Economia

Selic a 15%: o que fazer com dívidas, compras e investimentos agora

Economista explica como reorganizar as finanças em um cenário de juros altos

GABRIELLE PEDRO

29/01/2026 • 14:20 • Atualizado em 29/01/2026 • 14:20

Reprodução/Pixabay

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa Selic em 15% ao ano, anunciada nesta quarta-feira (28), reforça o cenário de juros elevados que já se arrasta há meses no Brasil. Embora o mercado projete o início de um ciclo de cortes a partir de março, o impacto dessa política monetária ainda é sentido diretamente no dia a dia das famílias, especialmente no custo do crédito.

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Segundo o economista-chefe do Banco Bmg, Flávio Serrano, a manutenção da Selic não significa, necessariamente, que o consumidor precise “congelar” decisões financeiras importantes, mas exige planejamento e cautela. “Não é porque o Banco Central ainda não cortou os juros que as taxas não podem cair. Uma boa parte dessa expectativa já está refletida nos preços do crédito”, explica.

Crédito ainda caro, mas com sinais de queda

Serrano destaca que as taxas de juros cobradas do consumidor final não dependem apenas da Selic definida pelo Copom, mas também das expectativas do mercado financeiro. “Os bancos se financiam olhando para a curva futura de juros. Hoje, o mercado já precifica algo perto de 300 pontos-base de queda ao longo de 2026. É como se a Selic implícita estivesse próxima de 12%”, afirma.

Esse movimento já começa a aparecer nos dados oficiais. Segundo ele, as estatísticas mais recentes do Banco Central mostram uma leve queda nas taxas de financiamento de veículos, crédito direto ao consumidor (CDC) e consignado. “As taxas caíram um pouco nos últimos meses justamente porque refletem essa percepção de que os juros vão cair, independentemente de o Copom já ter iniciado o corte”, diz.

Ainda assim, o economista alerta que a inflação — especialmente a de serviços — segue como um fator de cautela. “Se a inflação continuar pressionada, os bancos tendem a ser mais conservadores na concessão de crédito, o que limita uma queda mais intensa das taxas para o consumidor final”, pondera.

Comprar agora ou esperar?

Diante desse cenário, Serrano avalia que a decisão de financiar um carro, imóvel ou eletrodoméstico deve estar menos ligada ao timing do Copom e mais à realidade financeira de cada pessoa. “A decisão precisa estar pautada na capacidade de pagamento. Se a parcela cabe no orçamento e não compromete o fluxo financeiro, não há necessidade de pânico ou de adiar indefinidamente a realização de um sonho”, afirma.

Ele ressalta, porém, que quem está confortável financeiramente pode se beneficiar de esperar um pouco mais. “Ao longo do tempo, com o cenário econômico evoluindo de forma favorável, as taxas podem cair um pouco mais. Mas isso será gradual.”

Endividamento

Para quem já está endividado, especialmente no cartão de crédito e no cheque especial, a recomendação é clara: reduzir o custo da dívida o quanto antes. “Esses são os créditos mais caros do mercado, com juros de 7%, 8% ou até 9% ao mês”, alerta Serrano.

A estratégia, segundo ele, é buscar linhas mais baratas para quitar essas dívidas emergenciais. “Se a pessoa consegue tomar um CDC ou um consignado para pagar o cartão de crédito, vale a pena, porque essas linhas têm juros muito menores”, explica.

O economista, no entanto, faz um alerta importante: a troca precisa vir acompanhada de disciplina financeira. “Não adianta quitar o cartão com um empréstimo e, no mês seguinte, voltar a usar o limite e acabar com duas dívidas. Esse é o caminho clássico da bola de neve”, afirma.

Juros altos favorecem renda fixa

Com o Brasil entre os países com os maiores juros reais do mundo, Serrano avalia que o momento ainda é bastante favorável para investimentos conservadores. “Títulos indexados à inflação, como Tesouro IPCA, e CDBs seguem muito atrativos. Eles protegem o poder de compra e oferecem retornos reais elevados”, diz.

Ele explica que, enquanto a Selic estiver em patamares elevados, aplicações de curto prazo também continuam fazendo sentido. “Hoje, você tem liquidez e uma remuneração mensal perto de 1,2% bruto. É um retorno muito alto para um investimento conservador”, afirma.

Segundo Serrano, a migração para ativos de maior risco, como ações, tende a fazer mais sentido apenas quando os juros se aproximarem de um dígito. “Quando a Selic estiver mais próxima de 10%, aí sim começa a haver uma mudança mais estrutural no perfil dos investimentos”, avalia.

Postura defensiva ainda é a mais indicada

Na avaliação do economista, o cenário atual favorece uma postura mais defensiva por parte do investidor pessoa física. “Com juros desse tamanho, não faz muito sentido inventar moda. A estratégia mais clara ainda é preservar capital, com investimentos seguros e líquidos”, afirma.

Ele recomenda que as famílias organizem seus recursos em três frentes: reserva de emergência, objetivos de médio prazo — como viagens ou troca de carro — e planejamento de longo prazo, voltado à aposentadoria. “Cada uma dessas reservas tem um horizonte diferente e, portanto, exige um tipo de investimento adequado”, explica.

Principal erro em 2026: contar demais com o futuro

Para Serrano, o maior erro financeiro que o brasileiro pode cometer neste ano é tomar decisões apostando em uma queda rápida e intensa dos juros. “A direção é clara: os juros devem cair. O problema é a magnitude. A gente não sabe se vão cair para 12%, 10% ou parar antes disso”, alerta.

Ele lembra que o cenário econômico, tanto no Brasil quanto no exterior, segue marcado por incertezas. “Contar demais com projeções pode ser perigoso. Em um ambiente mais volátil, buscar retornos elevados assumindo mais risco pode gerar frustração”, afirma.

A mensagem final, segundo o economista, é de cautela e planejamento. “O crédito pode ser uma ferramenta importante, mas precisa ser usado com sabedoria. Em um país de renda baixa, errar no uso do crédito pesa muito no orçamento. Planejar bem hoje é o que permite realizar sonhos amanhã”, conclui.

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