
Diego Montez, Matheus Boa e Camille Dutra em cena de "Tick, tick...BOOM!"
Paulo Aragon/Divulgação
Em 1996, Jonathan Larson revolucionou o teatro musical norte-americano. Aos 36 anos, ele lançou “Rent”, um fenomeno de público e considerado até hoje um dos espetáculos mais importantes do gênero por tratar de temas como liberdade sexual, homossexualidade e a epidemis da AIDS. Mas Larson jamais veria o escopo total que sua obra tomou: ele morreu em janeiro daquele ano, vítima de uma dissecção da aorta, no dia da primeira prévia da peça no Off-Broadway.
Antes de morrer, Larson escreveu ainda outro musical chamado “tick, tick…BOOM!”, um trabalho semiautobiográfico que contava parte de sua trajetória. Aqui, ele convida a plateia a conhecee um pouco das dificuldades que enfrentou até finalmente se tornar um artista e como ficou cada vez mais assustado com o fato de estar prestes a completar 30 anos e não ter alcançado o sucesso que desejava.
É esse espetáculo que agora chega a São Paulo, em temporada de apenas duas semanas, após uma passagem pelo Rio de Janeiro. Aqui, encontra-se uma montagem intimista, que busca puxar os espectadores para dentro do apartamento, e por que não dizer, do coração de Larson.
O musical é protagonizado por Matheus Boa, que vive Larson, e por Diego Montez e Camille Dutra, que interpretam Michael e Susab, figuras baseadas em pessoas que o autor e compositor conheceu ao longo de sua vida.
“O original mesmo era um monólogo que ele escreveu para si próprio, para encenar sozinho, antes de escrever ‘Rent’ e muitas outras coisas. Essa releitura para três atores já carrega muito desse subtexto do que veio a acontecer com ele na vida, justamente por ter sido estruturada depois. O fato de ele ter existido, de ser uma pessoa real com essa história incrível e trágica, foi um grande desafio para mim. Interpretar alguém que existiu é sempre muito difícil. Acho que só consegui acessar o meu Jon quando entendi que ele tinha que ser o meu Jon. Passei muito tempo tentando imitar o Jonathan Larson”, relata Boa em entrevista ao Band.com.br.
“Tick, tick…BOOM!” também virou um filme da Netflix. Dirigido por Lin-Manuel Miranda, ele rendeu uma indicação ao Oscar para Andrew Garfield, que Boa também buscou usar como referência em sua construção.
"Eu só consegui encontrar o lugar certo quando entendi que o personagem tinha que ter um pouco de mim também. É claro que os profissionais maravilhosos que fizeram esse papel antes de mim sempre servem como inspiração, e eu sempre tento "roubar" o melhor de cada um para construir o meu. Mas acho que o Jon é um personagem que, apesar de ser baseado em alguém real, permite muito espaço para você colocar um pouco de si. Até porque, por ser uma história sobre um artista feita por artistas, é muito sobre a gente também", destaca.
O tema do espetáculo, inclusive, atingiu diretamente o íntimo do artista.
Você não faz ideia do quanto eu estava ansioso para chegar aqui. Mas é isso, é um tema universal. Você não precisa ser um artista para entender a crise de não ter alcançado o sucesso que planejava antes dos 30 anos. É uma história em que é muito fácil se identificar.
Vidas cruzadas

No espetáculo, Diego Montez interpreta alguns personagens, mas o de maior destaque é Michael, um melhor amigo de Jonathan que desistiu da carreira artística para se tornar um empresário de sucesso.
“Esta é a segunda vez que faço um trabalho do Jonathan Larson — eu fiz o 'Rent' também, onde interpretei a Angel. Eu sinto aqui dentro de mim que precisamos passar um recado realmente importante. Quando tratamos sobre a crise do HIV e da Aids nos anos 90, aquele boom horroroso, era uma situação completamente diferente da de hoje. Desde ‘Rent’, há quase 30 anos, fala-se sobre a importância de se conhecer a própria sorologia. Hoje, se você descobre e trata, acabou aquela sentença de morte do passado”, conta o ator.
O espetáculo fala bastante sobre as questões do mundo artístico, que Diego, inclusive, conhece muito bem. Filho do radialista Wagner Montes e da atriz Sônia Lima, ele viu os pais com carreira bastante consolidadas e depois partiu para trilhar o próprio caminho.
