O Comando Vermelho (CV), uma das facções mais antigas e poderosas do Brasil, não nasceu nas favelas, mas sim no sistema prisional.
Sua história, conforme apontam relatórios de inteligência do Governo Federal e da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, é um subproduto direto de uma política carcerária mal planejada durante a Ditadura Militar.
O berço do crime: união inédita no presídio da Ilha Grande
A gênese do que viria a ser o Comando Vermelho está no Instituto Penal Cândido Mendes, localizado na Ilha Grande, um presídio de segurança máxima que se tornou o ponto de encontro de dois mundos distintos nos anos 1970.
De um lado, criminosos comuns de alta periculosidade, como assaltantes de banco. Do outro, presos políticos – militantes que lutavam contra o regime militar.
Documentos históricos e análises de segurança apontam que a decisão do governo de misturar esses dois grupos foi o catalisador. Em um ambiente de extrema violência e opressão, uma aliança improvável foi forjada.
Os presos comuns, liderados por figuras como William da Silva Lima, o "Professor", buscavam conhecimento e organização. Os presos políticos, por sua vez, precisavam de proteção física contra os demais detentos e a brutalidade do sistema.
Essa convivência forçada foi apelidada de "universidade do crime". Os militantes de esquerda ensinaram aos criminosos comuns técnicas de organização, disciplina, planejamento de ações e, crucialmente, uma ideologia de oposição ao "sistema opressor" – neste caso, o Estado e suas forças de segurança.
Da falange vermelha ao lema "Paz, Justiça e Liberdade"
O primeiro nome do grupo foi Falange Vermelha. Sua organização inicial era baseada em um código de conduta rígido e na solidariedade mútua. Criaram uma "caixinha" – um fundo comum abastecido por atividades criminosas, principalmente assaltos a bancos – para financiar a defesa de seus membros, ajudar suas famílias e planejar fugas.
O lema adotado, "Paz, Justiça e Liberdade", reflete essa influência ideológica inicial. Ele não representava uma busca por paz social, mas sim a ausência de conflitos internos e o fim da opressão dentro dos presídios.
"Justiça" era a aplicação de seu próprio código penal, e "Liberdade" era o objetivo final de escapar do controle do Estado.
A virada estratégica: O domínio do tráfico de drogas
Conforme relatórios da Polícia Federal e do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a grande virada estratégica do Comando Vermelho ocorreu no início dos anos 1980.
Com o aumento da segurança bancária e a repressão aos assaltos, a facção viu no crescente mercado de cocaína uma fonte de renda muito mais lucrativa e sustentável.
Ao saírem da prisão, membros do CV começaram a aplicar a estrutura organizacional aprendida para controlar pontos de venda de drogas nas favelas do Rio de Janeiro.
Eles substituíram os pequenos traficantes desorganizados por uma rede hierárquica, armada e territorial. Essa transição marcou a transformação da facção: de um sindicato do crime focado no sistema prisional para uma organização de controle territorial que desafiava diretamente a autoridade do Estado.
O poderio bélico aumentou exponencialmente, e o controle de comunidades passou a ser fundamental não apenas para o negócio, mas como refúgio e base de operações.
O legado e o impacto na segurança pública
A ascensão do Comando Vermelho, segundo a perspectiva dos órgãos de segurança, inaugurou uma nova era no crime organizado brasileiro.
- Modelo de facção: O CV criou um modelo de organização criminal que foi posteriormente replicado por outras facções no Brasil, incluindo seu principal rival, o Primeiro Comando da Capital (PCC), em São Paulo.
- Territorialização da violência: Ao dominar territórios, a facção impôs um poder paralelo, ditando regras e exercendo controle social, o que representa um dos maiores desafios para a segurança pública do Rio de Janeiro até hoje.
- Escalada bélica: A necessidade de defender territórios contra facções rivais e a polícia levou a uma corrida armamentista que elevou os níveis de violência letal na cidade a patamares de guerra.
Em resumo, a história do Comando Vermelho é um estudo de caso sobre as consequências não intencionais de políticas públicas.
Veja quem são os principais chefes do CV, alvos da megaoperação no Rio
A megaoperação policial no Complexo do Alemão e na Penha, no Rio de Janeiro, teve como alvo quatro das principais lideranças da facção criminosa Comando Vermelho.
- BAIANO (Morto): Identificado como Júlio Souza Silva, foi um dos criminosos mortos durante o confronto com as forças de segurança.
- DOCA (Foragido): Edgar Alves de Andrade é considerado a principal liderança do Comando Vermelho atualmente em liberdade. Descrito como extremamente violento, "Doca" conseguiu escapar do cerco policial e continua foragido.
- ABELHA (Foragido): Wilton Carlos Quintanilha, conhecido como "Abelha", também era um alvo prioritário e não foi localizado. Ele é apontado como o responsável por ordenar diversos ataques contra policiais e contra a facção rival Terceiro Comando Puro (TCP).
- BELÃO (Preso): Thiago do Nascimento Mendes foi capturado durante a operação. Sua função na organização criminosa era a de "operador", atuando diretamente na lavagem do dinheiro obtido com o tráfico de drogas e outras atividades ilícitas.
CV, ADA, TCP e Liga da Justiça: mosaico do crime no RJ gera disputa sangrenta
O Rio de Janeiro vive sob a sombra de uma complexa teia de organizações criminosas que disputam territórios, poder e recursos. Longe de ser um problema monolítico, a segurança pública do estado é desafiada por dois modelos principais de criminalidade: as facções criminosas e as milícias.
Relatórios do Instituto de Segurança Pública (ISP-RJ) e de operações da Polícia Civil e Militar do Rio de Janeiro demonstram que, embora ambos os grupos utilizem a violência como ferramenta, suas origens, estruturas e fontes de receita são distintas, criando um cenário de conflito constante.
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