Economia

Selic cai para 14,75%: o que muda no seu bolso com a queda dos juros

Analistas veem início da flexibilização, mas alertam para riscos externos e inflação; impacto no bolso será gradual

Da redação
DA REDAÇÃO

19/03/2026 • 15:00 • Atualizado em 19/03/2026 • 15:00

Marcello Casal JrAgência Brasil

Resumo

Banco Central iniciou ciclo de queda da Selic ao reduzir a taxa para 14,75% ao ano, com decisão unânime e ritmo moderado devido ao cenário internacional instável, especialmente pelo conflito no Oriente Médio.

Economistas Natalie Victal, Cristiano Oliveira e Lucas Constantino destacaram sinais de cautela, peso do ambiente global e preocupação com inflação, ressaltando a credibilidade da autoridade monetária e a necessidade de ajustes graduais conforme evolução dos dados econômicos e expectativas.

Consumidores devem sentir redução lenta nas taxas de crédito, enquanto investimentos atrelados à Selic tendem a render menos e o estímulo ao consumo depende da confiança e das condições econômicas, com impactos condicionados ao ambiente de incertezas internas e externas.

O Banco Central reduziu a taxa Selic para 14,75% ao ano, dando início ao ciclo de queda dos juros no Brasil. A decisão, de 0,25 ponto percentual, foi unânime e já era esperada pelo mercado, mas o tom do comunicado e o contexto global indicam que o ritmo de cortes deve ser moderado.

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Para a economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Natalie Victal, a autoridade monetária “entregou o esperado”, mas trouxe sinais relevantes ao mercado. Segundo ela, o Copom indicou um ciclo de “calibração” e deixou aberta a possibilidade de ajustes no ritmo das próximas decisões.

A economista destacou que chamou atenção o maior peso dado ao cenário externo e, principalmente, a projeção de inflação em 3,3%, que, em sua avaliação, tem caráter mais “dovish” (suave). Ela também afirmou que o impacto do choque recente do petróleo foi limitado nas projeções, o que surpreendeu.

Mesmo assim, Victal pondera que o ambiente segue desafiador e o espaço para cortes mais intensos ainda é restrito. A expectativa da casa é de uma redução de 0,50 ponto percentual na próxima reunião, caso o cenário permita.

Na mesma linha, mas com ênfase no ambiente global, o diretor de Pesquisa Econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, afirmou que o principal destaque da decisão é o fato de o ciclo de afrouxamento ter começado “mesmo diante de um choque geopolítico relevante”.

Segundo ele, a redução da Selic ocorre em um contexto de intensificação das tensões no Oriente Médio, que tem pressionado as condições financeiras globais e os preços de commodities. Para o economista, esse cenário eleva a incerteza sobre a inflação mundial e exige cautela das autoridades monetárias, especialmente em países emergentes.

Oliveira avalia que a decisão também reforça a credibilidade do Banco Central e sinaliza uma economia doméstica mais resiliente. Ainda assim, ele destaca que os próximos passos devem ser graduais, com cortes de 0,25 ponto percentual, diante do elevado nível de incerteza. Um ritmo mais acelerado dependeria de melhora no ambiente externo e das expectativas de inflação.

Já o estrategista-chefe da GCB Investimentos, Lucas Constantino, afirmou que a decisão confirma o início do ciclo de cortes, “ainda que em ritmo mais moderado”, refletindo o aumento das incertezas recentes. Segundo ele, o comunicado manteve um tom prudente ao condicionar os próximos ajustes à evolução dos dados econômicos.

Constantino ressaltou que a inflação segue como ponto de atenção. Ele observou que o IPCA mais recente veio acima das expectativas, com aceleração dos núcleos e da inflação de serviços. Além disso, as expectativas permanecem acima da meta no horizonte relevante.

O economista também destacou o impacto das tensões no Oriente Médio, que elevaram o preço do petróleo e devem pressionar os índices de preços nos próximos meses. Em sua avaliação, esse fator torna o processo de desinflação mais desafiador.

Do lado da atividade, Constantino afirmou que há sinais de desaceleração gradual da economia, reflexo dos juros elevados por período prolongado, embora o mercado de trabalho ainda atenue os efeitos no curto prazo.

A leitura predominante entre os analistas é que o Banco Central seguirá com cortes graduais ao longo de 2026, em um processo condicionado tanto ao cenário externo quanto à evolução da inflação e das expectativas.

Impacto no bolso

Para o consumidor, os efeitos da queda da Selic tendem a aparecer de forma lenta. Com juros básicos menores, a tendência é de redução nas taxas de empréstimos e financiamentos, embora esse repasse não seja imediato.

Linhas de crédito como financiamento de imóveis e veículos podem ficar um pouco mais baratas ao longo do tempo, principalmente em novos contratos. Já modalidades com juros mais elevados, como cartão de crédito e cheque especial, costumam reagir mais lentamente.

Por outro lado, investimentos atrelados à taxa básica, como Tesouro Selic e CDBs pós-fixados, tendem a render menos à medida que o ciclo de cortes avança — embora ainda permaneçam atrativos em um cenário de juros elevados.

A redução da Selic também pode estimular o consumo e os investimentos, ao diminuir o custo do crédito. No entanto, esse efeito depende da confiança de empresas e famílias e da evolução do cenário econômico, ainda marcado por incertezas internas e externas.

Assim, apesar do início da flexibilização monetária, o ritmo dos cortes e seus impactos na economia real devem seguir condicionados a um ambiente ainda instável.

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