“Os meus pais construíram uma carreira muito sólida e de proximidade com o público no Brasil, então eu nunca estive desentendido dessa realidade por parte deles. Mas as minhas próprias dúvidas começaram a surgir depois, quando passei a ouvir e viver coisas na minha carreira que eu ainda não conhecia. As dificuldades chegam para todo mundo. A relação que tenho com a história de ‘Tick, Tick... BOOM!’ é muito baseada nessa inquietude que a arte traz, na instabilidade e no desespero”, ressalta o ator.
Outra figura que lida com as inquietudes na arte no musical é Susan, personagem de Camille Dutra. Namorada de Jonathan, ela começa a se questionar se a vida difícil que leva ao lado do amado é realmente algo que com o que vale a pena lidar.
“Apesar de eu ser uma artista fazendo uma personagem que tem os pés mais no chão que o Jon, eu me relaciono com ela em muitos aspectos. Também busco esse lugar da família, de algo mais estável. Eu sou uma pessoa que gosta de estabilidade, então foi legal usar um pouco disso para me conectar com ela. A Susan não repele a arte do Jon; ela o admira. Mas chega uma hora em que ela percebe que não dá mais para ficar esperando algo acontecer. Ela é uma pessoa de ação”, destaca a atriz.
No espetáculo, Camille tem solos musicais impactantes, o que também se mostrou um desafio.
“Eu sou primariamente cantora; canto há mais tempo do que atuo. Então, o canto sempre é um lugar mais confortável para mim. Mesmo assim, é intimidador porque a música é difícil e temos referências belíssimas de quem já a gravou. Mas o ponto-chave para mim — e a direção me orientou muito nisso — foi entender que essa música é texto antes de qualquer coisa. É um momento muito importante para o Jon, onde ele realiza muitas coisas”, frisa a artista.
Initimista

Toda a ação do espetáculo transcorre em um pequeno palco que simula o apartamento de Jontahan. Nele, há banda que conduz os números ao vivo e os efeitos de luz também trabalham para proporcionar uma atmosfera intimista, de aproximação do público.
Em suma, é um musical que foge da pirotecnia frequentemente associada à Broadway, mas que busca uma conexão mais sutil ao mesmo tempo potente.
"O que priorizamos nesta montagem foi colocar o texto na frente de tudo. Nós queríamos um cenário simples, uma luz minimalista e a menor banda possível, justamente para que todo mundo na plateia se sentisse dentro da casa do Jon. A nossa preocupação desde o primeiro dia era que as pessoas não saíssem do teatro comentando: "Nossa, que cenário mirabolante" ou "Que luz maravilhosa". Queríamos que elas saíssem dizendo: "Esses atores chegaram em mim". É uma história que se comunica muito conosco enquanto artistas e com qualquer pessoa que passe pela crise dos 30 anos — aquela busca por estabilidade, família, carreira e a sensação do tempo passando", descreve Julia Varga, uma das diretoras da produção.
É um espetáculo com o qual aprendemos todos os dias, refinando as intenções. O Jon, por exemplo, tem cerca de cinco monólogos longos. A nossa grande preocupação na direção era que isso não ficasse maçante para o público. Trabalhamos muito para encontrar a dinâmica e o ritmo certos entre eles: dar mais ritmo no primeiro, segurar um pouco no segundo, acelerar no terceiro e trazer mais peso e silêncio no último. Foi um desenho de dinâmica que fomos entendendo e ajustando conforme a temporada acontecia.
Serviço
Espetáculo: Tick, tick... BOOM!
Temporada: 9 a 19 de julho de 2026
Horários: Quintas e sextas às 20h | Sábados e domingos às 16h e às 20h
Local: Teatro Viradalata
Endereço: Rua Apinajés, 1387 – Sumaré, São Paulo - SP (CEP: 01258-001)
Duração: 100 minutos
Classificação etária: 16 anos
Ingressos: A partir de R$ 60 (valores entre R$ 60 e R$ 120)
Vendas online: Plataforma Sympla (Bileto)
Observação: A abertura da casa ocorre uma hora antes do início do espetáculo.

