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Após enchente e estiagem, Rio Grande do Sul tem surto de carrapatos

Calor e umidade favorecem proliferação de parasitas no Rio Grande do Sul; prejuízos na bovinocultura do país passam de US$ 3 bilhões

VIVIANE TAGUCHI

03/06/2026 • 07:00 • Atualizado em 03/06/2026 • 07:00

Carrapato-boi infesta gado e representa um grande problema econômico no campo

Carrapato-boi infesta gado e representa um grande problema econômico no campo

Freepik

Produtores rurais do Rio Grande do Sul enfrentam um aumento crítico na infestação de carrapatos nos rebanhos bovinos, fenômeno impulsionado pela sequência de enchentes, estiagens e ondas de calor que atingiram o estado recentemente. Segundo especialistas e dados da Embrapa, o cenário climático instável criou o ambiente ideal para a reprodução do parasita, agravando perdas produtivas e elevando os custos do controle sanitário na região.

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O carrapato-do-boi (Rhipicephalus microplus) representa um dos maiores desafios para a pecuária brasileira. De acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), os danos causados por esse parasita geram prejuízos superiores a US$ 3 bilhões por ano no Brasil.

Essas perdas ocorrem devido à redução no ganho de peso dos animais e à queda na produção leiteira. Além do dano físico direto, o carrapato é o principal transmissor de doenças graves, como a tristeza parasitária bovina, que pode levar os animais à morte e comprometer severamente a rentabilidade das fazendas gaúchas.

Clima favorece o parasita

O médico-veterinário da Ourofino Saúde Animal, Herton Lorenzoni, avalia que as alterações climáticas registradas no Rio Grande do Sul alteraram o ciclo de vida do carrapato. Para ele, o calor excessivo somado à alta umidade tornou o controle muito mais complexo.

"O ambiente ficou muito mais propício para o desenvolvimento do parasita ao longo do ano, especialmente em sistemas de criação a pasto", afirma Lorenzoni. Ele ressalta que o estresse climático sofrido pelos animais também os torna mais suscetíveis a infestações severas.

Desafio da multirresistência no campo

Outro entrave apontado pelo especialista é a chamada multirresistência. Esse termo técnico refere-se à capacidade dos parasitas de sobreviverem a diversos tipos de venenos ou carrapaticidas que eram eficazes anteriormente.

Estudos da Embrapa indicam que o uso repetitivo das mesmas substâncias sem orientação técnica causou uma seleção natural de carrapatos resistentes. Como consequência, muitos produtos tradicionais perderam o efeito, forçando o pecuarista a gastar mais em tratamentos que nem sempre funcionam.

João Augusto Botelho do Nascimento, médico-veterinário e produtor de gado de corte em São Martinho da Serra (RS), sente os reflexos na prática. "A dificuldade no controle tem aumentado significativamente. Isso exige que o produtor adote medidas integradas, com protocolos bem definidos", destaca.

Tecnologias e manejo integrado

Para enfrentar a crise sanitária, o setor pecuário tem apostado no manejo integrado. Essa estratégia consiste em não depender de apenas um método, mas combinar a rotação de princípios ativos, o monitoramento constante do rebanho e o uso de novas tecnologias.

A Ouro Fino lançou um medicamento chamado Nexlaner, que usa o mesmo princípio ativo dos medicamentos usados em pets, o fluralaner. O produto é indicado para o controle de carrapatos e moscas-dos-chifres, surgindo como uma ferramenta estratégica para reduzir a pressão dos parasitas no campo.

Lorenzoni reforça que o controle de carrapatos deixou de ser uma tarefa simples para se tornar uma questão de eficiência econômica. O especialista defende que, diante de um clima cada vez mais instável, o planejamento sanitário personalizado para cada propriedade é o único caminho para garantir a sobrevivência do negócio pecuário no Sul do país.