A Polícia Federal (PF) investiga o destino de milhões de dólares supostamente repassados pelo ex-dono do Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro, para a produção de uma cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O empresário está preso desde março sob suspeita de crimes como lavagem de dinheiro e corrupção.
O escândalo veio à tona após áudios mostrarem o senador Flávio Bolsonaro (PL) pressionando Vorcaro pelo pagamento, o que expõe uma teia financeira que contradiz versões oficiais da família e levanta a suspeita de que parte dos recursos do longa-metragem tenha sido desviada para bancar despesas pessoais do ex-deputado Eduardo Bolsonaro no exterior.
Áudios vazados e medo do calote
Toda a operação financeira em torno do filme "Dark Horse" tornou-se pública através de reportagens do site Intercept Brasil. Mensagens interceptadas pela PF, no âmbito da Operação Compliance Zero, mostraram Flávio Bolsonaro cobrando intensamente Daniel Vorcaro por parcelas atrasadas do patrocínio.
O filme, uma cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem estreia prevista para setembro de 2026 e orçamento superior a R$ 130 milhões, valor que supera o custo de produções brasileiras indicadas ao Oscar, como “Ainda Estou Aqui”, que custou em torno de R$ 45 milhões.
Nos áudios, Flávio demonstra tensão com a possibilidade de o projeto parar e prejudicar a imagem da família internacionalmente. "Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel, num Cyrus. Os caras renomadíssimos no cinema americano e mundial", apelou Flávio, referindo-se ao ator principal, famoso por "A Paixão de Cristo", e ao diretor do longa.
O caminho do dinheiro
A partir das cobranças, a Polícia Federal passou a rastrear os cerca de R$ 61 milhões que já teriam sido efetivamente transferidos pelo banqueiro. Segundo as investigações, os valores saíram de fundos ligados a Vorcaro, passaram pela empresa Entre Investimentos e Participações no Brasil, e foram enviados ao fundo Havengate Development, sediado no Texas, estado norte-americano onde Eduardo Bolsonaro reside atualmente.
O ponto crucial para a PF é que esse fundo no exterior é gerido por Paulo Calisto, advogado de Eduardo Bolsonaro. A polícia apura se a totalidade desse dinheiro foi realmente injetada no filme ou se serviu para custear a vida do ex-deputado, considerado foragido pela Justiça brasileira, nos Estados Unidos.
A situação de Eduardo se complicou após a descoberta de contratos digitais assinados em janeiro de 2024. Embora ele tivesse declarado publicamente que apenas cedeu seus direitos de imagem, os documentos mostram que ele e o deputado federal Mário Frias (PL-SP) ocupavam os cargos de chefes de produção-executiva da produtora Go Up Entertainment, função que lhes dava poder direto sobre orçamentos e captação de recursos.
Em mensagens de texto com um intermediário, Eduardo chegou a detalhar cálculos e demonstrar preocupação com a logística de remessas internacionais e o fracionamento do dinheiro.
Contradições e a defesa dos envolvidos
Apesar das evidências em áudio e em contratos, os envolvidos negam veementemente as acusações. Flávio Bolsonaro alega que atuou apenas "no papel de um filho que buscava patrocínio de um empresário para o filme em homenagem ao pai", sem oferecer qualquer contrapartida política com o governo ou dinheiro público.
Eduardo Bolsonaro classificou o caso como uma "história tosca" e uma tentativa de assassinato de reputação para prejudicar a candidatura de Flávio à Presidência. O ex-deputado admitiu ter ocupado o cargo executivo, mas alegou que isso ocorreu apenas no início da produção, como garantia por ter investido US$ 50 mil (R$ 250 mil) do próprio bolso, valor que diz já ter recuperado. Ele nega qualquer repasse de Vorcaro para suas contas.
Curiosamente, a narrativa da família Bolsonaro entra em conflito com a da própria produtora do filme. Tanto a Go Up Entertainment quanto o produtor e deputado Mário Frias emitiram notas afirmando que "não consta um único centavo" de Daniel Vorcaro ou do Banco Master no financiamento de "Dark Horse", contradizendo a cobrança explícita feita por Flávio nos áudios.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ao ser questionado sobre o escândalo envolvendo seu principal adversário político, evitou o embate direto: "É um caso de polícia, não é meu. Eu não sou policial, eu não sou procurador-geral". Daniel Vorcaro, alvo das investigações originais, segue preso preventivamente por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF).
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