
Em laboratório, cientistas poderão produzir colágeno de jumento
Adroaldo Zanella/USP
Resumo
Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná desenvolvem tecnologia de produção de colágeno de jumento por fermentação de precisão, eliminando o abate animal e oferecendo uma alternativa sustentável para a indústria global, com previsão de viabilidade técnica até o fim de 2026.
Equipe avança na fase final de laboratório, sequenciando e inserindo DNA em leveduras que atuarão como biofábricas, visando atender ao mercado de ejiao, gelatina tradicional chinesa avaliada em US$ 1,9 bilhão, com potencial de atingir US$ 3,8 bilhões até 2032.
Projeto enfrenta desafio de escalonamento industrial e busca investimento de US$ 2 milhões para ampliar a produção, enquanto propõe solução ambiental diante da queda de 94% da população de jumentos no Brasil, utilizando biorreatores para maior eficiência e sustentabilidade no setor agroindustrial.
Pesquisadores do Laboratório de Zootecnia Celular da Universidade Federal do Paraná (UFPR) avançam no desenvolvimento de uma tecnologia pioneira: a produção de colágeno de jumento por meio de fermentação de precisão. O método, que deve ter a viabilidade técnica apresentada até o fim de 2026, permite a obtenção da proteína em biorreatores, eliminando a necessidade de abate de animais e oferecendo uma alternativa sustentável para a indústria global.
O projeto entra agora em sua fase final de laboratório. Após concluir o sequenciamento e a preparação do DNA, a equipe prepara a inserção desse material genético em leveduras. Esses micro-organismos atuarão como "biofábricas", produzindo o colágeno de forma idêntica à encontrada na natureza, mas em um processo controlado e escalável.
Tecnologia e o mercado de ejiao
A técnica central é a fermentação de precisão. O processo pode ser comparado à fabricação de cerveja: em vez de álcool, os micro-organismos geneticamente modificados são "programados" para fabricar proteínas específicas. No caso da UFPR, o foco é o colágeno de jumento, insumo base para o ejiao.
O ejiao é uma gelatina tradicional da medicina chinesa, produzida a partir da pele do animal, e amplamente utilizada nos setores de beleza e nutrição funcional. O mercado para este produto é avaliado em US$ 1,9 bilhão, com estimativa de chegar a US$ 3,8 bilhões até 2032. "Já avançamos nas etapas mais complexas do ponto de vista científico. Agora estamos prontos para a biofábrica", explica Carla Molento, coordenadora do laboratório e PhD pela Universidade McGill.
Desafio do escalonamento industrial
Apesar dos avanços em bancada, o projeto enfrenta o desafio da escala. Para sair do ambiente laboratorial e testar a produção em biorreatores de 10 a 50 litros, os pesquisadores buscam um aporte de US$ 2 milhões. O investimento é necessário para criar uma infraestrutura robusta que valide o processo em condições próximas às exigidas pelo mercado.
Sem esse financiamento, a pesquisa fica restrita à "prova de conceito" — a entrega de miligramas da proteína para comprovar a eficácia. Segundo Molento, o capital pode vir de fontes públicas ou privadas, atraindo empresas interessadas no modelo B2B (business to business), onde o colágeno purificado seria vendido para indústrias que fabricam o produto final.
Preservação da espécie e sustentabilidade
Além do viés econômico, a iniciativa tem caráter ambiental urgente. A população de jumentos no Brasil sofreu uma queda de 94% entre 1996 e 2024, segundo dados da FAO e do IBGE.
A produção celular apresenta-se como uma solução mais eficiente que a pecuária convencional. Em um galpão com biorreatores, é possível produzir volumes superiores de proteína com menor uso de terra e água, sem os dilemas éticos do abate. A meta da UFPR é consolidar essa tecnologia como uma porta de entrada para outras proteínas alternativas no setor agroindustrial brasileiro.

