
A futura médica carrega no jaleco a história e os valores que vêm de casa
Arquivo pessoal
Para muitos estudantes de medicina, o desejo de seguir a profissão surge cedo, às vezes ainda na infância. Com Ana Clara Benitah, 24, esse chamado veio de dentro de casa. Nascida em Juruti, no interior do Pará, na divisa com o Amazonas, ela cresceu acompanhando de perto a rotina de cuidados com a saúde dentro da própria família.
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Ana Clara destaca que seu plano é concluir a graduação e retornar formada em medicina I Crédito: Arquivo pessoal
O irmão é portador de osteogênese imperfeita, uma condição genética rara, e as frequentes viagens para tratamento, especialmente a Brasília, ajudaram a despertar o interesse pela área. “Desde pequena, eu vivia esse ambiente. Acho que isso foi determinante para eu querer ser médica”, conta.
A influência familiar vai além. O avô, Isaias Batista Filho, fundou, no ano 2000, o projeto Ajuri, primeira iniciativa de ação social da região, com atuação nas áreas de saúde, educação e meio ambiente. Ana Clara cresceu acompanhando de perto essas ações.
Participava das missões e dos serviços relacionados à saúde. Essa vivência também teve um peso muito grande na minha escolha. Ana Clara Benitah

Ana Clara ao lado do avô Isaias, referência que despertou o desejo de ajudar o próximo I Crédito: Arquivo pessoal
O início de um sonho
Hoje, ela está no nono semestre de medicina na Faculdade Faseh, em Vespasiano (MG), e será a primeira médica da família. A conquista, no entanto, foi construída com distância e persistência.
O momento da aprovação segue vivo na memória. “Foi um dos dias mais lindos da minha vida”, diz. A notícia de que ia fazer faculdade de medicina foi compartilhada com os pais, a avó e o tio, em uma celebração marcada pela emoção de toda a família.
Aos 17 anos, deixou a cidade natal para estudar fora do Brasil. “Nunca foi fácil. Para seguir esse caminho, precisei abdicar de muitas coisas”, afirma. Segundo Ana Clara, o objetivo de “voltar formada para casa” sempre a guiou e foi o que a manteve firme nos momentos mais difíceis.
Em 2021, no entanto, a trajetória sofreu uma pausa. A morte do avô, vítima da Covid-19, trouxe um impacto profundo. “Eu tranquei a faculdade. Achei que o sonho tinha acabado”, relembra. O período de luto acabou sendo também um ponto de virada: foi quando decidiu retornar ao Brasil e retomar o curso mais perto da família.
A transferência exigiu adaptação, tanto acadêmica quanto cultural, lembra. Em Minas Gerais, enfrentou desafios com o novo método de ensino e com a rotina longe de casa. Ainda assim, encontrou sentido no caminho.
“O dia em que vesti o jaleco e tirei uma foto com a imagem do meu avô foi quando entendi que tudo tinha valido a pena”, conta.
A escolha pela instituição atual foi estratégica. “Pesquisei bastante e me identifiquei com o método ativo de ensino”, explica.

Ao lado da família, Ana Clara encontra a base para seguir na formação médica I Crédito: Arquivo pessoal
O compromisso de levar saúde de volta às origens
Hoje, mesmo a mais de 3 mil quilômetros de Juruti, Ana Clara mantém o plano de retorno. Quer voltar formada para contribuir com a região onde cresceu, uma decisão alinhada ao propósito que construiu desde cedo.
Para ela, a medicina vai além da estabilidade financeira. “Não é sobre dinheiro. É sobre dar acesso à saúde para quem não tem. A pessoa precisa gostar do que faz, senão vai se frustrar”, analisa.
O legado da família segue vivo. O projeto Ajuri continua em atividade, agora conduzido pela avó, Lucidia de Abreu Benitah Batista, que se tornou a primeira prefeita mulher da cidade. Durante a graduação, Ana Clara também participou de uma missão humanitária no Amazonas, reforçando o compromisso com o cuidado em regiões vulneráveis.
Ao refletir sobre a própria trajetória, ela destaca o aprendizado contínuo, dentro e fora da sala de aula. “Todo dia a gente aprende algo novo. Não só sobre medicina, mas sobre a vida. Entender a individualidade de cada pessoa e de cada doença é essencial para saber o que estamos fazendo ali”, conclui.
