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Acordo Mercosul-UE zera tarifas de exportação e cria mercado 'gigante'

Evaristo de Miranda analisa pacto que cria mercado de 700 milhões de pessoas; para ele, agronegócio europeu teme concorrência do Brasil

Da redação
DA REDAÇÃO

10/01/2026 • 08:47 • Atualizado em 10/01/2026 • 08:47

Resumo

O acordo entre Mercosul e União Europeia é destacado por Evaristo de Miranda como um marco para a internacionalização do Brasil, conectando dois blocos com mais de 700 milhões de pessoas e prevendo tarifas quase zeradas para a maioria dos produtos comercializados na próxima década.

A derrubada gradual das barreiras alfandegárias beneficiará 91% das exportações europeias ao Brasil e 92% das exportações brasileiras à Europa, mas os impactos imediatos no agronegócio brasileiro serão limitados devido a cotas e restrições; já em 2025, o Brasil exportou cerca de 23 bilhões de dólares ao bloco, principalmente em commodities como soja, café, celulose, frango e carne bovina.

A resistência de agricultores europeus, especialmente na França e Alemanha, se baseia no receio da competitividade brasileira e na dependência de subsídios estatais, enquanto o Brasil destaca vantagens sanitárias e ambientais, além de prever desafios para setores nacionais frente à entrada de produtos europeus de alto valor agregado, com expectativa de benefícios econômicos mais concretos no médio prazo.

O ecologista e especialista em agronegócios, Evaristo de Miranda, classifica o acordo entre Mercosul e União Europeia como um marco fundamental para a inserção internacional do Brasil. Em entrevisgta para a Radio Bandeirantes neste sábado (10), ele destaca que o tratado conecta dois blocos que somam mais de 700 milhões de pessoas e projeta um cenário de tarifas praticamente zeradas para a grande maioria dos produtos comercializados entre as regiões na próxima década.

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Para Miranda, a concretização do pacto é essencial para a economia nacional, superando qualquer cenário de isolamento. “Globalmente, esse acordo é muito positivo. O acordo é muito melhor do que não tê-lo”, define o especialista, ressaltando o potencial de atração de novos investimentos e o estímulo à inovação pela via da concorrência.

Fim das tarifas e trocas comerciais

Um dos pontos centrais da análise recai sobre a derrubada de barreiras alfandegárias. Segundo Evaristo, o texto do acordo prevê que “91% do que a Europa exporta para o Brasil” e “92% do que o Brasil exporta para a Europa” terão suas tarifas reduzidas a zero. Essa transição deve ocorrer de forma gradual: em até quinze anos para os produtos europeus entrarem no Brasil e em até dez anos para os produtos brasileiros entrarem na Europa.

Entretanto, ele ainda pondera que os efeitos práticos no volume de exportações do agronegócio brasileiro não serão imediatos. Isso ocorre devido ao sistema de cotas e restrições ainda vigentes por parte da União Europeia. “No curto prazo, não teremos grandes impactos”, avalia. Ele recorda que, apenas em 2025, o Brasil já exportou cerca de 23 bilhões de dólares em produtos agropecuários para o bloco europeu, com destaque para commodities (matérias-primas com cotação global) como soja, café, celulose, frango e carne bovina.

Resistência europeia e subsídios

A principal trava para a implementação total do acordo reside no temor dos agricultores europeus, especialmente na França. Evaristo de Miranda explica que o setor agrícola de lá enxerga a eficiência produtiva do Brasil como uma ameaça direta.

Países como França e Alemanha apresentam resistência política devido à pressão de seus produtores locais. O especialista é enfático ao comparar os perfis dos produtores rurais das duas regiões, apontando uma forte dependência estatal no Velho Continente.

“A agricultura europeia teme muito essa entrada das commodities lá. O agricultor francês não é empreendedor, ele é funcionário público”, dispara Miranda, referindo-se ao alto volume de subsídios governamentais que sustentam a produção naquela região, ao contrário do modelo brasileiro, focado em mercado e tecnologia.

Qualidade sanitária e ambiental

Outro ponto de vantagem competitiva para o Brasil, segundo a análise, é a segurança sanitária e a sustentabilidade. O especialista rebate críticas ambientais europeias lembrando que o Brasil possui um Código Florestal muito mais rigoroso do que a legislação da própria Europa.

No quesito sanitário, a qualidade da proteína animal brasileira também se destaca. Em um momento em que países europeus enfrentam crises com doenças em rebanhos, o Brasil mantém status elevado de controle. “O frango brasileiro não tem gripe aviária”, exemplifica Evaristo.

Desafios e oportunidades na indústria

Enquanto o Brasil deve dominar nas commodities, a Europa vê vantagem na exportação de produtos de alto valor agregado. Itens como vinhos, queijos, presuntos e azeites de oliva terão entrada facilitada no mercado brasileiro. Essa via de mão dupla preocupa setores nacionais específicos, como a cadeia do leite e a viticultura (produção de uvas e vinhos), que precisarão se adaptar a uma concorrência mais acirrada.

Por outro lado, o acordo projeta uma economia de cerca de 4 bilhões de euros em tarifas, o que deve beneficiar o setor industrial e de serviços no Brasil. O especialista lembra que já existem cerca de 60 mil empresas europeias investindo no país, e o tratado deve intensificar esse fluxo.

Para o futuro, a expectativa é que o Brasil aprenda a agregar valor à sua própria produção. “Essa experiência da entrada de produtos com bastante valor agregado no Brasil vai abrir as portas na Europa para produtos brasileiros de valor agregado”, projeta. Os benefícios reais, na visão de Evaristo de Miranda, serão sentidos de forma mais concreta no médio prazo. “Daqui a cinco anos, vai se ver o benefício também”, conclui.

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