
Calor volta a São Paulo no fim de semana
Marcelo Camargo/Agência Brasil
Resumo
Um estudo realizado por pesquisadores da Fiocruz e UFBA revelou que aproximadamente 120 mil mortes ocorridas no Brasil entre 2000 e 2019 podem estar associadas às ondas de calor, representando 0,6% dos óbitos no período, com impactos mais expressivos entre idosos, pessoas com doenças respiratórias, mulheres e indivíduos com menor escolaridade.
A pesquisa identificou aumento consistente no risco de internações hospitalares por doenças respiratórias, renais e gastrointestinais durante episódios de calor extremo, afetando principalmente crianças menores de 10 anos, idosos acima de 60 anos e populações socialmente vulneráveis.
O levantamento mostrou crescimento na frequência e intensidade das ondas de calor em todo o país, com destaque para regiões Norte, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, e reforçou a necessidade de políticas públicas de adaptação, fortalecimento do monitoramento, alerta precoce e proteção aos grupos mais vulneráveis diante dos efeitos da crise climática.
Um estudo divulgado nesta quarta-feira (17) aponta que cerca de 120 mil mortes registradas no Brasil entre 2000 e 2019 podem estar associadas às ondas de calor. O número representa 0,6% de todos os óbitos contabilizados no período, desconsiderando mortes por causas externas, como acidentes e violências.
A pesquisa também identificou aumento no risco de internações por doenças respiratórias, renais e gastrointestinais durante episódios de temperaturas extremas.
Intitulado Saúde e ondas de calor no Brasil: evidências sobre mortalidade, morbidade hospitalar e implicações para o SUS, o estudo foi desenvolvido por pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A coordenação técnica contou com o apoio dos projetos Ciência&Clima — parceria entre o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) — e ProAdapta, iniciativa conjunta do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do governo da Alemanha.
O levantamento analisou dados de 5.566 municípios brasileiros, abrangendo praticamente todo o país. Apenas quatro cidades ficaram de fora devido a incompatibilidades técnicas e administrativas: Itaparica e Madre de Deus, na Bahia, Fernando de Noronha, em Pernambuco, e Bombinhas, em Santa Catarina.
Os resultados mostram uma relação consistente entre a exposição ao calor extremo e o aumento da mortalidade. Os impactos foram mais expressivos entre idosos, pessoas com doenças respiratórias, mulheres e indivíduos com menor nível de escolaridade.
Segundo a pesquisadora da Fiocruz Beatriz Oliveira, o principal diferencial do estudo foi integrar, em escala nacional, informações sobre frequência, intensidade e duração das ondas de calor com uma análise detalhada dos impactos sobre internações hospitalares e mortes.
“A inovação deste estudo está em integrar, em escala nacional, a caracterização das ondas de calor considerando frequência, intensidade e duração com uma análise detalhada de seus impactos sobre internações hospitalares e mortalidade”, afirmou.
Para a pesquisadora, a abrangência dos dados permite compreender melhor a dimensão do problema em todo o território nacional e pode contribuir para a formulação de políticas públicas mais eficientes.
“Percebemos que os efeitos são observados em todo o território. Quando a gente olha para os resultados, consegue ter uma dimensão melhor do problema e orientar políticas públicas mais eficazes”, completou.
O pesquisador da UFBA Ismael Silveira destacou que os resultados reforçam a necessidade de tratar as ondas de calor como uma questão de saúde pública.
“Uma importante implicação é o reconhecimento das ondas de calor como um risco importante para a saúde pública. Com isso, podemos chamar atenção para planos de contingência específicos, além de fortalecer a capacidade tanto de antecipação quanto de resposta do SUS”, disse.
Internações aumentam durante períodos de calor extremo
A pesquisa identificou que as ondas de calor elevam de forma consistente o risco de internações por doenças respiratórias, especialmente pneumonia, e por enfermidades geniturinárias, como insuficiência renal, em praticamente todas as regiões do país.
Entre crianças menores de 10 anos, as gastroenterites apareceram como a principal causa de hospitalização associada aos episódios de calor intenso. De acordo com os pesquisadores, a maior vulnerabilidade à desidratação e fatores ambientais que afetam a qualidade da água e a conservação dos alimentos ajudam a explicar esse cenário.
Já entre pessoas com mais de 60 anos, foi observada elevada sensibilidade a doenças respiratórias, renais e metabólicas, incluindo diabetes. O estudo também sugere que eventos cardiovasculares durante ondas de calor podem evoluir rapidamente para quadros graves, levando à morte antes mesmo da hospitalização.
Para o supervisor de Impactos, Vulnerabilidades e Adaptação do projeto Ciência&Clima, Sávio Raeder, os resultados evidenciam que os efeitos do calor extremo atingem de forma mais intensa as populações socialmente vulneráveis.
“Na morbidade hospitalar, exploramos diferentes desfechos de saúde, um tema ainda pouco estudado no país. Na mortalidade, identificamos um gradiente social de risco, com maior aumento percentual do risco de morte entre pessoas com menor escolaridade. Esses resultados reforçam a necessidade de direcionar ações de adaptação e proteção aos grupos mais vulneráveis”, afirmou.
Ondas de calor estão mais frequentes no Brasil
O estudo também concluiu que a frequência e a intensidade das ondas de calor aumentaram na maior parte dos municípios brasileiros entre 2000 e 2019.
Os eventos mais frequentes e duradouros foram registrados nas regiões Norte e Centro-Oeste. Já as ondas de calor mais intensas em comparação com as médias históricas ocorreram principalmente nas regiões Sul e Sudeste.
Diante desse cenário, os pesquisadores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta precoce, além da incorporação de informações climáticas às ações de vigilância epidemiológica e ambiental do Sistema Único de Saúde (SUS).
Para o diretor de Meio Ambiente Urbano do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e integrante do projeto ProAdapta, Maurício Guerra, os resultados demonstram que os efeitos da crise climática já impactam diretamente a saúde da população brasileira.
“A pesquisa traz uma mensagem inequívoca: o calor extremo já está custando vidas no Brasil. Os mais de 120 mil óbitos associados às ondas de calor revelam que a adaptação à mudança do clima precisa avançar com urgência, ampliando a construção de cidades verdes e resilientes”, declarou.
*Com informações da Agência Brasil.

