Band Política

Flávio Bolsonaro nega troca de favores com Vorcaro após vazamento de áudio

Senador diz que buscava patrocínio privado para filme sobre Jair Bolsonaro e nega irregularidades com banqueiro

Da redação
DA REDAÇÃO

13/05/2026 • 19:00 • Atualizado em 15/05/2026 • 13:37

O senador Flávio Bolsonaro afirmou nesta quarta-feira (13) que não recebeu “dinheiro ou qualquer vantagem” do banqueiro Daniel Vorcaro após a divulgação de um áudio em que cobra repasses para financiar o filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em nota oficial, o parlamentar também defendeu a instalação de uma CPI para investigar o Banco Master e tentou diferenciar sua relação com Vorcaro da proximidade atribuída por ele ao banqueiro com integrantes do governo Luiz Inácio Lula da Silva.

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“É preciso separar os inocentes dos bandidos”, afirmou Flávio. “Não ofereci vantagens em troca. Não promovi encontros privados fora da agenda. Não intermediei negócios com o governo. Não recebi dinheiro ou qualquer vantagem.”

A manifestação ocorreu após a divulgação, pelo Intercept Brasil, de conversas interceptadas pela Polícia Federal no âmbito da Operação Compliance Zero. O conteúdo foi confirmado à Band pela PF e pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Até o momento, não há acusação formal contra Flávio no caso.

Pouco antes de o conteúdo com o áudio ter sido publicado, Flávio Bolsonaro foi questionado presencialmente por um repórter do Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao filme e negou.

“De onde você tirou essa informação? É mentira”. Em seguida, deu uma gargalhada e se retirou de onde concedia entrevista à imprensa, próximo ao Supremo Tribunal Federal (STF). Antes, o senador havia se reunido com o ministro Edson Fachin, presidente da Corte.

O áudio de Flávio para Vorcaro

As mensagens mostram o senador pressionando Vorcaro pelo pagamento de parcelas prometidas para o filme “Dark Horse”, produção sobre Jair Bolsonaro que vem sendo articulada desde 2024 e teria previsão de orçamento superior a R$ 130 milhões.

Em um áudio enviado ao banqueiro em 16 de novembro de 2025, Flávio relata dificuldades financeiras enfrentadas pela produção e diz que a interrupção dos pagamentos poderia comprometer contratos com nomes do cinema americano.

“Aqui a gente está passando por um dos momentos mais difíceis das nossas vidas”, afirma o senador na gravação. “Está num momento muito decisivo aqui do filme. E, como tem muita parcela para trás, está todo mundo tenso.”

Na sequência, Flávio menciona o ator Jim Caviezel, conhecido por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, e o cineasta Cyrus Nowrasteh. Segundo ele, um eventual calote poderia gerar desgaste internacional para o projeto.

“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus. Os caras renomadíssimos no cinema americano e mundial”, diz o senador. “Todo efeito positivo que a gente tem certeza que vai vir com esse filme pode ter o efeito elevado a menos um.”

Flávio também afirma na gravação que a produção corria risco de perder “ator, diretor, equipe, perder tudo” caso os pagamentos não fossem retomados rapidamente.

Segundo documentos obtidos pelos investigadores, o Banco Master já teria desembolsado cerca de R$ 61 milhões para financiar o projeto desde 2024. O valor total previsto para o filme chegaria a R$ 134 milhões, mas parte dos aportes teria sido interrompida após o agravamento da crise envolvendo o banco e seu controlador.

“Dark Horse” é o novo filme sobre Jair Bolsonaro | Crédito: Reprodução/Instagram/@therealjimcaviezel

“Dark Horse” é o novo filme sobre Jair Bolsonaro | Crédito: Reprodução/Instagram/@therealjimcaviezel

Na declaração de Imposto de Renda do Banco Master, consta um repasse de R$ 2,39 milhões para a empresa Entre Investimentos, utilizada para financiar a produção cinematográfica. Outros pagamentos destinados à mesma empresa também passaram a ser analisados pelos investigadores.

Na nota divulgada nesta quarta (13), Flávio afirmou que o filme não utilizou recursos públicos e negou qualquer irregularidade na relação com Vorcaro. “No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”, declarou.

O senador também afirmou ter conhecido Vorcaro apenas em dezembro de 2024, quando, segundo ele, “não existiam acusações nem suspeitas públicas” contra o banqueiro. Disse ainda que o contato voltou a ocorrer posteriormente por causa dos atrasos nas parcelas de patrocínio necessárias para concluir o filme.

A nota de Flávio foi divulgada horas depois de o senador negar a existência das negociações ao ser abordado pelo Intercept Brasil em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF). Na ocasião, ele havia acabado de participar de uma reunião com o ministro Edson Fachin. “De onde você tirou essa informação? É mentira”, respondeu o parlamentar, antes de rir e deixar o local onde concedia entrevista.

Vorcaro voltou a ser preso em março deste ano durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal. A prisão foi autorizada pelo ministro André Mendonça.

A investigação apura suspeitas de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos atribuídas a uma organização criminosa. Em etapas anteriores da operação, a PF também passou a investigar a suposta emissão de créditos falsos que poderiam alcançar R$ 17 bilhões em títulos forjados.

Um dia após o envio do áudio por Flávio, Vorcaro foi preso enquanto tentava deixar o país, segundo a investigação. A repercussão política do caso provocou forte reação no mercado financeiro. O dólar disparou 2,31% nesta quarta e voltou a fechar acima de R$ 5, encerrando o dia cotado a R$ 5,0086 —maior valor de fechamento desde 10 de abril.

A leitura predominante entre agentes financeiros foi a de que a divulgação das mensagens ampliou a incerteza política em torno da eleição presidencial de 2026, num momento em que parte do mercado vinha reduzindo prêmios de risco diante do crescimento de Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais.

Operadores relataram aumento da procura por proteção cambial e desmontagem acelerada de posições vendidas em dólar após a divulgação das conversas entre o senador e o banqueiro. Analistas também apontaram desconforto com medidas recentes do governo Lula para tentar conter os preços dos combustíveis e estimular a atividade econômica, entre elas subsídios e mudanças tributárias sobre importações internacionais.

Apesar da pressão externa provocada pela alta dos juros dos títulos do Tesouro americano, operadores destacaram que o real teve desempenho pior do que outras moedas emergentes e latino-americanas ao longo do dia, sinalizando que os fatores domésticos tiveram peso decisivo na disparada do câmbio.