
Agropecuária
Reprodução/Mapa
O agronegócio brasileiro, um dos pilares da economia do país, deve sentir impactos limitados com a guerra no Oriente Médio, mas enfrenta desafios importantes ligados ao aumento de custos e à dependência externa de insumos. A avaliação é do economista Plínio Nastari, presidente da Datagro, em entrevista ao Jornal Gente.
Segundo ele, o setor representa cerca de US$ 169 bilhões em exportações anuais e é fundamental para manter o superávit da balança comercial brasileira. Apesar do cenário internacional adverso, a exposição direta do Brasil ao Oriente Médio é relativamente pequena na maior parte dos produtos.
As exceções são três cadeias específicas: carne de frango, milho e açúcar. No caso das aves, cerca de 31,5% das exportações têm como destino a região. Para o milho, o índice gira em torno de 30%, enquanto o açúcar tem exposição de 17,1%. Ainda assim, Nastari avalia que há possibilidade de redirecionamento para outros mercados, além do fortalecimento do consumo interno.
Por outro lado, o principal ponto de atenção está na importação de fertilizantes, especialmente a ureia, com forte dependência de países como Catar e Omã. Desde o início do conflito, o preço da ureia já subiu mais de 50%, pressionando os custos de produção no campo.
Além disso, o aumento do diesel também impacta diretamente o agro. A estimativa é de que os custos possam subir entre 6% e 15%, dependendo da cultura. Esse cenário se soma a problemas estruturais históricos, como a falta de armazenagem adequada e gargalos logísticos, que obrigam produtores a vender a safra rapidamente, muitas vezes em condições desfavoráveis.
O especialista também destacou a fragilidade do setor diante da ausência de políticas mais robustas, como seguro rural amplo. Atualmente, apenas 2,9% da renda do agro no Brasil vem de apoio governamental — bem abaixo de regiões como a União Europeia (19,5%) e os Estados Unidos (11,1%).
Outro fator que pressiona o setor é o cenário internacional. A produção recorde de milho nos Estados Unidos derrubou os preços globais, afetando a rentabilidade dos produtores brasileiros, especialmente os menos tecnificados. Isso já se reflete em aumento de inadimplência e pedidos de recuperação judicial no campo.
Apesar das dificuldades, há oportunidades. O Brasil deve ampliar a produção de etanol, com crescimento estimado de 4,5 bilhões de litros neste ano, impulsionado tanto pela cana quanto pelo milho. O país também segue como referência no uso de biocombustíveis, substituindo cerca de 46% da gasolina por etanol.
Outros setores que podem se beneficiar são os de soja e carne bovina, com o Brasil consolidando sua posição como um dos mais competitivos produtores globais.
Para Nastari, o país tem potencial para avançar ainda mais, especialmente se reduzir a dependência externa de fertilizantes. Hoje, o Brasil importa cerca de 85% desses insumos, apesar de possuir reservas de gás natural, fósforo e potássio ainda pouco exploradas.
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