Como é a rotina do radiologista, o 'Sherlock Holmes' da medicina

Entre telas e exames, a especialidade investiga padrões e detalhes que orientam diagnósticos e condutas médicas

PRISCILLA VIERROS

29/05/2026 • 11:00 • Atualizado em 29/05/2026 • 11:00

Especialidade médica une tecnologia, raciocínio clínico e análise de imagens

Especialidade médica une tecnologia, raciocínio clínico e análise de imagens

Crédito: Magnific

A radiologia é a especialidade médica responsável por interpretar exames de imagem, como ultrassonografia, tomografia e ressonância magnética. O radiologista atua nos bastidores da medicina, mas com impacto direto nas decisões clínicas.

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Esta reportagem faz parte de uma série especial sobre especialidades médicas, desenvolvida para auxiliar estudantes de medicina na escolha de suas futuras carreiras. O objetivo é apresentar os bastidores, os desafios e a realidade prática de cada área, oferecendo um guia realista para quem está prestes a decidir seu caminho profissional.

Na prática, o dia a dia da especialidade combina análise técnica, raciocínio clínico e, cada vez mais, domínio de tecnologia, como relata a médica radiologista Karina Giassi. “Abrir um exame de ressonância ou tomografia é sempre um desafio diferente”, diz.

Karina Giassi I  Crédito: Arquivo pessoal

Karina Giassi I  Crédito: Arquivo pessoal

Karina lembra que a decisão pela radiologia veio no fim do curso, após um episódio marcante em sala de aula. “Um professor mostrou uma imagem complexa, e fui a única da turma a identificar a estrutura. Ele sugeriu que eu considerasse a radiologia, pela minha ‘noção espacial’”, conta. A partir dali, a especialidade passou a fazer sentido, especialmente pelo perfil investigativo.

É como ser um ‘Sherlock Holmes’ do corpo humano. Karina Giassi

Entre exames, laudos e decisões clínicas

A rotina de um radiologista pode variar conforme o ambiente de trabalho. Além da atuação clínica em consultório próprio, a médica também divide seu tempo com a produção de conteúdo educacional na área de radiologia.

“Chego por volta de 7h15 e atendo pacientes até o fim da manhã. À tarde, reservo a agenda para urgências, reuniões e produção de conteúdo”, explica.

Parte de sua rotina é dedicada à gestão de uma escola online de ultrassom, além da preparação de aulas para cursos e congressos e do desenvolvimento de conteúdos para redes sociais, o que possibilita uma rotina mais flexível.

“É importante frisar que agora estou em uma fase da carreira em que posso me permitir trabalhar menos, mas já trabalhei 90 horas semanais na época da residência. Tento nunca passar de 36 horas; acho essencial que saibamos dosar esse tempo”, enfatiza.

Karina explica que, entre os exames mais frequentes no dia a dia, está a investigação de endometriose, cuja demanda cresceu com a maior conscientização das pacientes — tema sobre o qual também escreveu o livro “Sentir Cólica Não É Normal”, pela editora Actual.

Livro “Sentir Cólica Não É Normal” está à venda pela Amazon

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O mito sobre a radiologia

Muitas pessoas imaginam que o ultrassom é um scanner cujo resultado sai automaticamente, mas Karina explica que não é assim: “O ultrassom é apenas uma câmera do interior do corpo humano. Quem está olhando, analisando, pensando, raciocinando e executando todas as funções do aparelho é o médico”, aponta.

Ela complementa: “Inclusive, é o médico quem escreve o laudo do exame. É uma arte, não é automático”, diz.

Karina também reforça que, além da análise das imagens, há interação constante com outros especialistas. “Quando encontro algo relevante, entro em contato com o médico solicitante para discutir os próximos passos. É um trabalho colaborativo, mesmo sendo, em grande parte, solitário.”

Responsabilidade e pressão por produtividade

A interpretação dos exames exige alto nível de responsabilidade. O laudo radiológico pode ser decisivo para o diagnóstico e, muitas vezes, precisa equilibrar precisão com o contexto clínico.

“Existe uma tendência ao sobrediagnóstico, que pode gerar ansiedade no paciente e exames desnecessários”, alerta.

Outro desafio é a pressão por produtividade, especialmente em serviços ligados a convênios. “Há locais que agendam exames a cada 10 minutos. Isso compromete a qualidade e a atenção ao paciente”, diz. A médica afirma que optou por sair desse modelo para garantir um atendimento mais criterioso.

A radiologia é uma especialidade fortemente impactada pela inovação. Ferramentas de inteligência artificial já auxiliam na otimização de laudos e na análise de dados. “Elas reduzem tarefas repetitivas e liberam tempo para o que realmente importa: o raciocínio médico”, afirma.

No mercado de trabalho, há oferta de vagas, mas a concorrência é crescente. “Está fácil entrar, mas difícil se destacar. Hoje, boa formação e habilidades interpessoais são o mínimo”, pontua.

Perfil e recomendação

A radiologia tende a atrair profissionais com perfil analítico, interessados na resolução de problemas e na interpretação de padrões visuais. “É como um jogo dos sete erros o tempo todo”, compara a médica.

Para estudantes de medicina, a principal recomendação é investir em uma formação ampla durante a graduação. “Não se especialize cedo demais. O raciocínio clínico é o grande diferencial depois”, orienta.

Ao avaliar a própria trajetória, ela não hesita em dizer que escolheria a especialidade novamente. Segundo a médica, a decisão não deve se basear apenas no conteúdo de que se gosta de estudar, mas também em habilidades e interesses desenvolvidos ao longo da vida.

Ao relembrar a infância, cita o gosto por videogames, jogos de observação e histórias de mistério, elementos que, hoje, reconhece na prática profissional. “Radiologia é isso: pesquisar, fazer um ‘jogo dos sete erros’ comparando imagens, jogar videogame no ultrassom. Eu sou feliz demais assim”, conclui.