
Patrícia Amieiro foi morta em 2008, mas corpo nunca foi encontrado
Reprodução
Resumo
Caso de Patrícia Amieiro, engenheira declarada morta após acidente em 2008 no Rio de Janeiro, segue sem solução definitiva após 17 anos;
O processo contra quatro policiais acusados de envolvimento na morte e ocultação do corpo de Patrícia permanece travado, com condenação anterior apenas por fraude processual, suspensão de novo júri pelo STJ e retirada do depoimento de testemunha-chave, atendendo pedidos da defesa dos policiais e do Ministério Público Federal;
O laudo pericial que contradiz versão dos policiais, indicando que carro de Patrícia foi atingido por tiros de armas da Polícia Militar e cena do crime foi alterada; família e advogado estudam medidas legais e internacionais para garantir direito à verdade e responsabilização dos envolvidos.
Desde 2008, a família de Patrícia Amieiro tenta dar um desfecho para a história da engenheira, desaparecida e declarada morta após sair de uma festa no Rio de Janeiro. Mas, 17 anos depois, além de não terem uma despedida digna, ainda vivem com a angústia de o caso não ter uma solução que traga a sensação de justiça para a jovem.
Em 17 de março de 2026, o Supremo Tribunal de Justiça retirou o depoimento da testemunha-chave do caso. O STJ já havia decidido que a testemunha não poderia falar em juízo. Com a nova decisão, nem mesmo os detalhes que vieram à tona com o relato do taxista podem ser explorados pela acusação.
Com o auxílio da ferramenta do Google Pinpoint, a reportagem da Band.com.br resgatou e analisou depoimentos, decisões da Justiça, laudos e outros documentos sobre a morte e o desaparecimento de Patrícia Amieiro, na região da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Confira a documentação do caso no Google Pinpoint
O processo contra os quatro policiais acusados de matar e desaparecer com o corpo de Patrícia segue parado e teve um revés para a família em novembro deste ano. O Superior Tribunal de Justiça, de forma unânime, recusou o pedido do Ministério Público para ouvir uma testemunha-chave do caso. A medida, revelada pela BandNews FM Rio, atende a defesa dos policiais militares acusados de envolvimento na morte e desaparecimento do corpo da engenheira.
Além disso, o Ministério Público Federal emitiu em novembro de 2025 parecer contrário ao recurso apresentado pelos advogados que representam a família de Patrícia e se posicionou favorável à retirada das declarações da testemunha-chave do caso dos autos.
Após a decisão do STJ, a família de Patrícia Amieiro pode ter dois resultados desfavoráveis: ou os policiais são condenados apenas por obstrução de Justiça, crime comum e com pena de até oito anos, ou sem nenhuma solução, já que um crime de homicídio pode prescrever em 20 anos. Ou seja, a Justiça pode ‘perder o direito de punir’ os acusados de envolvimento no crime em 2028.
O que travou a ação contra os policiais acusados pela morte de Patrícia Amieiro é uma testemunha que seria crucial para o júri. Em 2020, um taxista procurou o Ministério Público e deu detalhes do que viu na madrugada do crime. Para a defesa e para o STJ, a adição seria um constrangimento ilegal, já que a fase de incluir novas testemunhas foi encerrada.
Para Alexandre Dumans, advogado que representa a família Amieiro, a decisão do STJ mostra que não se quer encontrar a verdade dos fatos. “Testemunhas podem aparecer no curso do processo e fora do prazo. Mas isso não é um processo civil, é criminal. E o maior interesse de um processo criminal é a busca da chamada verdade real”, diz.
Com a decisão do STJ, Alexandre afirma que irá tentar sustentar a tese de que os policiais atiraram contra Patrícia. A família da vítima estuda novas medidas legais e internacionais para assegurar o direito à verdade, incluindo o encaminhamento do caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos.
Policiais teriam confundido carro de Patrícia Amieiro com criminoso
Na madrugada de 14 de junho de 2008, o carro que Patrícia Amieiro conduzia pela autoestrada Lagoa-Barra, no sentido de São Conrado, sofreu um acidente repleto de mistério. Ela, que voltava de uma festa, teria batido o carro, que caiu dentro do Canal de Marapendi.
Naquela noite, os policiais Marcos Paulo Nogueira Maranhão e Willian Luís do Nascimento estavam em serviço na base da Patrulha Motorizada Especial da PM. Os dois, no primeiro depoimento, alegaram que um carro em alta velocidade quase atropelou os dois, desceu um barranco e bateu nas pedras.
Marcos Paulo, inclusive, contou que os dois teriam ido até o carro e que não teriam encontrado ninguém. Logo após, eles chamaram os colegas Fábio da Silveira e Marcio Oliveira, que foram prestar socorro a Willian Luís, que teria passado mal após a batida.
Laudo desmentiu policiais
A perícia deu outra versão e desmentiu o primeiro depoimento dos policiais. O laudo apontou que o carro de Patrícia Amieiro foi atingido por três tiros, sendo um no para-brisa dianteiro e outros dois no capô. O laudo aponta que os projéteis que atingiram o capô eram de duas pistolas, nos calibres .380 e .40, usados pela Polícia Militar do Rio de Janeiro.
Atingido pelos tiros, o carro teria então se chocado na mureta da ponte de acesso à Barra da Tijuca, e colidido contra a via transversal. O veículo foi encontrado dias depois do desaparecimento, no Canal de Marapendi, próximo à base da PMERJ.
