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Carla Zambelli: da fuga ao pedido de extradição

Entenda a trajetória da ex-deputada, do início na política à ida para a Itália e ao pedido de extradição ao Brasi

Da redação
DA REDAÇÃO

26/03/2026 • 16:10 • Atualizado em 26/03/2026 • 16:10

Resumo

A extradição da ex-deputada Carla Zambelli foi autorizada pela Justiça da Itália, e ela deve retornar ao Brasil para cumprir pena de dez anos por invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça, além de condenações por porte ilegal de arma e perseguição, o que resultou na perda de seu mandato parlamentar.

As investigações da Polícia Federal e decisões do Supremo Tribunal Federal apontaram que Zambelli organizou ataques ao sistema do CNJ com apoio do hacker Walter Delgatti Neto, visando desacreditar o processo eleitoral brasileiro e o Judiciário, e foi condenada também pelo episódio em que perseguiu um homem com arma de fogo antes do segundo turno das eleições de 2022.

A trajetória de Zambelli inclui atuação como ativista, eleição em 2018 pelo PSL e reeleição em 2022 pelo PL, proximidade com Jair Bolsonaro e Sergio Moro, envolvimento em episódios polêmicos como negociações políticas e protestos, além de carreira como escritora e histórico de tratamento de saúde.

A Justiça da Itália autorizou nesta quinta-feira (26) a extradição da ex-deputada Carla Zambelli para o Brasil. A previsão é que ela chegue ao país nas próximas semanas para cumprir sua pena na penitenciária feminina do Distrito Federal. Zambelli estava na Itália desde julho de 2025, para onde viajou após ser condenada pelo Supremo Tribunal Federal a dez anos de prisão por mandar invadir os sistemas do Conselho Nacional de Justiça.

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Além desse caso, a ex-deputada também foi condenada por carregar uma arma ilegalmente e perseguir um homem em São Paulo, às vésperas das eleições de 2022. Por causa dessas condenações em regime fechado, ela acabou perdendo o seu mandato na Câmara dos Deputados, já que a Justiça entendeu que não é possível ser parlamentar e estar presa ao mesmo tempo.

Para conseguir trazer a ex-deputada de volta, o ministro Alexandre de Moraes enviou garantias às autoridades italianas sobre as condições da prisão brasileira. Ele afirmou que o presídio onde ela ficará é seguro, limpo, possui atendimento médico e oferece cursos para as detentas, ressaltando ainda que o local nunca registrou rebeliões.

Invasão aos sistemas do CNJ

Carla Zambelli era investigada por ter orquestrado uma operação para invadir sistemas eletrônicos do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para, segundo a Polícia Federal, “expandir narrativa fraudulenta contra o processo eleitoral brasileiro, com o objetivo de tumultuá-lo”. Outro alvo era o hacker Walter Delgatti Neto, notório pelo vazamento de mensagens que descredibilizaram a operação Lava Jato e que foi contratado por Zambelli para inserir um falso mandado de prisão contra Moraes.

No ataque ao sistema do CNJ, em 2023, foi emitido um mandado falso de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes. "Expeça-se o mandado de prisão em desfavor de mim mesmo, Alexandre de Moraes. Publique-se, intime-se e faz o L", dizia o documento falso.

Reprodução/Instagram

Reprodução/Instagram

A Polícia Federal (PF) apontou, no relatório da investigação, que documentos apreendidos com a deputada correspondem aos arquivos inseridos pelo hacker no sistema do CNJ, o que para os investigadores comprova que ela participou do ataque. Assim, a PF concluiu que o ataque foi planejado para colocar em dúvida a credibilidade do Poder Judiciário.

Em maio de 2025, a dupla foi condenada por unanimidade pela 1ª Turma do STF. A pena para Zambelli foi de 10 anos de prisão em regime fechado e multa no valor de dois mil salários mínimos, além de indenização de R$ 2 milhões. Vinte dias depois, ela revelou que havia deixado o país e teve o nome incluído na lista da Interpol.

Prisão em Roma

Quase dois meses depois, a então deputada federal licenciada foi detida em Roma, na Itália, durante uma operação policial no apartamento em que estava morando. Ela chegou a dizer que se entregou voluntariamente, o que foi desmentido pela Polícia Federal e o Ministério da Justiça.

Durante entrevista concedida ao vivo ao canal do YouTube AuriVerde Brasil, Carla disse ter escolhido a Europa como destino para poder atuar pelo fortalecimento da direita nos países da região e "resistir, voltar a ser a Carla que eu era antes das amarras que essa ditadura nos impôs".

Perseguição com arma de fogo

Zambelli também respondeu a outro processo no STF por perseguir um homem com uma pistola na véspera do segundo turno das eleições de 2022. A ex-deputada foi novamente condenada pelo STF pelos crimes de porte ilegal de arma de fogo e constrangimento ilegal.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Carla Zambelli (PL-SP) foi condenada a dez anos de prisão e perda de mandato pela invasão dos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). A decisão foi por unanimidade.

Em entrevista dada no dia em que deixou o Brasil, Carla disse ter sido usada como "bode espiatório" pela derrota de Jair Bolsonaro (PL) em 2022, em especial pelo advogado Fábio Wajngarten. E que o episódio da perseguição a um cidadão de arma em punho na véspera do pleito a afastou do então presidente e a colocou em depressão.

O início na política

Em 2018, quando foi eleita para o primeiro mandato na Câmara dos Deputados pelo PSL, com 76,3 mil votos, Zambelli aparecia como uma nova figura da direita.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

Chamava a atenção uma possível relação com o grupo feminista Femen, que protestava contra o turismo sexual, sexismo, homofobia e racismo. Zambelli participou de protestos em 2012, mas logo se afastou do coletivo e de suas pautas. Em 2015, a então militante do Nas Ruas acorrentou-se com outras sete pessoas em uma pilastra na Câmara dos Deputados. O objetivo era pressionar o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) a abrir o processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Em seu primeiro mandato como deputada federal, ela mantinha alianças com Joice Hasselmann, até então apoiadora de Jair Bolsonaro, com quem rachou ainda no primeiro ano de legislatura. Outro nome que se destaca é o de Sergio Moro, antes juiz federal ligado aos julgamentos em primeira instância da Operação Lava Jato, depois Ministro da Justiça e Segurança Pública do governo Bolsonaro.

Em 2020, em meio à crise que levou à saída de Moro da pasta, foram reveladas mensagens entre Zambelli e o então ministro. Ela teria oferecido uma vaga no STF para Moro em troca da nomeação de Alexandre Ramagem como diretor-geral da Polícia Federal.

No fim, Moro deixou o governo e Ramagem foi diretor-geral da Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Ele é um dos réus na ação penal sobre a tentativa de golpe contra o resultado da eleição presidencial de 2022, cujo julgamento terá início no mês que vem.

Quem é Carla Zambelli

Considerada uma das apoiadoras mais fiéis do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Carla Zambelli foi eleita deputada federal em 2018 pelo Partido Social Liberal (PSL) e reeleita em 2022 pelo Partido Liberal (PL), como a segunda deputada mais votada de São Paulo.

A deputada do PL tem 45 anos e é natural de Ribeirão Preto, São Paulo. Formada em Planejamento Estratégico Empresarial pela Universidade Nove de Julho (Uninove), atuou na área até 2015, quando pediu afastamento da empresa que trabalhava, a KPMG, para tratar um tumor no cérebro.

Além da vida política, a deputada também é registrada na profissão de escritora, tendo lançado o livro Não foi Golpe - Os bastidores da luta nas ruas pelo Impeachment de Dilma, publicado pela LVM Editora, em 2018.