
Porcos clonados podem gerar órgãos similares aos de humanos
Fapesp
Cientistas da Universidade de São Paulo (USP) anunciaram a clonagem de um porco usando a técnica CRISPR-Cas9. O objetivo é clonar estes animais para gerar órgãos, parecidos com o dos seres humanos, para ampliar as possibildidades de transplantes entre as espécies, o chamado xenotransplante.
O porco clonado nascido na USP não tem nome, como aconteceu com a ovelha Dolly ou o bezerro Marcolino, mas ele possui um códig, o P22. Os animais são resultado do cruzamento de animais das raças Landrace e Large White.
A USP pesquisa a clonagem de suínos há anos através do programa XenoBr, uma iniciativa ambiciosa que utiliza a clonagem e a edição genética para transformar porcos em potenciais doadores de órgãos para seres humanos. O projeto, sediado no Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (HUG-CELL), busca solucionar um dos problemas mais dramáticos da saúde pública: a escassez de órgãos. No Brasil, milhares de pessoas aguardam na fila do transplante, muitas vezes sem tempo hábil para a chegada de um doador compatível.
A tecnologia por trás do "super-porco"
O diferencial da Universidade de São Paulo não está apenas na clonagem em si, mas na técnica de edição genômica conhecida como CRISPR-Cas9. Os cientistas atuam como "tesouras moleculares", editando o DNA dos animais para reduzir as chances de rejeição de órgãos, aumentar a segurança viral e a compatibilidade.
A escolha do porco não é por acaso. O tamanho e a fisiologia dos órgãos dos suínos — especialmente rins e corações — são muito semelhantes aos dos humanos. Além disso, o tempo de gestação curto e a facilidade de criação em ambientes controlados tornam a espécie a candidata ideal para os chamados xenotransplantes.
Unidade de xenotransplante em São Paulo
Para viabilizar a segurança do processo, a USP inaugurou uma unidade de criação isolada e estéril na Cidade Universitária. Lá, os porcos nascem e crescem livres de patógenos, em um regime de assepsia rigorosa. O médico Silvano Raia, da Faculdade de Medicina (FM-USP) e um dos líderes do projeto e pioneiro no transplante de fígado no mundo, destaca que o foco inicial são os rins. O objetivo é reduzir drasticamente o número de pacientes que dependem de hemodiálise no Brasil.
“O transplante de órgãos foi o maior progresso da história da cirurgia. De 2000 a 2022, foram realizados 2 milhões no mundo. Como são indicados para evitar o óbito, pode se considerar 2 milhões de vidas salvas”, conta Raia. “Devido ao sucesso, há uma demanda reprimida. Isso justifica a busca de órgãos adicionais”, afirmou o cirurgião, pioneiro em realizar transplante de fígado com doador vivo no mundo.