O laudo pericial aponta que o posicionamento do assento do condutor e a elevação do cinto de segurança dão a hipótese de saída do condutor pela parte da frente do veículo. Para o MP, a ação teria sido praticada antes da última batida do carro. Essa batida impediria o retorno do encosto do banco à posição vertical, o que indicaria que a cena do crime foi alterada.
Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro, os policiais Marcos Paulo e Willian Luis atiraram contra o carro de Patrícia, que trafegava em direção à Barra da Tijuca em alta velocidade. Para o MP, “a ação violenta dos policiais provocou as lesões corporais que foram a causa eficiente dá morte da vítima”.
“A eclosão de excessiva irascibilidade, decorrente de ataque inesperado contra vítima completamente desprevenida, impossibilitou qualquer chance de defesa”, diz a denúncia do MP.
Após a ação, os policiais Fábio da Silveira e Marcio Oliveira foram chamados pelos colegas, que teriam constatado o óbito da vítima e alteraram a cena do crime. As investigações apontam que houve uma mudança na condição do para-brisa dianteiro, com o lançamento de um pedregulho; a modificação da condição final do para-brisa traseiro, onde foi constatado fragmentos de vidro; e a mudança de posicionamento de repouso final do veículo, para tentar indicar que Patrícia teria sido lançada assim que o carro bateu no Canal de Marapendi.
Policiais foram condenados, mas nova testemunha causou reviravolta
Mais de 10 anos depois, Marcos Paulo Nogueira Maranhão e Willian Luís Nascimento foram condenados apenas pelo crime de fraude processual, sendo três anos de prisão. Os outros dois, Fábio Santana e Marcos Oliveira, foram absolvidos.
Para o irmão de Patrícia Amieiro, Adryano, a condenação apenas por fraude processual é revoltante. “É alvará para todo mundo sair matando, escondendo os corpos, porque se esconder os copos, tá tranquilo, é só fraude processual né? Que resposta a Justiça quer dar? É essa? Se sim, é escandaloso ver um caso de tanta repercussão a Justiça não fazer Justiça”, disse, em entrevista ao Band.com.br.
A acusação recorreu da decisão da Justiça e, em 2020, uma nova testemunha foi ouvida pelo Ministério Público e o julgamento foi anulado. Com isso, o processo teve uma reviravolta: essa testemunha, segundo a família da engenheira, seria crucial para condenar os policiais por homicídio e ocultação de cadáver.
“É uma testemunha que viu a cena, quase a única nesse sentido, já que os policiais que estavam ali cuidaram de acobertar a situação. Essa testemunha é valiosíssima e nem o próprio judiciário teve interesse em ouvi-la”, lamenta o advogado da família de Patrícia Amieiro, Alexandre Dumans.
Em 2025, um novo júri foi marcado, para agosto. Mas, em junho, a defesa dos policiais conseguiu um habeas corpus no STJ, que suspendeu o júri. “A única coisa que falta é a marcação do julgamento em plenário, com a oitiva dessa testemunha. Agora quando vai sair, eu não sei, está pela conta do STJ, que vai decidir se vai ouvir ou não a testemunha”, afirma o advogado.
Para a Band, na época da suspensão do júri, a defesa dos policiais justificou que pediu o habeas corpus e a suspensão do júri que deveria ocorrer em agosto porque não há possibilidade no novo júri ter oitiva de testemunha que nunca havia surgido.
Em novembro deste ano, o STJ decidiu negar o pedido do MP de ouvir a testemunha-chave, acatando um pedido da defesa dos policiais envolvidos na morte e desaparecimento de Patrícia Amieiro.
Família de Patrícia Amieiro vive angústia há 17 anos
Adryano Amieiro, irmão de Patrícia, vive a agonia de não ter um desfecho para a morte da engenheira. Para o Band.com.br, ele conta que dedica a vida pela história da irmã e para dar uma resposta à mãe. “Eu tinha 25 anos [quando Patrícia foi morta]. Eu nem me dou conta que passou esse tempo todo, dediquei minha vida para isso. Penso que pelo menos minha mãe, sabendo o que aconteceu, conseguirá seguir”, afirma.
Minha juventude foi engolida pela morte da minha irmã, mas, penso agora que é meu propósito dar luz a essa situação, ajudar quem passa pelo mesmo. É o que me conforta - Adryano Amieiro.
O pai de Patrícia, Antônio, morreu em 2021, sem ver o caso concluído, ou pelo menos ter uma resposta do que realmente aconteceu com a filha. “Ele já vinha debilitado, aí agravou muito a situação dele. O pior é que minha irmã desapareceu no dia do aniversário dele, então tudo tem um peso muito grande”, lamenta Adryano.
pós a morte de Patrícia, Adryano se mudou do Rio de Janeiro pela violência e pelo trauma da perda precoce da irmã. “Já me incomodava a violência, aí juntou tudo. Toda hora morre alguém, entra na estatística, o ciclo não acaba, o que queremos é respaldo da Justiça”, diz.
A falta de resposta do Estado, para Adryano, é o que mais aflige ele e a família. “Tenho certeza que eles mataram e esconderam o corpo. Mataram e sumiram, me conforta isso porque sei que há pessoas que não sabem o que aconteceu com entes queridos, mas ainda assim não vi nenhuma resposta do poder público, do Estado”, afirma.
O Band.com.br tentou contato com a defesa dos policiais e aguarda posicionamento. Caso haja pronunciamento, a matéria será editada.
Fique bem informado!
Receba gratuitamente as notícias mais importantes do dia direto no seu e-mail
Escolha quais newsletters quer receber

