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Entenda como o Irã usa o Estreito de Ormuz para atacar a hegemonia do dólar

Em entrevista ao Jornal Gente, o advogado Emanuel Pessoa detalha a estratégia iraniana de exigir pagamentos em Yuan, minando a base do poderio econômico americano.

Por Redação
REDAÇÃO

07/04/2026 • 10:39 • Atualizado em 07/04/2026 • 10:39

Enquanto a tensão militar entre Estados Unidos e Irã domina as manchetes, uma guerra paralela e muito mais silenciosa está sendo travada no Estreito de Ormuz — uma guerra econômica que mira o coração do poder americano: o dólar. Em análise sobre o conflito para o Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes, o advogado e especialista em direito empresarial, Emanuel Pessoa, detalhou a estratégia iraniana, que, incapaz de vencer militarmente, aposta em uma "guerra assimétrica" para minar a economia dos EUA.

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Segundo Pessoa, a dinâmica no estreito, por onde passam 20% do petróleo mundial, mudou drasticamente. Navios chineses têm passagem livre, o que levou embarcações de outras nacionalidades a adotarem uma tática de camuflagem, alterando seus registros eletrônicos para "Chinese Crew/Owner" (tripulação/dono chinês) a fim de navegar em segurança. Os que não o fazem enfrentam uma escolha: ou pagam um "pedágio" de 2 milhões de dólares — exigido em moeda chinesa (Yuan) — ou arriscam a hostilidade iraniana.

Há, no entanto, uma exceção crucial: navios que compraram petróleo utilizando a moeda chinesa também têm passagem liberada. Para o especialista, esta é a jogada de mestre do Irã. "O Irã está jogando essa guerra assimétrica de uma maneira muito inteligente", afirma Pessoa. A estratégia ataca diretamente a base do sistema do petrodólar, estabelecido nos anos 1970, no qual as nações do Golfo concordaram em comercializar petróleo exclusivamente em dólares, garantindo uma demanda global constante pela moeda americana em troca de proteção militar dos EUA.

"Quando você passa a negociar o petróleo em outra moeda, você diminui a demanda por dólares", explica Pessoa. "Isso se espalha para as outras commodities e os americanos param de conseguir financiar sua dívida e quebram sob o peso dela mesma."

O blefe americano e os objetivos fracassados

Questionado sobre a aparente tranquilidade dos EUA, que afirmam não depender do petróleo do Golfo, Pessoa é categórico: é um blefe. "Os americanos no Estreito de Ormuz são o ex que finge que não sente falta da mulher", compara. Embora os EUA importem apenas 6% de seu petróleo da região, a verdadeira dependência não é do produto, mas da moeda em que ele é negociado. O fluxo de petrodólares garante que o mundo precise comprar dólares, e esses dólares retornam aos EUA na forma de investimentos e compra de títulos da dívida, financiando o país. Ao forçar o uso do Yuan, o Irã estimula a desdolarização e ameaça esse ciclo.

Segundo o analista, os três principais objetivos de Donald Trump com a invasão ao Irã fracassaram:

Assegurar a continuidade do petrodólar: Ocorreu o oposto, com o Irã promovendo ativamente o Yuan.

Impedir que a China tivesse acesso a energia barata: A China continua comprando petróleo iraniano com desconto.

Manter o preço do petróleo em um patamar baixo para desestimular a transição energética (dominada pela China): O preço disparou, e as exportações chinesas de tecnologia verde aumentaram "violentamente".

Para Emanuel Pessoa, a guerra, que muitos acreditavam ser rápida, se arrasta porque a força da oposição interna no Irã foi superestimada. "Todo mundo se enganou, sem exceção, eu também, achando que esse conflito seria rápido, porque todo mundo superestimou a força dos manifestantes", admite.

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