação de viagens humanas a Marte.
- Artemis III (2027): prevista como a histórica missão de retorno à superfície lunar, com foco em locais de pouso na região do Polo Sul da Lua, ainda não explorada na era Apollo. A etapa pretende levar à superfície a primeira mulher, após uma missão de demonstração em órbita baixa da Terra para testar os módulos de pouso comerciais da SpaceX e da Blue Origin.
- Artemis IV (Início de 2028): voltada a avançar nas operações lunares, com a tripulação viajando a bordo da Orion até a órbita da Lua e, de lá, transferindo-se para um módulo de pouso comercial para descer novamente à superfície, em um cenário de operações mais complexas e repetitivas.
- Artemis V (Final de 2028): planejada para voar na configuração padrão do foguete SLS, a missão deve consolidar uma cadência anual de pousos, integrando infraestruturas duradouras para estadias prolongadas na superfície e em órbita lunar.

