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Brasil x Estados Unidos: entenda a nova escalada na tensão diplomática

Casa Branca revogou visto da embaixadora brasileira, em novo gesto de pressão antes das eleições. Novo incidente ocorre após série de episódios de tensão diplomática entre dois países

Deutsche Welle
DEUTSCHE WELLE

05/08/2026 • 12:13 • Atualizado em 05/08/2026 • 12:14

Lula e Donald Trump na Casa Branca

Lula e Donald Trump na Casa Branca

Ricardo Stuckert/PR

O Brasil vive nesta semana o mais recente série de episódios de distensão das relações diplomáticas com os Estados Unidos, em razão da revogação na terça-feira (4) do visto da embaixadora brasileira em Washington. A medida da Casa Branca, sob o comando do presidente Donald Trump, é incomum e serve como mais um gesto de pressão sobre o governo brasileiro antes das eleições de outubro.

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A intenção do governo brasileiro agora é adotar uma medida recíproca, segundo o portal g1, mas ainda não está claro qual será exatamente o seu próximo passo.

A tensão chega ao ápice na esteira de uma escalada iniciada em 1º de junho, quando os EUA anunciaram a indicação do presidente da Câmara de Representantes da Flórida, Daniel Perez, para o cargo de embaixador americano no Brasil.

O protocolo diplomático, entretanto, rege que o nome indicado não deveria vir a público antes da aprovação formal pelo Brasil (o chamado "agrément"). Só no fim daquele mês que o governo americano oficialmente levaria o pedido à contraparte brasileira. Aparentemente contrariado com a quebra de protocolo, o governo brasileiro vinha evitando conceder o agrément.

Agora, a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti seria uma resposta à demora do Brasil em avalizar a indicação de Perez, reportou a agência de notícias Associated Press. O posto de embaixador americano no país ficou vago no segundo mandato de Trump, iniciado em janeiro de 2025.

Pedido de Flávio Bolsonaro atendido

Em junho, o pano de fundo já estava repleto de pontos contenciosos, abertos desde a volta do republicano à Casa Branca. O senador Flávio Bolsonaro, alinhado ao trumpismo, visitara, no fim de maio, o americano e membros do seu governo, ocasião em que defendeu a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas.

O pedido seria atendido dois dias depois do encontro entre Flávio e Trump, a contragosto do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O rótulo aplicado sobre o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), na leitura do Itamaraty, impõe riscos à soberania nacional por abrir caminho para eventuais intervenções externas, tal qual aconteceu desde o ano passado no Mar do Caribe e na Venezuela.

Medidas semelhantes já foram adotadas contra organizações criminosas como os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, além da MS-13 (EUA) e do Tren de Arágua (Venezuela).

Mal-estar aprofundado em julho

O mês de julho agravaria o mal-estar diplomático. Primeiro, com a imposição de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, no que foi descrito pelos EUA como punição a "práticas comerciais desleais do Brasil" e "atos onerosos", incluindo o serviço de pagamentos Pix.

A tarifa adicional havia sido inicialmente proposta pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA no mês anterior, dias após a visita de Flávio. O posterior aval da Casa Branca encerraria, assim, uma investigação aberta um ano antes pelo escritório, criada para responder a medidas econômicas "irrazoáveis ou discriminatórias" de governos estrangeiros que restrinjam o comércio americano.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, culpabilizou diretamente Lula pela aplicação das taxas. Numa rede social, ele afirmou que o Brasil não negociara as tarifas de boa-fé com os EUA e que Lula colocara "o próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro".

Em resposta, o Itamaraty chamou as declarações de "inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiro", rejeitando o que chamou de "falsas afirmações sobre o empenho brasileiro em negociar".

"O Secretário Marco Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o Chefe de Estado de um país amigo, que se empenhou pessoalmente pela abertura de canais de negociação em várias ocasiões. O que Rubio chama de ego nada mais é do que a convicção inabalável do Presidente Lula na defesa da soberania brasileira e dos interesses das nossas empresas e de nossos trabalhadores," disse o ministério.

Em 2025, a Casa Branca justificara uma taxação anterior como reação ao que chamou de "perseguição, intimidação, assédio, censura e processo politicamente motivados" contra Jair Bolsonaro e "milhares de seus apoiadores". À época, o ex-presidente estava na mira do Supremo Tribunal Federal (STF), junto a outros 33 acusados, pela trama golpista no início do governo Lula.

Brasil negou vistos a enviados

À pauta da guerra comercial, se somou a revelação pelo jornal Washington Post, no último 24 de julho, de que os Estados Unidos planejavam enviar ao Brasil dois altos funcionários com a missão de questionar a transparência e integridade do sistema eleitoral em 2026.

O Brasil, ciente dos planos, negou os vistos aos enviados americanos. Washington mais tarde negou que eles teriam o objetivo de interferir nas eleições brasileiras. Também o questionamento da integridade eleitoral é pauta cara à família Bolsonaro, tendo motivado os atos antidemocráticos de janeiro de 2023.

A revogação do visto de uma embaixadora nos EUA é sem precedentes; mas, não, de autoridades brasileiras. Desde o ano passado, 16 pessoas já foram alvos da ação, conforme levantamento do site Poder360, incluindo oito ministros do STF, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e outros funcionários ou ex-funcionários do governo.

A embaixadora Viotti não é obrigada a deixar os EUA nem o seu posto diplomático. Mas, se ela sair do território americano, não poderá mais voltar.

ht (ots)