
Lula e Donald Trump na Casa Branca
Ricardo Stuckert/PR
O Brasil vive nesta semana o mais recente série de episódios de distensão das relações diplomáticas com os Estados Unidos, em razão da revogação na terça-feira (4) do visto da embaixadora brasileira em Washington. A medida da Casa Branca, sob o comando do presidente Donald Trump, é incomum e serve como mais um gesto de pressão sobre o governo brasileiro antes das eleições de outubro.
A intenção do governo brasileiro agora é adotar uma medida recíproca, segundo o portal g1, mas ainda não está claro qual será exatamente o seu próximo passo.
A tensão chega ao ápice na esteira de uma escalada iniciada em 1º de junho, quando os EUA anunciaram a indicação do presidente da Câmara de Representantes da Flórida, Daniel Perez, para o cargo de embaixador americano no Brasil.
O protocolo diplomático, entretanto, rege que o nome indicado não deveria vir a público antes da aprovação formal pelo Brasil (o chamado "agrément"). Só no fim daquele mês que o governo americano oficialmente levaria o pedido à contraparte brasileira. Aparentemente contrariado com a quebra de protocolo, o governo brasileiro vinha evitando conceder o agrément.
Agora, a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti seria uma resposta à demora do Brasil em avalizar a indicação de Perez, reportou a agência de notícias Associated Press. O posto de embaixador americano no país ficou vago no segundo mandato de Trump, iniciado em janeiro de 2025.
Pedido de Flávio Bolsonaro atendido
Em junho, o pano de fundo já estava repleto de pontos contenciosos, abertos desde a volta do republicano à Casa Branca. O senador Flávio Bolsonaro, alinhado ao trumpismo, visitara, no fim de maio, o americano e membros do seu governo, ocasião em que defendeu a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas.
O pedido seria atendido dois dias depois do encontro entre Flávio e Trump, a contragosto do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O rótulo aplicado sobre o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), na leitura do Itamaraty, impõe riscos à soberania nacional por abrir caminho para eventuais intervenções externas, tal qual aconteceu desde o ano passado no Mar do Caribe e na Venezuela.
Medidas semelhantes já foram adotadas contra organizações criminosas como os cartéis mexicanos de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, além da MS-13 (EUA) e do Tren de Arágua (Venezuela).
Mal-estar aprofundado em julho
O mês de julho agravaria o mal-estar diplomático. Primeiro, com a imposição de uma nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, no que foi descrito pelos EUA como punição a "práticas comerciais desleais do Brasil" e "atos onerosos", incluindo o serviço de pagamentos Pix.
A tarifa adicional havia sido inicialmente proposta pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA no mês anterior, dias após a visita de Flávio. O posterior aval da Casa Branca encerraria, assim, uma investigação aberta um ano antes pelo escritório, criada para responder a medidas econômicas "irrazoáveis ou discriminatórias" de governos estrangeiros que restrinjam o comércio americano.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, culpabilizou diretamente Lula pela aplicação das taxas. Numa rede social, ele afirmou que o Brasil não negociara as tarifas de boa-fé com os EUA e que Lula colocara "o próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro".
Em resposta, o Itamaraty chamou as declarações de "inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiro", rejeitando o que chamou de "falsas afirmações sobre o empenho brasileiro em negociar".
"O Secretário Marco Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o Chefe de Estado de um país amigo, que se empenhou pessoalmente pela abertura de canais de negociação em várias ocasiões. O que Rubio chama de ego nada mais é do que a convicção inabalável do Presidente Lula na defesa da soberania brasileira e dos interesses das nossas empresas e de nossos trabalhadores," disse o ministério.
Em 2025, a Casa Branca justificara uma taxação anterior como reação ao que chamou de "perseguição, intimidação, assédio, censura e processo politicamente motivados" contra Jair Bolsonaro e "milhares de seus apoiadores". À época, o ex-presidente estava na mira do Supremo Tribunal Federal (STF), junto a outros 33 acusados, pela trama golpista no início do governo Lula.
Brasil negou vistos a enviados
À pauta da guerra comercial, se somou a revelação pelo jornal Washington Post, no último 24 de julho, de que os Estados Unidos planejavam enviar ao Brasil dois altos funcionários com a missão de questionar a transparência e integridade do sistema eleitoral em 2026.
O Brasil, ciente dos planos, negou os vistos aos enviados americanos. Washington mais tarde negou que eles teriam o objetivo de interferir nas eleições brasileiras. Também o questionamento da integridade eleitoral é pauta cara à família Bolsonaro, tendo motivado os atos antidemocráticos de janeiro de 2023.
A revogação do visto de uma embaixadora nos EUA é sem precedentes; mas, não, de autoridades brasileiras. Desde o ano passado, 16 pessoas já foram alvos da ação, conforme levantamento do site Poder360, incluindo oito ministros do STF, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e outros funcionários ou ex-funcionários do governo.
A embaixadora Viotti não é obrigada a deixar os EUA nem o seu posto diplomático. Mas, se ela sair do território americano, não poderá mais voltar.
ht (ots)
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